Setembro Amarelo: Pimblett e o nocaute certeiro na luta pela saúde mental masculina

Paddy Pimblett recebeu a notícia da morte do amigo na véspera de sua última luta (Foto: UFC)


"Acordei e recebi uma mensagem lá de casa dizendo que um dos meus amigos se suicidou. Isso foi 5h antes da pesagem. Existe um estigma neste mundo de que os homens não podem reclamar. Escuta aqui, se você é um homem, está carregando muito peso nos ombros e acha que a única solução é tirar sua própria vida: por favor, fale com alguém! Fale com qualquer pessoa! Eu prefiro ter meu amigo chorando no meu ombro do que ter que ir ao seu funeral semana que vem. Então, por favor, vamos acabar com esse estigma. E que os homens comecem a falar."

O desabafo acima foi feito pela sensação do UFC Paddy Pimblett ainda dentro do octógono segundos depois de sua mais recente vitória, em julho, quando finalizou Jordan Leavitt com um mata-leão, anotando o seu terceiro triunfo dentro da maior organização de MMA do mundo.

A alegria da vitória foi anulada pela tristeza pela perda de uma das pessoas que o casca-grossa mais amava. Lutador com letra maiúscula, o inglês aproveitou o palco e a atenção de milhares de telespectadores ao redor do mundo para ingressar numa luta nobre: refletir sobre a saúde mental masculina.

A mensagem de Paddy Pimblett chegou a muita gente, gerou reflexão e certamente mudou alguns rumos. Para o psicólogo André Barbosa, autor de oito livros sobre comportamento, depressão e desafios emocionais, o recado do lutador foi de extrema importância para a sociedade.

"Ele chamou atenção para os homens que sustentam essa coisa de que 'homem não chora', 'homem tem que ser forte o tempo todo"... Enfim, isso é algo desumano. Emoções de tristeza, inseguranças, medos... são completamente humanas, e conversar sobre nos ajuda a lidar melhor com nossas dores emocionais, entender que temos amigos que nos querem bem e nos ajuda a ganhar forças para nos reerguer", destaca.

"No contexto da depressão, por exemplo, é essencial a pessoa entender que ela não está sozinha. Na fala de Paddy, ele fechou falando que 'preferia ter o amigo dele chorando no ombro dele do que ele chorando no enterro do amigo'. Achei muito forte, muito humano, muito profundo", completa o especialista, que é seguido por quase 300 mil pessoas no Instagram @opsicologo.

Baseado na experiência infeliz pela qual passou Paddy Pimblett e outras milhares de pessoas passam a cada ano, o psicólogo alerta para outros tabus perigosos.

"Em nome da eterna felicidade, vivemos relações de amizades superficiais, forjamos um personagem sempre para cima, sempre feliz, e engolimos a seco aquela vontade de conversar questões profundas sobre nossa vida, questões sociais e políticas, para não ser o 'desagradável'. Engolimos vacilos que alguns amigos fazem conosco em nome de manter a imagem do cara bacana, gente boa...", atenta.

"A ditadura da felicidade quer que você se olhe no espelho todo santo e dia e se ache a pessoa mais foda do mundo, com o melhor emprego do mundo, com os melhores amigos do universo, com a melhor família das galáxias... Uma vida que até a Disney tem dificuldades de criar… A ditadura da felicidade gera dor, tristeza, frustração, porque quer que você acredite que se sentir triste quando perde um grande amor é errado. É errado também que você sinta inveja, insegurança, ciúmes... enfim, é errado que você seja humano", enfatiza em tom irônico.

Uma pesquisa encomendada pela farmacêutica Pfizer em 2020, realizada pelo Ibope Conecta, que ouviu mais de 2 mil brasileiros a partir dos 13 anos de idade, mostrou que o número de suicídios entre os homens é maior do que entre as mulheres e que eles também são menos informados.

Em números, no Brasil, a mortalidade por suicídio entre mulheres é de 2,4 por 100 mil habitantes e de homens, 9,2 mil por 100 mil habitantes. Ainda no mesmo levantamento, 29% dos homens atrelaram a depressão à fraqueza. Além disso, pelo menos um a cada cinco homens alegaram que não tomariam antidepressivo mesmo com prescrição médica.

"Sem saúde mental, nada funciona. Olhar para essa área com mais seriedade e de uma forma menos pejorativa - costuma-se associar cuidar da saúde mental apenas para pessoas delirantes, psicoses graves... e a saúde mental não se resume só a isso; é também lidar com estresse, com luto, com medos, inseguranças, relacionamentos, lidar com o sucesso", explica o psicólogo André Barbosa, que possui certificação internacional em terapia cognitiva-comportamental para depressão, ansiedade e transtorno de personalidade pelo Instituto Beck, nos EUA.