Surfe: A história dos Crânios Quebrados em Teahupoo

Teahupoo, na Polinésia Francesa, infelizmente já vitimou surfistas. Foto: JEROME BROUILLET/AFP via Getty Images
Teahupoo, na Polinésia Francesa, infelizmente já vitimou surfistas. Foto: JEROME BROUILLET/AFP via Getty Images

Um nome nada convidativo pra entrar no mar. Teahupoo tem uma beleza assustadora que sequer começa na água. Para chegar até a praia, é preciso seguir, depois do asfalto, em um trilha de terra. Esse trajeto até o mar é conhecido como Passe Havae, que em polinésio significa ̃O fim da estrada”. No mínimo, o nome é temeroso.

Há milhões de anos esses caminhos criados pela erosão da água no solo, o que fez com a bancada tivesse uma rica vida marinha. São corais vivos por toda parte. Afiados e ásperos como lixa, qualquer descuido custa um pedaço de pele, como aconteceu com Filipe Toledo em 2018.

Filipe Toledo mostra marcas de lesão nas costas. Foto: Instagram
Filipe Toledo mostra marcas de lesão nas costas. Foto: Instagram

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Os fatores assustadoramente belos de Tchopo (nome comumente usado pelos locais) não param por aí. De comum só o pico de corais, que faz com que a onda quebre em apenas um lugar. No entanto, não existe um canal ao lado do pico, uma vez que a onda se curva e segue em direção a um recife seco e... ATENÇÃO: abaixo do nível do mar.

Isso tudo se deve porque a bancada sofre uma mudança drástica de profundidade. Por ser uma ilha, literalmente, no meio do Oceano Pacifico, o Tahiti recebe diversas ondulações e é cercado por tempestades no mar, o que aumentam a pressão das ondas.

>> DE SEGREDO A CIRCUITO PROFISSIONAL

Até agora, parece que roteirizamos um cenário de terror. Mas se você perguntar pra qualquer surfista, Teahupoo é desejado por 10 entre 10 deles. Os primeiros a aparecerem por lá foram em 1985.

O taitiano Thierry Vernaudon e alguns amigos remaram por 15 minutos até o pico. Segundo registros, as ondas não eram as melhores, mas os locais adoraram a sensação de beleza e medo que o local trazia.

Até que um dos maiores bodyboarders do mundo, o 11 vezes campeão Mike Stewart e o experiente Ben Severson descobriram o pico. Em nenhum outro lugar no mundo um bodyboarder pode ir tão rápido e tão profundo num tubo quanto lá.

Em 1997, veio o primeira etapa de bodyboard em Teahupoo. Na época, Mike Stewart já era dirigente e lembra do fracasso daquela estreia.

O surf foi terrível. O tempo estava terrível. Estávamos usando um ferryboat para praia, e quando houve uma mudança drástica de vento no meio do dia, a balsa explodiu no recife causando milhares de dólares em danos. Então, no meio do evento, os organizadores nos deixaram porque ficaram sem dinheiro.Mike Stewart, ex-dirigente da Australásia ASP

Owen Wright quando venceu em Teahupoo. Foto: Matt Dunbar/WSL via Getty Images
Owen Wright quando venceu em Teahupoo. Foto: Matt Dunbar/WSL via Getty Images

>> VIDA E MORTE EM UM TUBO

Depois do fracasso, a redenção.

O vento acertou e foram 3 anos de eventos seguidos com bons tubos. Algo que chamou a atenção do mundo surfe. Era cada vez mais comum que figurões como Kelly Slater aparecem no outside. A coragem de desafiar essas ondas sempre pagou um preço, como lembra Neco Padaratz que quase morreu afogado após errar uma manobra, em 2000:

Tomei uma onda na cabeça que me arrastou para as fendas entre os corais e fiquei com as pernas e a cordinha presas. Depois que passou a série, vi a claridade perto de mim, como se eu tivesse perto da superfície, mas não conseguia sairNeco Padaratz, surfista profissional

O acidente foi tão marcante que Neco até pensou em abandonar o surfe e só voltou a Teahupoo sete anos depois. O mesmo aconteceu com Maya Gabeira que em 2014 quebrou o nariz e, desacordada, precisou ser resgatada

O pior aconteceu para o local Briece Taerea. Ele morreu ao bater violentamente contra a bancada e quebrar a coluna em três partes. Além dele, outros quatro surfistas morreram em Teahupoo.

>> CENAS ESPETACULARES

Parece que a quinta-feira resgatou uma história de horror. No entanto, como dito no começo dessa reportagem, Teahupoo é unanimidade entre surfistas e considerado por muitos, um “presente de Deus”. Assim, as lembranças visuais mais marcantes são tão incríveis quantos as relatadas anteriormente.

Veja as 3 melhores lembranças de Teahupoo

3 - Jamie O’Brien pegando fogo no tubo, em 2015:

2 - Robbie Madison dropando de moto, em 2018

1 - Matahi Drollet surfando a maior onda de Tchopo, em 2021