Rivaldo relembra preparação 'sem confiança' para Copa do Mundo de 2002 e nega rivalidade com Ronaldo


Há quase 20 anos a Seleção Brasileira vencia sua última Copa do Mundo. Foi preciso uma preparação conturbada desde a decepção do vice-campeonato em 1998, Eliminatórias com campanha contestada e três treinadores no comando até que Luiz Felipe Scolari assumisse o cargo. A garantia da vaga ao Mundial aconteceu na última rodada, mas a pressão, no fim, não atrapalhou. Em entrevista exclusiva ao LANCE!, Rivaldo, um dos nomes daquela campanha, relembrou o clima anterior à competição no Japão e na Coreia do Sul.

- Foi uma preparação difícil. Nem a torcida nem a imprensa brasileira confiavam no que iria acontecer na Copa do Mundo, muitas pessoas não confiavam. Houve troca de treinador, nos classificamos no último jogo, contra a Venezuela, foi um momento difícil. Teve Luxemburgo, Candinho, Leão, outros treinadores e no final chegou o Felipão e fomos lá para a Copa do Mundo. Começamos a unir o grupo, a coisa começou a acontecer. Pudemos iniciar a Copa com a primeira vitória, isso empolga bastante. Ganhamos da Turquia e as coisas começaram a caminhar - disse.

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A Seleção fez a campanha perfeita com sete vitórias em sete jogos. O ataque, que tinha Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo, foi responsável por 18 gols na competição. O Brasil passou como líder no Grupo C, com nove pontos. Bateu a Turquia por 2 a 1, a China por 4 a 0 e a Costa Rica por 5 a 2. Para Rivaldo, que atualmente é embaixador da Betfair, é obrigação dos brasileiros ter vida tranquila na primeira fase.

- É difícil imaginar que a gente vai ser campeão no primeiro jogo. Sempre é importante começar uma Copa com uma vitória, da maneira que foi, e a gente foi pegando confiança jogo a jogo. Para o Brasil, que é sempre favorito, sempre cabeça de chave, nunca ficou fora de uma Copa do Mundo, com todo o respeito às outras seleções. O Brasil tem que passar em primeiro nos três primeiros jogos. Se não passa em primeiro, não é Brasil, a gente tinha essa responsabilidade de passar em primeiro lugar e depois, quando começa o mata-mata, é a hora que começa a Copa do Mundo mesmo para os jogadores brasileiros - afirmou.

Vampeta e Felipão já afirmaram no passado que Rivaldo e Ronaldo tinham uma rivalidade durante a Copa do Mundo para ver quem marcaria mais gols e não queriam tocar a bola um para o outro. O treinador chegou a falar que precisou chamar a dupla para uma conversa para colocar um fim à situação. O ex-meio-campista, porém, nega. Na final diante da Alemanha, Rivaldo recebeu um passe de Kléberson podendo partir para o gol, mas abriu as pernas, enganou a defesa e a bola chegou a Ronaldo, em melhores condições.

- Para deixar bem claro, depois de 20 anos: nunca teve essa rivalidade com o Ronaldo. Eu respeito muito ele, gente boa demais, sempre conversei com ele, a gente é amigo, não tem nenhum problema. Nunca tive nada com o Ronaldo, de eu "ter que fazer gol". Sempre se comenta muita coisa, mas às vezes são brincadeiras do Vampeta, outros brincam muito. Jamais eu tive isso, é um grupo. É claro que quem joga ali próximo, Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo, a gente está mais próximo do gol e tem mais possibilidade de fazer gol.

- Como eu aprendi e gostei de fazer gol no clube onde eu estava, no Barcelona, eu era um jogador que chutava muito bem de fora da área, gostava de chutar e de dar passe para os meus companheiros. Você olha muitos jogos da Seleção Brasileira, em muitos eu dei o passe para o Ronaldo e ele fez o gol, sempre quando ele estava em boas condições eu iria tocar. Não tem nenhum problema meu com o Ronaldo ou ele comigo. Somos amigos até hoje, mas se comenta isso até hoje para dar Ibope, para se divertir. Mas eu e o Ronaldo sempre nos demos muito bem na Seleção. Quando ele não fazia, eu fazia. Sempre é bom ter dois ou três jogadores, para quando um não vai bem, o outro vai marcar.

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Protagonistas do penta, Rivaldo e Ronaldo comemoram a conquista de 2002 no Japão
Protagonistas do penta, Rivaldo e Ronaldo comemoram a conquista de 2002 no Japão

Rivaldo e Ronaldo se abraçam após conquista do penta (Foto: AFP/ANTONIO SCORZA)

Mesmo com a incerteza sobre a titularidade, o ex-meio-campista acabou como vice-artilheiro, com cinco bolas na rede. A eliminação nos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996 assombrou o jogador por algum tempo. Mesmo com bom rendimento em 1998, foi só em 2002 que ele conseguiu a redenção.

