Raphael dos Santos supera desafios e será o representante brasileiro no Mundial de Paracanoagem

Raphael dos Santos será o representante brasileiro no Mundial de Paracanoagem (Foto: Arquivo Pessoal)
Raphael dos Santos será o representante brasileiro no Mundial de Paracanoagem (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Guilherme Faber (@fabergui) e Matheus Brum (@matheusbrum)

O atleta paralímpico paranaense Raphael dos Santos, de 35 anos, está garantido no Mundial de Canoagem Maratona Máster de Paracanoagem, que vai acontecer de 26 de setembro até 2 de outubro em Ponte Lima, vila de 41 mil habitantes situada na região norte de Portugal.

A competição vai reunir mais de mil atletas de 50 países e pela primeira vez na história dará oportunidade para atletas paralímpicos. A abertura será disputada pela categoria master, e o dia 28 será a vez de quem faz parte dos juniores, sub-23 e seniores.

“Eu estou encarando normal como se fosse uma disputa aqui no Brasil. Então, estou bem tranquilo em relação a isso. Tenho acompanhamento de um psicólogo que está me deixando bem equilibrado. Agora que tive a parceria da ‘Psicologia do esporte’ estou conseguindo controlar bem a ansiedade. O potencial está lá fora, pesquisei e vi muitas coisas sobre a Espanha [país com competidores favoritos]”, disse Raphael com exclusividade ao Yahoo Esportes.

A Canoagem Maratona não é reconhecida pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) como modalidade olímpica e fez Santos ir atrás de recursos em prol das suas despesas em solo português. Então, Raphael vendeu a camisa oficial do Athletico, seu time do coração, recebeu ajuda dos amigos e fez “vaquinha” na web.

A solidariedade contagiou muitas pessoas ao ponto de deixar a rivalidade apenas dentro de campo. Raphael ganhou uma camisa do Paraná Clube para rifar e conseguir recursos para a viagem. O atleta diz que essa solidariedade o animou para continuar na busca do dinheiro necessário para viajar.

“Nada impede de fazer isso. O verdadeiro torcedor não tem esse tipo de preconceito. Tenho amigos que são paranistas, são-paulinos, coxa-branca e palmeirenses. Não tem essa rivalidade. A galera me ajuda bastante, lógico que só com valor da camisa não conseguiria ir ao Mundial, depende de patrocínio, mas eles me aceitam bem”, admitiu.

E por falar em patrocínio, om a visibilidade conseguida pelos bons resultados e pela tentativa de arrecadar dinheiro para a competição, Raphael conseguiu o apoio de duas empresas, a Tecnobank e UPX Sports, que vão ajudar o atleta a disputar o Mundial em Portugal.

Além a disputa do torneio, a agenda de Raphael para o restante de 2022 está cheia. Depois de voltar de Portugal, o atleta vai participar da segunda etapa da Copa Brasil de Paracanoagem no Rio de Janeiro e no Pantanal Extremo em 23 de outubro. A sua presença nos Jogos Abertos do Paraná, no final do ano, ainda está indefinida.

“Eu preferi focar no Mundial. Iriam haver gastos também. O treinamento da velocidade é diferente da longa distância e daí teria que mudar toda minha adaptação do meu barco. Conversei com o pessoal da minha equipe do CRC (Clube de Regatas Curitiba) sobre isso”, explicou.

Uma vida de superação

Raphael pratica esporte desde os 4 anos de idade com início na capoeira. Aos 21 decidiu migrar para corrida de rua. Sua vida mudou em 2007, quando foi atingido por disparos de arma de fogo ao ser confundido com um segurança.

“Perdi o movimento da perna esquerda. Como não tenho movimento, eu acabei tendo perda de massa muscular. Eu tenho a perna no lugar, mas é a mesma coisa de não ter. Tive uma recuperação bem difícil e até falo que Deus me permitiu estar aqui de novo”, relembrou.

O hiato do Raphael com esporte e só acabou em 2013 quando conheceu a paracanoagem e filiou-se ao Clube de Regatas Curitiba. A partir daí a vida dele mudou. Atualmente, acorda às 5h da manhã para trabalhar como assistente administrativo da Universidade Positivo, depois ir treinar no Parque Náutico do Iguaçu e fazer boxe duas vezes na semana para ajudar no condicionamento físico.

O esforço de Rapha também é refletido dentro de casa com a ida da filha Anna Laura dos Santos, de 10 anos, nos treinos de canoagem. “Eu a coloquei, mas não obriguei a fazer. A deixo livre, que se um dia ela não quiser a canoagem, pode fazer o que quiser. Eu não deixo ela ser sedentária”, pontuou.

Além de toda essa rotina, Raphael é estudante do terceiro ano do curso de Educação Física da Universidade Positivo, a mesma que trabalha. O objetivo do atleta é se formar e trabalhar em prol das pessoas com deficiências.

“Me formo em 2023, pretendo fazer o curso de técnico da paracanoagem e trabalhar com a inclusão social no esporte com pessoas que têm deficiências. Sempre falo que não somos deficientes, mas eficientes. Quero trazer a galera para academia e vi em umas pesquisas no começo da faculdade que nenhum professor estava apto para trabalhar com pessoa com deficiência. Esses são os meus objetivos. Na canoagem, vou até hora que Deus me levar (risos)”, disse.

Esse objetivo de ajudar outras pessoas com deficiência também leva Raphael a olhar para próprio esporte que pratica. Segundo o atleta é preciso que as competições de paracanoagem sejam mais acessíveis.

“Acho que a Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa) tinha que olhar mais para os paratletas. CBCa lança campeonatos aonde não têm acessibilidade para os cadeirantes. São cidades que não têm estrutura para nós. A CBCa precisa estar voltada para essas dificuldades”, concluiu Rapha.