Rio Branco, da Série D, faz vaquinha para ajudar elenco e arrecada R$ 208

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Neto Alencar, presidente do Rio Branco, do Acre, cansou-se das cobranças. Todas as semanas ouvia pedidos de jogadores e torcedores para fazer uma campanha de arrecadação, com dinheiro revertido para pagar uma premiação ao elenco. Um incentivo.

Quando a equipe se classificou para as oitavas de final da Série D do Brasileiro, as solicitações ficaram mais fortes. O dirigente cedeu.

"Está bem. Se é isso o que vocês querem, vamos fazer", avisou.

Dias depois o Rio Branco lançou a campanha "Pix solidário". As contribuições poderiam ser feitas de forma direta à conta corrente do clube.

Antes do empate em 0 a 0 com o ASA de Arapiraca, no jogo de ida, no último domingo (7), Alencar cumpriu a promessa e foi entregar aos atletas o valor arrecadado: R$ 208. Cada um dos 25 jogadores recebeu R$ 8,32.

"Eles viram e me perguntaram: só isso? Respondi que sim. Eu tinha avisado que não daria certo. Conheço a torcida. Mas pediram tanto para eu fazer, que fiz. Ficaram decepcionados, claro", afirma o presidente.

Alencar usou a conta do Rio Branco no Instagram para prestar contas do fracasso da vaquinha.

"Infelizmente a campanha não teve êxito", avisou, em vídeo postado na rede social. Em seguida, começou a agradecer aos doares, um por um.

"O senhor Carlos Alberto Farias depositou R$ 3,20...", começou. Foram nove pessoas que contribuíram.

Neste domingo (14), o Rio Branco faz o jogo de volta das oitavas, em Alagoas. Quem vencer, classifica-se. Empate leva à decisão nos pênaltis.

A história da campanha de arrecadação frustrada ilustra a dificuldade de financiar futebol nas séries inferiores do futebol brasileiro. Ainda mais em um time do Acre, com folha salarial de R$ 60 mil mensais. A avaliação de Alencar é que há rivais na D que gastam até R$ 500 mil a cada 30 dias com o elenco.

"Nós vivemos basicamente com o aluguel de lojas que são do clube em frente ao Centro de Treinamento e do dinheiro da empresa do presidente. Quando falta, eu tenho de completar", explica o empresário dono de marca de água mineral no estado.

A bronca de Alencar não é com os torcedores. Ele sabia que a arrecadação não daria em nada. Há alguns meses havia feito uma campanha para vender uniformes a preços populares. Já desconfiado que a procura não seria tão grande assim, mandou fazer 100. Vendeu 25.

"Conheço bem a torcida do Rio Branco. A única vantagem quando acontece essas coisas é poder falar delas quando alguém vem pedir contratação, diz que falta centroavante... Na hora de ajudar, ninguém quer."

A raiva mesmo do cartola é com as autoridades políticas da capital acreana. Para Alencar, os dois deveriam ajudar financeiramente o Rio Branco e teriam feito promessas quanto a isso.

Para ele, é irônico que agora, com o clube no mata-mata da Série D, tenham aparecido solicitações de ingressos para jogos e pedidos para fotos. É ano eleitoral.

"O esporte, principalmente na base, é inclusão social. Acre faz parte da tríplice fronteira [Brasil, Peru e Bolívia], tem um problema sério de criminalidade e de tráfico de drogas que atinge principalmente adolescentes de 14, 15 anos. O investimento no esporte ajudaria a começar a mudar isso. Agora nos jogos tem político que quer vir tirar foto comigo. Senador, governador... Querem bater foto comigo agora para quê?", questiona.

O Acre jamais teve uma equipe na principal divisão no país. Nem mesmo no final dos anos 1970, quando o Brasileiro foi tão inchado que chegou a ter mais de 90 times. Mas no cenário nacional, a agremiação de maior sucesso no estado é o Rio Branco.

Em 1997, conquistou a Copa Norte e na temporada seguinte disputou a Copa Conmebol. Jamais um clube da região havia participado de uma competição sul-americana. Em 1989, jogou a Série B do Brasileiro.

Neto Alencar chama o Rio Branco de "gigante adormecido".

Mas é um gigante pobre. Para disputar a Série D, a CBF paga as passagens de avião e hospedagem. Alimentação dos atletas nos aeroportos, suplementos alimentares e outras despesas são por conta de Alencar. São cerca de R$ 2.500 por partida.

Para satisfazer seus jogadores, após a campanha de arrecadação fracassada, o presidente pegou os R$ 10.411,92 da renda líquida da partida diante do ASA e dividiu entre eles.

"Acho que foram R$ 400 mais ou menos para cada. Deu para eles irem no bar tomar uma gelada."