Técnico de Rodrygo na base lembra de menino que desequilibrava, mas não aceitava desaforo

Rodrygo está em grande fase no Real Madrid. Foto: David S. Bustamante/Soccrates/Getty Images
Rodrygo está em grande fase no Real Madrid. Foto: David S. Bustamante/Soccrates/Getty Images

O técnico Luciano Santos sabe dizer o exato momento em que percebeu estar diante de um talento especial.

Era uma partida do Campeonato Paulista sub-13 e o treinador adversário começou a provocar o atacante do Santos. Fazia piadas, brigava, falava palavrões. O garoto foi buscar uma bola na intermediária e saiu costurando em campo. Passou por quatro e anotou o gol. Não comemorou. Em vez disso, foi tirar satisfação com quem o xingava.

Leia também:

“Por que você fez isso?”, quis saber Luciano depois do jogo.

“Ele ficou me provocando”, foi a resposta.

“Se toda a vez que você for provocado fizer um gol desses, sou eu quem vai te provocar”.

O atacante é Rodrygo, campeão da Champions League pelo Real Madrid e autor dos gols da heroica virada sobre o Manchester City nas semifinais. Também é candidato a estar na lista de Tite para a Copa do Mundo do Qatar.

Quando se refere a Luciano Santos, Rodrygo usa a palavra pai, mas no sentido futebolístico. Foi o único técnico que teve na base. Os dois chegaram juntos à Vila Belmiro em 2011. Subiram juntos de categorias até que aos 16 anos, no final de 2017, o atleta foi chamado para os profissionais. Poucos meses depois, acabou vendido para o Real Madrid.

“Nada disso me surpreende. Os níveis técnico e de competitividade dele sempre foram absurdos. Com 11 anos, já era bicampeão paulista. Antes disso, com 10, já fazia coisas incríveis”, diz o treinador, hoje no Botafogo de Ribeirão Preto.

Mesmo os dirigentes do Santos da época, embora reconheçam o talento nato de Rodrygo, afirmam que o temperamento explosivo do garoto era uma preocupação. Ir tomar satisfações com o treinador adversário é prova disso. Mesmo tão jovem, a comissão técnica iniciou trabalho psicológico para que ele se irritasse menos em campo, especialmente quando recebia faltas repetidas vezes.

“A gente o ajudou muito no controle emocional e mental. Ele era explosivo quando aconteciam adversidades na questão disciplinar. O Rodrygo evoluiu muito nisso”, admite. “Teve de aprender o momento certo para usar a velocidade, habilidade, o drible no um contra um, o que sempre teve, e se transformar no cara com capacidade de definir, finalizar. Foi algo construído com o tempo.

Luciano Santos confessa ter gargalhado ao ouvir a entrevista do seu antigo pupilo após a semifinal da Champions League. Mesmo após entrar no segundo tempo e fazer os dois gols que mudaram a história do confronto, ele lamentou. Havia apostado com o pai que anotaria três vezes.

“Aquilo foi puro Rodrygo. Sempre foi assim, de competir com ele mesmo. Dá para perceber que continua sendo a pessoa que sempre foi, de estabelecer metas, de querer ser o artilheiro. Quase todas as competições que jogou com a gente, ele foi o goleador. A cobrança que ele tinha com ele mesmo era para ser um jogador cada vez mais completo. Quando foi para a Europa, sabia que faria coisas incríveis.”

Quando os dois estão na Baixada Santista, encontram-se, como aconteceu em Praia Grande, no ano passado. Luciano lamenta apenas que os torcedores brasileiros puderam ver tão pouco do atacante nos campeonatos locais. Ficou no profissional do Santos cerca de um ano antes de ir para Madri. Mas reconhece ser algo que faz parte do futebol hoje em dia: a perda precoce de talentos. O contato entre eles acontece hoje em dia por troca de mensagens.

O antigo técnico já sabe qual é o próximo objetivo do jogador que ajudou a revelar: ir para o Qatar no final do ano.

“Eu o vejo na Copa do Mundo. É um prodígio. O Tite sabe disso. Se ele muda um jogo da Champions League em poucos minutos, pode mudar um do Mundial. É um cara que consegue jogar em diferentes posições, sempre de maneira muito boa. É uma grande opção para a seleção”, opina.