Roger Federer se despede do tênis abraçado a Rafael Nadal

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Novak Djokovic completa o chamado "Big 3" e é parte do debate sobre quem é o melhor tenista da história. Mas foi com Rafael Nadal que Roger Federer construiu a grande –e mais amistosa– rivalidade de sua carreira.

Essa excepcional carreira chegou ao fim nesta sexta-feira (23), em Londres, de maneira apropriada. Aos 41 anos, o suíço disputou sua última partida como profissional ao lado do amigo na Rod Laver Cup.

O resultado do jogo no torneio amistoso –derrota por 2 sets a 1 para os norte-americanos Jack Sock e Frances Tiafoe, parciais de 6/4 e 6/7 (2) e 11/9– foi detalhe em uma noite de celebração do craque da Basileia na The O2 Arena. Que aplaudiu até os erros daquele que liderou o ranking mundial por 310 semanas.

O duelo se realizou em um ambiente que misturava descontração e comoção, embora tenha sido levado com seriedade e apresentado bom nível. Houve equilíbrio no primeiro set até o décimo game, no qual o saque de Tiafoe foi quebrado. Na segunda parcial, os europeus saíram atrás, buscaram a igualdade e perderam o "tiebreak".

O jogo, então, foi decidido no "match tie-break", um game de ao menos dez pontos. A disputa foi novamente equilibrada, com um breve momento de vaias, quando o homem da noite levou uma bolada de Tiafoe. Houve um "match point" no saque de Roger, mas os norte-americanos buscaram a virada. Tranquilo até ali, o ex-número um do finalmente chorou. Nadal, também.

Ao fim do confronto, Federer estava abraçado àquele que chama de "amigo verdadeiro". Um amigo que chegou ao circuito como um furacão, com seu devastador "forehand", e tirou o suíço de seu confortável trono. Eles disputaram por anos o posto de maior nome masculino da modalidade, até que Djokovic surgisse e se juntasse à briga.

A rivalidade teve seu primeiro capítulo em 2004, quando o então adolescente Nadal, aos 17 anos, derrubou Federer, de 23, em Miami. As batalhas se repetiram por quase duas décadas, ao longo das quais o espanhol conseguiu um feito notável: levou vantagem sobre o suíço no confronto direto.

Foram 24 vitórias de Rafael e 16 derrotas. Em torneios da série Grand Slam, o tenista de Maiorca também leva vantagem, 10 a 4. No último encontro, porém, Roger triunfou, em 2019, nas semifinais do Torneio de Wimbledon.

De lá para cá, Federer passou a sofrer com seguidos problemas físicos, justamente o motivo pelo qual decidiu parar. "Conheço as capacidades e os limites do meu corpo, e sua mensagem para mim ultimamente tem sido clara. Eu tenho 41 anos. Joguei mais de 1.500 partidas em 24 anos", justificou, na carta em que anunciou sua aposentadoria.

Ele ainda reuniu forças para um último encontro em quadra com Nadal. Segundo Roger repetiu inúmeras vezes, o desafio apresentado pelo adversário que virou amigo elevou consideravelmente o nível de seu tênis.

"Estou no jogo faz anos. Vi muitos jogadores que trabalham duro e são inspiradores, mas você, na minha opinião, tem sido o mais inspirador e fez o jogador que me tornei. Porque você é canhoto, por causa do efeito, por causa da intensidade que você leva à quadra. Eu time que reinventar e retrabalhar meu jogo inteiramente. E isso é pela pessoa que você é e por seu trabalho duro", disse o suíço ao espanhol, em 2016, na inauguração da academia deste.

Os elogios sempre foram retribuídos, em uma rivalidade bem diferente das produzidas pelo esporte nas décadas anteriores, como a existente entre o norte-americano John McEnroe e o tcheco Ivan Lendl ou aquele entre os norte-americanos Pete Sampras e Andre Agassi. "Se alguém diz que eu sou melhor do que o Roger, essa pessoa não sabe nada de tênis", disse Rafael, em 2010.

A gentileza se estendeu até o último instante da carreira de Federer. Aos 36, embora também conviva com problemas físicos, Nadal ainda pode estender sua liderança em número de títulos de Grand Slam: soma 22, contra 20 de Roger –Djokovic, que tem 21, também está na Rod Laver Cup e viu a despedida da beirada da quadra.

Mas a noite de sexta-feira em Londres não foi sobre a disputa entre os craques. Foi uma celebração a Roger Federer, reverenciado de maneira apropriada ao fim de sua brilhante trajetória.