Torneios europeus começam como pré-temporada para craques que vão à Copa

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Gabriel Jesus já tinha feito fila na defesa do Crystal Palace, mas ficou sem ângulo para finalizar. Minutos depois, porém, Saka cobrou escanteio da direita, Zinchenko escorou, e Gabriel Martinelli, na pequena área, desviou para o fundo da rede.

Aos 19 minutos do primeiro, coube a um dos atacantes brasileiros do Arsenal marcar o primeiro gol na rodada inaugural da Premier League --o time dele venceu por 2 a 0.

Na sexta-feira (5), a liga inglesa, a francesa e a alemã deram o pontapé inicial no calendário 2022/23. A temporada prevê uma parada antes da metade dos torneios, quando será disputada a Copa do Mundo.

Na Itália e na Espanha, as partidas de abertura serão no próximo fim de semana. Em média, cada uma das ligas terá 16 rodadas até 21 de novembro, quando começa o Mundial no Qatar. Além disso, a Uefa também dividiu a Champions League, com a primeira fase disputada até 2 de novembro, e o mata-mata, só em 2023.

Com isso, a tendência é que a maioria dos craques que disputarão a Copa do Mundo tenha, no máximo, 22 jogos oficiais acumulados até o início do torneio. Para especialistas em preparação física, isso deve fazer com que cheguem à competição no auge da forma física.

"Quando se está na metade da temporada é que se atingem os melhores padrões físicos, tanto de força e potência como de velocidade de um atleta", diz à reportagem Marco Aurélio Schiavo, preparador físico do Palmeiras.

O profissional afirma ainda que é nessa fase que os atletas alcançam o chamado "pico de performance", no qual "o acumulo de jogos não é suficiente para gerar danos ou estresse físico". "Então, os atletas podem se apresentar para o período da Copa na melhor fase da performance", afirma Schiavo.

Como a maioria dos jogadores que deverão ser convocados por Tite para o Mundial atua no futebol da Europa, o treinador também conta com esse ganho de rendimento.

"Em termos de condicionamento físico, é inquestionável que será melhor [disputar a Copa] em novembro [no meio da temporada], especialmente para os que jogam na Europa", disse o técnico da seleção.

Historicamente, isso faz diferença. Zidane, por exemplo, chegou à Ásia em 2002 com 50 jogos nas costas. Teve uma lesão muscular e pôde jogar somente uma vez no Mundial. Ele exibiu uma fração do futebol com o qual levara o Real Madrid ao título da Champions naquele ano.

Na mesma edição, Ronaldo se apresentou à seleção depois de uma temporada em que fez só 17 partidas, sendo três completas. No Japão e na Coreia do Sul, fez oito gols e se eternizou com o título e a artilharia.

O risco de lesões, porém, não pode ser descartado. Psicólogos e preparadores físicos explicam que, caso o corpo esteja funcionando em um grau excessivo de tensão provocado, por exemplo, pela ansiedade, os músculos estarão mais enrijecidos e mais suscetíveis a contusões.

Em um ano de Copa, o temor de se machucar e perder a oportunidade de ser convocado para defender seu país é um dos principais gatilhos para a ansiedade.

Para minimizar esse risco pensando não só no Mundial mas também na temporada dos clubes europeus, os principais times prepararam cronogramas especiais de preparação física.

Atual campeão da Champions League, o Real Madrid dividiu o seu calendário em três fases de preparação física, por exemplo. O primeiro compreendeu o início da pré-temporada, na primeira semana de julho, e vai até o próximo dia 10, data em que a equipe disputa a Supercopa da Europa com o Eintracht Frankfurt.

A segunda fase vem com a Copa. De 21 de novembro a 4 de dezembro, os jogadores que não disputarem o torneio no Qatar passarão por novo período de treinamentos, em Madri.

"A pausa nos treinamentos em novembro devido à Copa do Mundo será boa para mim, porque poderemos fazer outra pré-temporada e trabalhar um pouco mais os jogadores que ficam para trás", diz Antonio Pintus, preparador físico do time dirigido por Carlo Ancelotti.

De 4 de dezembro até o fim do ano, todos os que disputarem o Mundial por suas seleções retornarão para um período de descanso e ajustes. Na terceira fase, em janeiro de 2023, haverá condicionamento específico para os que voltarem do Qatar mais exaustos. "Será completamente diferente para os dois grupos", afirma Pintus.

O trabalho dele foi decisivo na temporada passada, como mostrou a força física do Real já na reta final da temporada, com triunfos no Campeonato Espanhol e na Champions.

Na Inglaterra, as equipes têm planos semelhantes e também estão prevendo fazer alguns amistosos com os atletas que não forem ao Qatar.

Nomes como Erling Haaland, Riyad Mahrez, Andy Robertson, Dejan Kulusevski e Jorginho estão entre os mais importantes atletas certos de que não estarão na Copa. Seus países não se classificaram.

"A Copa do Mundo será disputada em um momento ruim. Se você vai para a final ou para a disputa do terceiro lugar, já está bastante ocupado. Todo o mundo sabe que o calendário não está certo", reclamou o técnico do Liverpool, Jürgen Klopp.

De acordo com Marco Aurélio Schiavo, os clubes que tenham muitos jogadores convocados vão precisar fazer um trabalho individualizado com os atletas para equalizar a preparação física de todos.

Além disso, ele acrescenta, "o ideal é que o atleta [fora da Copa], a partir de determinado momento das férias, comece a fazer uma atividade voltada para treinamento de performance", justamente para se apresentar no mesmo nível dos convocados.

Tanto na Copa do Mundo como no pós-Mundial, a preparação física dos jogadores deverá ser a principal preocupação na temporada europeia que acabou de começar.