Com Corinthians próximo a decisões, entenda os desafios psicológicos e como o clube trabalha o assunto

Timão vem em boa fase para o duelo contra o Boca (Foto: Rodrigo Coca / Agência Corinthians)


Uma equipe esportiva de alto rendimento, disputando campeonatos importantes, fica cada vez mais exposta a medida que essas competições vão entrando em momentos decisivos. E o Corinthians passará por essa fase nas próximas semanas, principalmente com as oitavas de final da Copa do Brasil e Libertadores.

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Para aumentar a dificuldade, o Timão chega para essa maratona com algumas baixas por questões físicas, fazendo com que atletas mais jovens tenham assumido o protagonismo nas últimas partidas.

O amadurecimento técnico desses jogadores, que, embora garotos, já possuem um certo tempo na equipe profissional, caminha junto com a inexperiência natural daqueles que estão em estágio inicial na carreira.

E nesse momento de decisão, todo detalhe que pode levar a equipe a vitória, também pode colocar tudo a perder.

Para isso, a parte psicológica precisa estar em dia, tanto quanto a física e a técnica. E o Corinthians tem demonstrado brechas nesse sentido.

Na última quarta-feira (15), a equipe alvinegra vencia o Athletico-PR por 1 a 0, na Arena da Baixada, pelo Campeonato Brasileiro, até um desentendimento entre Roni e Hugo Moura.

Os dois atletas foram expulsos, mas o prejuízo maior foi corintiano, que perdeu um jogador que havia entrado quatro minutos antes e viu o foco na partida ficar comprometido, principalmente quando o zagueiro Raul Gustavo atropelou o atacante Vitor Roque cometendo o pênalti que empatou o jogo.

A juventude tem sido fundamental para o Corinthians, mas o técnico Vítor Pereira também se preocupa com o controle emocional dos seus atletas.

A ocasião em Curitiba não foi a primeira que o descontrole e a falta de foco prejudicou o clube alvinegro. Há um mês, o Timão perdeu o meia Cantillo expulso durante um desentendimento com Pol Fernández, do Boca Juniors-ARG, no decorrer do segundo tempo do empate entre as equipes pela fase de grupos da Libertadores.

E nas próximas três semanas o Timão voltará a enfrentar o Boca em duas oportunidades, dessa vez pelas oitavas de final da Liberta.

Nos próximos dias, Vítor deve conversar com o grupo sobre a importância do controle emocional.

O comandante corintiano costuma trocar ideias com os seus atletas de forma individual, mas crê que a pauta relacionada ao controle emocional deva ser conversada em grupo, até pela presença no plantel de jogadores mais velhos, com passagens pelo exterior e rodagem por seleções nacionais. A ideia é que os mais rodados auxiliem no processo de formação dos garotos.

Por outro lado, o Corinthians não conta com um profissional de psicologia no seu departamento de futebol profissional. O clube entende ser mais válido ter psicólogos disponíveis para encaminhar aos atletas quando enxerga essa necessidade, do que contar com um dentro do grupo.

– No Corinthians temos um psicólogo como consultor. Acho a psicologia esportiva extremamente importante, só não acho importante o psicólogo estar no dia a dia do clube. A psicologia analisa o comportamento de algumas pessoas e precisa ser extremamente sigilosa. Muitas vezes você vai até o psicólogo, conta o motivo de estar indo mal e pode sofrer pressões de alguém ir até o profissional saber o que determinado atleta tem. Quando você tem a indicação de um psicólogo, você tem que encaminhar o atleta – explicou o Dr. Joaquim Grava, chefe do departamento médico corintiano, ao podcast ‘De Lavada’, na última semana.

Em contato com o LANCE!, o Presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, Dr. João Ricardo Cozac, avaliou que a postura corintiana, até mesmo através da explicação do Dr. Joaquim Grava, mostra que o clube alvinegro confunde o trabalho psicológico no campo esportivo com o clínico e, com isso, ignora benefícios técnicos e tecnológicos que poderia vir a ter com a inclusão de um psicólogo do esporte junto a equipe de futebol profissional.

