Pandemia uniu as irmãs que são os rostos do tênis de mesa feminino no Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Eu fiquei muito brava. Mas depois do jogo a Bruna veio falar comigo."

Bruna Takahashi, 22, está ao lado e parece alheia à conversa. Só parece. Ela na hora para de responder uma mensagem no WhatsApp, olha para a irmã e faz uma careta.

"A Giulia era muito nervosinha", responde.

Giulia Takahashi, 17, lembrava a única vez que enfrentou a maior mesa-tenista da história do país, atual 19º do ranking mundial e sua irmã mais velha. A caçula perdeu naquele dia, como era de se esperar. Mas aos poucos fez seu caminho para realizar sonhos que envolviam estar próximo a Bruna, viajar ao lado dela e irem às Olimpíadas.

As duas vão à China para o Mundial adulto no final deste mês. Giulia foi aos Jogos de Tóquio como reserva da equipe brasileira no ano passado. Ficou na arquibancada, na torcida pelas demais atletas. Entre elas, Bruna.

"Eu achava que todo mundo era muito organizado, certinho, concentrado..."

Bruna esquece o celular de novo e olha para Giulia, a achar graça. A garota percebe que deve se explicar melhor.

"Não é que o pessoal seja bagunceiro, né? Todos são bem unidos, quem não está jogando está sempre na torcida pelo outro. Na base às vezes isso não acontece", completa.

Bruna é a referência da modalidade feminina no Brasil. Já atuou em Portugal (pelo Sporting) e hoje é atleta do TTC 1946 Weinheim da Bundesliga, a primeira divisão do campeonato alemão. Foi campeã mundial de cadetes em 2015, a primeira atleta do país a quebrar a barreira do top 30 do ranking e, depois, do top 20.

Giulia é uma das revelações do tênis de mesa nacional, presença constante nas seleções de base e, agora, na principal. Isso a faz imaginar que, se foi reserva em Tóquio-2020, poderá jogar em Paris-2024. Seja em simples ou nas duplas.

Uma das lembrança mais antigas de Bruna é ver Giulia chegar ao clube onde treinava em São Bernardo do Campo (grande ABC) carregada nos braços da mãe. Queria ver a irmã mais velha em ação. Mas isso não significa que uma queira ser igual à outra.

"Vê-la crescer assim e evoluir me deixa muito feliz e orgulhosa. Mas eu não desejo que ela seja igual a mim. Quero que siga o caminho dela, faça o que sonha na vida. Que obtenha os resultados e, se forem melhores que os meus, ótimo. Eu quero o melhor para a Giulia. Claro que ela me viu treinando e automaticamente pegava a raquete e começava a rebater", lembra Bruna.

Pode ter sido uma recordação fundamental porque Giulia confessa que, aos oito anos, estava indecisa. Gostava de teatro e do tênis de mesa na mesma intensidade. Quando os pais lhe disseram que poderia se dedicar de verdade a apenas uma das atividades, o esporte venceu. Talvez de forma inconsciente, o exemplo da irmã foi preponderante.

E pouco importa que a convivência entre as duas durante vários anos não fosse tão próxima. Bruna Takahashi desde os 12 anos está acostumada a viajar e passar muito tempo fora de casa.

"A gente se falava pouco", afirma Giulia.

Era tanto tempo longe que Bruna reconhece ter pensado algumas vezes onde era sua residência fixa ou se tinha uma. Ela nasceu no Brasil, morou em Portugal e vive em uma ponte aérea São Paulo-Alemanha para partidas da Bundesliga. Isso quando não está com a seleção brasileira.

Foi a pandemia da Covid-19 que mudou tudo. Bruna ficou um ano em casa. Dividiu a vida e os treinos com a irmã mais jovem.

"Ela viajava muito e eu era mais nova, sabe? Na pandemia a gente se aproximou demais e fazia tudo junto, treinava, estava lado a lado em casa, então foi muito bom. Foi a partir daí que criamos essa conexão", assegura Giulia.

Bruna Takahashi é o rosto da evolução do tênis de mesa feminino no Brasil e reconhece orgulho quando vê crianças, de mãos dadas com as mães, irem ao centro de treinamento e perguntarem se é ali a escolinha da Prefeitura de São Caetano do Sul.

"É bem gratificante ver gente interessada no esporte. O que mais gosto de responder no Instagram são perguntas sobre locais para treinar. Eu gostaria de chegar a feitos históricos nas Olimpíadas e participar delas o máximo que puder. Tem muita coisa para acontecer ainda", afirma a mais velha das Takahashi.

Quando isso acontecer, Giulia quer estar não apenas ao seu lado para acompanhar, mas também competir. Juntas ou, quem sabe, uma contra a outra. Por que não? Na única vez em que se enfrentaram, Bruna venceu, mas, no futuro, se o confronto acontecer, será cada uma por si. Menos na cozinha.

Giulia tem planos de aprender a fazer pratos para uma dieta balanceada baseado no conceito do Kachimeshi, programa de educação nutricional de uma das patrocinadoras da dupla. Mas nisso terá de se virar sozinha. Não acontecerá com a ajuda de Bruna que, ao ouvir a ideia de caçula, deixa claro prestar atenção a tudo o que ela apesar de parecer distraída.

"Eu, no máximo, posso lavar a louça."