- É uma tristeza enorme perder a Copa, porque a gente estava muito confiante antes do jogo. Durante a semana todo mundo falava que o Brasil iria ser campeão, que a gente iria passar fácil pela França, mesmo sabendo que a Copa do Mundo era na França. Aconteceram várias coisas. Eu não uso como desculpa o que aconteceu com o Ronaldo. Jogamos mal, duas bolas paradas, dois gols do Zidane. A França dentro de casa, era a oportunidade que eles tinham. Acharam aqueles gols de bola parada e isso matou a nossa Seleção. Não teve como, não teve jeito. Para fazer gol as coisas estavam muito difíceis, perdemos um Mundial. Claro que bate aquela tristeza, ainda mais sem saber se estaremos na próxima Copa do Mundo. Se seremos convocados, estaremos em forma, qual clube. São quatro anos de sofrimento. Depois tem Eliminatórias, muitas críticas, chegamos no jogo contra a Venezuela para irmos para Copa de 2002. Não é fácil perder uma Copa do Mundo, como foi a que perdemos, é muito difícil, as críticas são muitas.

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Você sente que estava pronto para a Copa de 1994?


Eu estava sim preparado para a Copa de 1994. Eu fui até abril, se eu não me engano, fui naquele jogo do pontapé inicial do Ayrton Senna em Paris e toda a imprensa falava do Rivaldo. Fui em um jogo em março de 1994 em Recife contra a Argentina, dois gols do Bebeto e todos falavam que eu estava na briga. Eu e o Raí. Depois desse jogo em Paris, que foi 0 a 0, era o Brasil contra o PSG, um clube, o que era difícil. Depois dali, a Seleção com um todo não jogou muito bem e eu não fui mais convocado. Foi muito triste para mim, porque eu estava muito confiante para participar daquela Copa do Mundo, de estar entre os 23 jogadores, brigar por uma posição. Eu estava muito bem, com 22 anos, muita gana de jogar, mas o Parreira me deixou fora.

Antes de chegar a 1998, eu fiquei um pouco de castigo. Um ano sem ser convocado depois das Olimpíadas. Depois dali, saí do La Coruña e fui para o Barcelona. Ajuda muito quando você está num clube como o Barcelona, o Real Madrid, um clube grande, que tudo o que você faz passa na televisão. É totalmente diferente quando você faz a diferença em um clube grande na Europa. Comecei a jogar bem e foi aí que fui convocado novamente para jogar a Copa de 1998.

Rivaldo - Barcelona
Rivaldo - Barcelona

Rivaldo fez 235 jogos no Barcelona e 130 gols (Foto: LLUIS GENE / Arquivo Lance!)

Quando saiu do Brasil, a diferença para o futebol europeu era tão grande quanto a atual?

Quando joguei no Palmeiras, todo mundo sabia que era uma grande equipe. Antes joguei no Corinthians, então não vi muita diferença quando eu cheguei na Europa e fui para o Deportivo La Coruña. Chegando lá, encontrei Mauro Silva, Donato e outros jogadores, minha adaptação foi muito rápida, mas não vi essa diferença toda. Comecei jogando lá e as coisas saíram muito bem para mim na primeira temporada. Eu vinha em um momento difícil por conta das Olimpíadas, que todo mundo me criticava muito por aqueles Jogos em 1996. Mas no final fiz um grande campeonato ficando em quarto lugar na lista de artilheiros, terceiro ou quarto no Espanhol e foi dali que eu fui para o Barcelona.

Entre 1994 e 1998, o Brasil não disputou Eliminatórias, mas fez muitos amistosos na Europa. Isso fez diferença na preparação de vocês?

É claro que é sempre bom jogar amistosos contra seleções da Europa. Hoje o Brasil não está fazendo isso, mas acredito que a Seleção está preparada para a Copa do Mundo. Os jogadores que jogam na Europa são experientes, jogam na Champions, e quem joga a Champions está jogando com os melhores. É claro que se você joga com Espanha, Holanda e Inglaterra, é muito legal. Mas pela experiência que os jogadores têm, a maioria joga em time grande, joga a Champions, então vão se encontrar no Mundial.

Em 1998 você já era um grande nome, foi decisivo na Copa do Mundo, mas mesmo assim foi criticado. Como foi lidar com isso e depois dar a volta por cima em 2002?

Para jogar na Seleção Brasileira, você tem que ter muita personalidade. Tem que saber que torcida e imprensa brasileira criticam quando a Seleção não anda bem. Eles querem resultados e quando os resultados não vêm, as críticas chegam. Principalmente em um jogador que está chamando a atenção na Europa, jogando em um clube como é o Barcelona. Até hoje continua a mesma coisa. Quem chega em um clube como o Barcelona e ganha destaque mundialmente, quando chega na Seleção Brasileira tem que fazer a diferença. Mas às vezes as coisas não saem como a gente pensa, então as críticas chegam. O jogador tem que entender, tem que ter personalidade, tem que fazer o seu trabalho, foi o que aconteceu comigo. Muitas críticas, mas eu segui firme e forte e fiz uma grande Copa.

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