– O Corinthians insiste em pensar que a psicologia do esporte é como se fosse um departamento médico do sofrimento psíquico. Aí estamos falando de psicologia clínica, não de psicologia do esporte. O psicólogo do esporte está lá para treinar habilidades, concentração, foco, tomada de decisão, velocidade de reação, confiança, individual e coletiva, utilizando mecanismos de biofeedback, neurofeedback, óculos de velocidade neuromotora, usando conteúdo científico e tecnológico extremamente moderno para potencializar os jogadores em todas as suas funções mentais associadas ao futebol. E o Corinthians vira as costas para todo esse compêndio, já disponível em muitos países, e no Brasil também – afirmou Cozac, que é doutor e pós-doutor pelo Laboratório de Psicossociologia do Esporte pela USP e atua no segmento há 30 anos.

João Ricardo Cozac também afirmou que há algum tempo enxerga problemas no Timão que podem ser aperfeiçoados através de um trabalho da psicologia do esporte.

– O Corinthians tem mostrado há muitos anos problemas relacionados a equipe, falta de confiança, motivacionais, de energias de ativação, aspectos que a psicologia do esporte pode trabalhar individual e coletivamente – disse o profissional.

Entre as equipes paulistas que disputam a elite do futebol nacional, somente o Corinthians não conta com um psicólogo em seu departamento profissional.

No entanto, o Timão possui dois profissionais de psicologia nas categorias de base, algo que é necessário para que o clube tenha o selo de formação de atletas.

Do atual elenco principal, 10 jogadores passaram pelas categorias inferiores pelo menos nas últimas três temporadas e tiveram acompanhamento psicológico durante o período que antecedeu a chegada ao ‘time de cima’.

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LUAN

O meia-atacante Luan não vive a preocupação da sequência decisiva que o Corinthians tem pela frente, pois está longe de ser opção principal do técnico Vítor Pereira para as partidas contra Santos e Boca Juniors-ARG, pelas oitavas de final da Copa do Brasil e Libertadores, respectivamente.

No entanto, o jogador que foi contratado em 2020 com a expectativa de voltar ao futebol que o tornou ‘Rei da América’, em 2017, nunca conseguiu render em dois anos e meio vestindo a camisa corintiana.

Responsável pelo departamento médico do Timão, Joaquim Grava entende que o camisa 7 vive problemas que precisam ser cuidados com orientação psicológica, mas contou que o jogador não teve o interesse em realizar esse tipo consulta quando aconselhado.

– No meu modo dever, o Luan está muito afetado emocionalmente. Acho que uma orientação psicológica iria bem para ele. Não gosto de mentir, já falei (para Luan fazer o tratamento psicológico), mas eu não posso (obrigar). Você orienta, mas para alguém fazer um tratamento psicológico precisa querer. Não sei se ele não quer, mas quando eu indiquei ele falou que não iria. Contou uma história lá – revelou Grava.

O especialista em psicologia do esporte João Ricardo Cozac coloca em pauta os tabus acerca da parte psicológica no futebol profissional brasileiro.

– Há uma aproximação do futebol brasileiro com a questão do trabalho de prevenção e promoção de saúde mental a aspectos ligados a loucura, fragilidade e falta de virilidade, que são aspectos muito comuns no futebol brasileiro e que são densamente expressos por dirigentes e profissionais do corpo médico que não conhecem a psicologia do esporte – pontuou Cozac.

Luan não entra em campo pelo Timão há quase quatro meses. A última partida do jogador foi no dia 19 de fevereiro, contra o Botafogo-SP, ainda pela primeira fase do Campeonato Paulista.

Um dos grandes focos do clube alvinegro na janela de transferências que abre em julho é buscar uma nova equipe para o meia-atacante, considerando até mesmo emprestar o atleta.

A diretoria corintiana já admite prejuízo com o camisa 7. Em 2020, o atleta foi contratado por R$ 28,9 milhões, que valem 50% dos direitos econômicos.

O vínculo do jogador com o Corinthians tem duração até dezembro de 2023.

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