O dia em que Viola pulou o muro para fugir do repórter

Viola em ação pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1994 (Foto: Christian Liewig/Tempsport/CORBIS/Corbis via Getty Images)
Viola em ação pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1994 (Foto: Christian Liewig/Tempsport/CORBIS/Corbis via Getty Images)

Parque São Jorge. 1991. Os carros que levavam os jornalistas aos treinos do Corinthians estacionavam no mesmo lugar em que os jogadores do time deixavam seus veículos. Não eram carrões, como agora. Eram Kadetts, Corsas...

Viola tinha um fusca vermelho.

Chegava ao clube cantando pneus.

Vivia o início da fama.

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Que havia começado para ele três anos antes, quando marcou o gol do título corintiano do Campeonato Paulista, contra o Guarani. Morava no Jardim Elisa Maria, no extremo da Zona Norte de São Paulo.

O gol, em lance fortuito, em que a bola sobrou na área, após chute torto de Wilson Mano, e ele se atirou de carrinho, mexeu com a cabeça de Paulo Sérgio Rosa, com 20 anos, mas ainda muito imaturo.

O apelido Viola ele carregava dos campos de várzea da Zona Norte.

Viola era a marca da chuteira que ele usava.

Barata, em comparação com as marcas mais famosas, era a que ele podia comprar.

O gol do título subiu à cabeça de Viola.

Depois do gol, e da badalação que veio a seguir, Viola amargou uma seca de gols. Passou a ser chamado de “artilheiro de um gol só”.

Vieram as críticas, as vaias, o descrédito.

Trocou o dia pela noite.

Começou a ser rodeado pelos falsos amigos. Não faltaram mulheres para as noites sem fim.

Não demorou para ele começar a faltar aos treinos. Quando ia treinar, brigava com os companheiros.

Virou um grande problema para a comissão técnica do Corinthians.

Então, decidi fazer uma entrevista com ele.

Queria lhe dar a ele a chance de falar.

Afinal, como repórter da Gazeta Esportiva, fora eu que havia começado a chamá-lo de “artilheiro de um gol só”.

Marquei a entrevista com ele para logo depois de um treino no Parque São Jorge. A matéria seria feita no estacionamento.

Embora em má fase, Viola era uma celebridade.

Merecia um grande espaço no jornal.

Eu o esperei por mais de uma hora.

Foi quando resolvi olhar para o outro lado da saída dos jogadores do vestiário do pequeno estádio corintiano.

Fiquei perplexo com o que vi.

Lá estava Viola pulando o muro do Parque São Jorge. Quem estava comigo naquela tarde no treino era o repórter fotográfico Rubens Boccia. Profissional experiente, nem precisou pedir para ele fotografar a cena insólita.

Deu tempo de ver o Viola alcançar o outro lado do muro, correr em direção à Rua São Jorge, em frente à entrada principal do clube.

Viola não percebeu que Boccia havia fotografado a sua fuga cinematográfica.

O editor da Gazeta Esportiva era José Carlos Carboni, de raro talento para manchetes brilhantes. No dia seguinte, a manchete do jornal foi: Veja Viola fugindo do nosso repórter.

A foto mostrava um Viola assustado escalando

O muro do Parque São Jorge.

A carreira de Viola seguiu.

E com sucesso.

Voltou a brilhar no Corinthians, depois de ser emprestado ao São José, do Vale do Paraíba, e atuou também no Palmeiras, Valência, Santos, em duas temporadas, e Vasco.

Foi tetracampeão do mundo com a Seleção Brasileira, na Copa da Itália, em 94.

Na final contra a Itália, entrou na prorrogação e, durante 15 minutos, deu motivação à uma disputa enrolada e sem brilho.

Aproveitou vem os seus quinze minutos de fama.

Não tomou conhecimento de Baresi e cia e saiu driblando como se estivesse em uma pelada no Jardim Elisa Maria.