Punida por doping, Tandara fala sobre seu futuro no vôlei e a entrada na política

Tandara Caixeta durante as Olimpíadas de Tóquio. Foto: Angela Weiss/AFP via Getty Images
Tandara Caixeta durante as Olimpíadas de Tóquio. Foto: Angela Weiss/AFP via Getty Images

Tandara Caixeta ou simplesmente Tandara, campeã olímpica, em reportagem especial nos contou em primeira mão: seu futuro no vôlei, novo momento na carreira, doping. A oposta de 33 anos anunciou recentemente sua candidatura pelo MDB para deputada federal e tratou de minimizar questões como polarização política e a polêmica envolvendo transexuais no esporte feminino.

Caixeta aproveitou para pontuar seu futuro no vôlei após o anúncio de punição por 4 anos após ser confirmado o uso de ostarina, substância proibida pelo Tribunal de Justiça Desportiva Antidoping.

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Recentemente você passou por um baque na carreira que foi a punição pelo Comitê Internacional de Doping. Como tem sido esse momento? Há alguma chance de diminuir a pena?

Na verdade não foi o Comitê Internacional de Doping que me puniu. Foi a ABCD (Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem) que me puniu em 48 meses. Tem sido um momento muito difícil. Hoje estou ocupando minha cabeça com trabalhos, me dedicando ao meu Instituto (Instituto Tandara Caixeta). Hoje sou pré-candidata, então estou com minha cabeça também na minha pré-campanha. É claro que eu não desisti de provar que foi uma contaminação cruzada, de que foi uma injustiça realmente comigo. É claro que há sempre uma chance e uma esperança de diminuir a minha pena, principalmente porque eu tenho a minha consciência tranquila de que as coisas não foram exatamente como foram julgadas. Hoje meu julgamento está no Comitê Internacional na Suíça e eu espero por uma chance de diminuir a pena e é por isso que eu estou brigando.

Com a sua afiliação ao PMDB, especialmente se candidatando a uma posição no legislativo, como candidata à deputada federal, pode se considerar o fim da carreira no voleibol?

É claro que eu pretendo voltar ao vôlei, porque foi uma saída muito brusca do esporte que eu dediquei 18 anos da minha vida. Em não considero como o fim da minha carreira. Coloco como uma pausa, mas sim tenho também o objetivo de ser eleita a um legislativo muito grande – deputada federal. Eu sendo eleita, com certeza, tentarei conciliar com o esporte, até porque minha profissão é atleta, e eu vou dedicar o meu tempo à sociedade. Sei que administrando tudo, com certeza a gente consegue efetuar um bom trabalho.

Quais pautas você defende agora atuando possivelmente numa função pública?

Claro que a minha principal pauta com certeza será a família. Por conta de tudo o que tem acontecido na minha vida, sem essa estrutura eu não seria nada. O Esporte, porque eu venho do Esporte a minha vida inteira. E o Terceiro Setor, que é o que eu já faço no Instituto Tandara Caixeta. Então estas serão as principais causas.

Você atualmente se posicionou sobre ao caso de atletas trans atuando no esporte feminino. Como você analisa esse cenário? Existe de fato uma diferenciação física de atletas trans para os demais?

Eu me posicionei contra a trans no esporte feminino, porque eu não acho que seria justo. Na primeira oportunidade, elas que lutam tanto pela inclusão acabam excluindo. E se existe essa diferenciação física das atletas trans para as demais, o que a gente vê pela internet circulando, com certeza faz diferença. A nossa luta é sobre a exclusão de mulheres, é sobre a participação de trans dentro do esporte feminino em que a gente não acha que seria uma briga justa.

O Brasil vive hoje uma polarização política e ideológica grande em vários setores. Como você vê esse cenário no esporte? Mauricio Souza e Douglas Souza travaram uma briga, em que pautas como LGBQIA foram discutidos. O ex central do Minas, inclusive foi demitido após apelo da comunidade LGBTQIA.

Hoje essa polarização na política afeta todos os setores. No Esporte não é diferente. Eu achei que neste caso houve extremos demais, e um acabou sendo demitido após o apelo dessa comunidade, o que eu achei injusto. Eu como uma conservadora, acredito muito nos valores cristãos. Particularmente sofri também com isso, colocando minha posição e sendo uma das poucas atletas que colocou isso de ser contra trans no esporte feminino, mas eu respondo por várias atletas que não concordam também. Porém, existe este medo (de outras pessoas) de falar e ser reprimido, ser cancelado... Então, provavelmente eu não sou uma dessas pessoas que vou ficar completamente calada sobre aquilo diante dos meus olhos em que eu não concorde.

Existe algum discurso de ódio ou até mesmo “lacração”, de um lado ou do outro? Como você viu especialmente esse caso?

Em relação a este discurso de ódio, eu venho sofrendo isso nas minhas redes sociais, por pautar, ser contra o transexual no esporte feminino, e eu sou muito tachada como preconceituosa, transfóbica, e eu não me sinto isso. Eu simplesmente coloquei a minha opinião perante aquilo que está acontecendo, e eu tenho certeza que eu falo em nome de várias mulheres esportistas que não tem essa coragem de se posicionar, então me sinto representante de todas elas.

Você segue hoje a nova onda direitista do esporte?

Eu não acredito que eu siga hoje essa nova onda direitista do esporte. Porque, de verdade pra mim, dentro de toda essa polarização, se a gente focar no problema e quiser realmente resolver, talvez a solução desses problemas possa vir da direita ou da esquerda. Então eu acho que a gente tem que focar na solução, independente se a solução for direita ou esquerda. Penso que a gente tem que parar com esse discurso de ódio de “eu sou direita extremista” ou “esquerda extremista”. Acho que devemos parar e pensar no que será realmente bom para a sociedade. Devemos parar com essa briga política de polarização que, apesar de escancarada, não é nada boa. É preciso focar na solução do problema.

Sobre o novo ciclo da seleção, como avalia as mudanças de renovação feitas pelo Zé Roberto? Quais são as chances do Brasil nas olimpíadas de Paris?

Confesso que não estou acompanhando este novo ciclo de perto, principalmente porque é um assunto ainda que me machuca bastante. Mas, pelo que eu vi, eu acredito que é uma renovação muito boa, são meninas muito novas e dedicadas que estão fazendo a diferença no voleibol brasileiro ou até mesmo internacionalmente. E o Zé, mais do que ninguém, tricampeão olímpico, é gabaritado para isso. E as chances do Brasil na Olimpíadas são enormes. Vide ao que elas fizeram na VNL (Liga das Nações), fizeram um campeonato super constante, pecaram um pouquinho no final para a Itália, que foi soberana, principalmente em maturidade. Mas essa maturidade só vai acontecer com mais campeonatos, com mais jogos, ali dentro da quadra com todo mundo se entrosando. Então isso vai ser importante e determinante para que daqui a dois anos seja a melhor Seleção a representar o Brasil.