Serena encerra um capítulo gigantesco na história do tênis

Serena Williams é derrotada na terceira rodada do US Open 2022 e encerra carreira de tenista profissional. (Photo by ANGELA WEISS / AFP) (Photo by ANGELA WEISS/AFP via Getty Images) (AFP via Getty Images)

A derrota de Serena Williams para Ajla Tomljanovic, por 2 sets a 1 (7/5, 6/7(4), 6/1) nesta sexta-feira (2), encerrou um capítulo gigantesco da americana na história do tênis. Em uma carreira de quase 30 anos, William conquistou 23 Grand Slams de simples, 14 em duplas, 2 em duplas mistas e 4 medalhas de ouro. O US Open de 2022 foi o ponto final dessa brilhante carreira. A americana foi ovacionada na quadra central e saiu bastante emocionada com o carrinho do público.

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Desde o anúncio de sua aposentadoria em um texto na Vogue, Serena tem mostrado um lado diferente da vida de jogadora de tênis. A americana está em vias de ser a primeira mulher bilionária do mundo do esporte. Ela tem investimentos no Miami Dolphins, UFC e empresas de tecnologia. Para termos uma ideia, Serena investiu na franquia de artes marciais mistas em 2016. Na época, Dana White e sua trupe de lutadores tinham um valor de US$ 5 bilhões (R$ 25 bilhões). Atualmente, a franquia vale mais de US$ 10 bilhões (R$ 50 bilhões). Dias antes do início do US Open, ela esteve em Wall Street para anunciar a IPO de uma das empresas que ela fez investimento.

Se fora das quadras, Serena quer conhecer um novo mundo. Dentro, ela vai deixar saudades nos fãs e um legado gigantesco quando começou sua carreira. A primeira partida profissional de Serena Williams aconteceu em Quebec, no Canadá, em 1995. A americana tinha apenas 14 anos e pulou direto para o circuito profissional, por uma ideia de seu pai, Richard Williams – o movimento é retratado no filme ‘King Richard’, que conta a história de Venus e Serena Williams com Richard.

Na época, como ainda acontece atualmente, as tenistas negras eram minoria, mas quando Venus e Serena chegaram no mundo do tênis, apenas Althea Gibson tinha conseguido romper a barreira racial e conquistar títulos com grande relevância no tênis. As irmãs não só atropelaram quem passava pela frente, como criaram um legado para as tenistas que estão atualmente no circuito.

Uma mulher negra de sucesso em um esporte predominantemente branco, ela venceu as probabilidades e oponentes talentosas de várias gerações, ao longo de quatro décadas. Ela esmagou ases e vencedores da linha de base, apressou-se em arremessos, investiu para retornar e se livrou da adversidade dentro e fora da quadra com o tipo de tenacidade e triunfo sustentados que apenas campeões transcendentes podem reunir. Quando ela se despede, as emoções estão bem altas, mas proclamá-la sem reservas como a GOAT (greatest of all time) (a maior de todos os tempos, em tradução do inglês) no tênis feminino não é tão simples quanto parece.

Serena Williams agradece ao público em sua última partida como tenista profissional. (Photo by Julian Finney/Getty Images)
Serena Williams agradece ao público em sua última partida como tenista profissional. (Photo by Julian Finney/Getty Images)

O melhor significa coisas diferentes para pessoas diferentes. O desempenho é parte disso, mas certamente não é tudo, e parece apropriado que o primeiro atleta a adotar o acrônimo GOAT foi Muhammad Ali, que se intitulava compreensivelmente como “o maior” e administrava alguns de seus interesses comerciais por meio de uma empresa chamada G.O.A.T. Inc. Ali era sem dúvida um boxeador fabuloso, mas também uma figura profundamente simbólica.

Os argumentos para ‘a melhor’ são apaixonados e muitas vezes insolúveis, não importa qual seja o esporte. No caso de Williams, maior que a própria vida, merece ser um debate, não uma procissão.

Em entrevista para a revista ‘Time’, Naomi Osaka, do Japão, falou sobre a importância de Serena Williams no esporte. “Lembro-me quando criança assistindo com admiração, e fiquei tão feliz por ver uma mulher negra forte na minha tela. Mesmo que ela esteja se aposentando, seu legado definitivamente vive através de Coco [Gauff], Sloane [Stephens], Madison [Keys] e outras mulheres negras no topo de seu jogo. Serena é inequivocamente a melhor atleta de todos os tempos. Esqueça atleta feminina, quero dizer atleta. Ninguém mais mudou seu esporte tanto quanto ela e contra todas as probabilidades”.

Quando o artigo da Vogue apareceu, além das lágrimas e emoção dos fãs de Serena, um pensamento recorrente transmitido por muitos de seus obstinados foi a tristeza total de ver Serena levar uma surra nas mãos de jogadoras que ela uma vez espanou enquanto dormia, que não tinha nada além de cumprimentar vitoriosamente a mão dela na rede. A perspectiva de testemunhar seu maior campeão perdendo para a média e talvez abaixo da média era demais para ser considerada, e certamente difícil de assistir.

Os observadores precisam de ritual, e sua linguagem contínua, graciosa e voluntária. A passagem da tocha implica cooperação e aceitação, um acordo mútuo de que o tempo passou. Os espectadores precisam disso porque para eles, o telespectador, essa derrota é na verdade parte de sua jornada contínua, pois haverá outras partidas no futuro. Onde a linguagem entra em colapso está na ideia de que a passagem da tocha exige que os jogadores participem do ritual, confortáveis ​​​​com a eventual abdicação de seu trono. Essa narrativa contraria a ordem natural dos esportes e, neste caso, os observadores querem as duas coisas: celebrar a obstinação, a coragem do campeonato, vê-los lutar até o fim como sempre fizeram, mas também renunciar a sua posição para o futuro. Não funciona, e é por isso que o verdadeiro estágio final do ritual é ser batido, muitas vezes mal. Fora ganhar um campeonato e sair do palco, não existe uma terceira via.

Em seu ensaio na Vogue, Serena reconheceu estar completamente desconfortável com seu papel neste drama. Ela nem quer usar a palavra "aposentadoria", mesmo que de sua vida no tênis, seja exatamente o que ela fará em breve. Ela não está se aposentando, ela diz. Ela prefere o termo "evoluindo".

Certamente, seu nível de talento ainda é tão alto que uma Serena dedicada ainda poderia ser uma jogadora do Top 40, talvez até melhor - exceto que Serena Williams joga para ganhar torneios. Todos eles.