O dia em que Pelé disse ter sido vítima de erro médico

Pelé durante evento na França em 2019 (Foto: Marc Piasecki/Getty Images)
Pelé durante evento na França em 2019 (Foto: Marc Piasecki/Getty Images)

Final do ano de 2017. Em entrevista à Folha de S. Paulo, Pelé disse que havia sido vítima de erro médico. Na cirurgia no quadril, realizada no Hospital Albert Einstein, teria sido “colocado um parafuso a menos” durante o procedimento.

Fazia tempo que eu tentava entrevistar o Rei Pelé. Ele estava enfrentando problemas de saúde desde 2012, quando se submeteu à primeira cirurgia no quadril.

O Dr. Roberto Dantas, responsável pela cirurgia, rebateu as acusações de Pelé.

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“Não existe nada de erro médico. O Pelé entendeu errado. Esta história de parafuso que ele conta, entendeu errado. Antes de o Pelé ir aos Estados Unidos para esta nova cirurgia, repetimos todos os exames e não encontramos de modo algum nada errado na prótese do quadril”, garantiu o médico.

O caso foi parar no Cremesp – Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo -, que considerou a denúncia descabida e decidiu arquivar o processo.

A conclusão do Cremesp: não houve erro médico.

Pepito Fornos, assessor de Pelé à época, disse que o Rei não iria falar sobre a decisão do Cremesp de arquivar o caso.

A informação do arquivamento da denúncia foi objeto de uma matéria que fiz para o UOL Esportes, em 19 de dezembro de 2017.

Depois da matéria para o UOL, tentei diversas vezes entrevistar o Pelé. Insisti, enviei mensagens para o Pepito Fornos, que argumentou falta de data para a realização da entrevista.

O Pelé e o Pepito Fornos, seu ex-assessor, conhecem o meu trabalho como jornalista.

Já o entrevistei várias vezes.

Ele sempre foi muito cordial e atencioso comigo. Fiz entrevistas com o Rei do futebol nas copas de 90, na Itália, de 98, na França e também desci a serra para fazer matérias com ele em Santos, ou no Guarujá, onde ele reside, em muitas oportunidades.

Conheço bem o histórico das lesões do Rei. Além do problema no quadril, Pelé tem problemas sérios na coluna e nos joelhos.

Quando procurei o Dr. Roberto Dantas, responsável pela sua cirurgia no Albert Einstein, tive acesso ao histórico de saúde do Atleta do Século.

Que, para minha tristeza, não era bom.

Na época, fiquei surpreso, pois o cidadão Edson Arantes do Nascimento sempre passou a imagem de ser uma pessoa de saúde perfeita.

Nos gramados, era um atleta irretocável em todos os aspectos.

Perfeito.

Dotado de todas as virtudes que um praticante de esporte de alto rendimento, como é o futebol profissional, deve possuir.

Nos últimos meses, infelizmente, Pelé começou a enfrentar graves problemas de saúde.

Em um exame de rotina, em setembro de 2021, também no Albert Einstein, foi constatado que o Atleta do Século tem um tumor maligno no cólon.

Ele comparece com frequência ao Einstein para sessões de quimioterapia.

Durante o tratamento, de acordo com o site da ESPN, exames constataram que a doença teria tomado outros órgãos, como o fígado e os pulmões.

Estas informações não foram confirmadas pelo hospital e também pela família do ex-jogador.

O próprio Pelé escreveu em uma esporádica postagem no Facebook logo após uma de suas internações no Hospital Albert Einstein para sessões de quimioterapia, que o tratamento do tumor no cólon “estava difícil”.

Com o acúmulo de problemas de saúde, Pelé não é mais atuante nem nas mídias sociais.

Com a dificuldade de locomoção, Pelé e a sua assessoria de marketing começaram a usar bastante as redes sociais como o Facebook e o Instagram.

Estas aparições virtuais, porém, se tornaram cada vez mais escassas nos últimos meses.

Após várias semanas sem postar nada nas redes sociais, nesta quinta-feira, 07/07, Pelé, por sua assessoria de marketing, lembrou que, nesta data, em 1957, portanto há 65 anos, estreou na Seleção Brasileira, em um jogo pela Copa Roca, contra a Argentina, no Maracanã.

O confronto terminou 2 a 1 para os argentinos.

O gol brasileiro foi marcado por Pelé, que entrou no segundo tempo.

Na segunda partida, disputada três dias depois, no Pacaembu, o Brasil venceu por 2 a 0 e ficou com o título da Copa Roca.

O primeiro gol foi de Pelé. O segundo, de Mazzola.

Mas voltando aos dias atuais, o ânimo de Pelé começou a cair quando ele enfrentou as primeiras dificuldades para se locomover.

Inicialmente começou a aparecer em público usando muletas.

Depois, como no documentário feito pela Netflix, lançado no início de 2022, surgiu em uma cadeira de rodas.

Foi quando ele foi tomado pelo desânimo.

Não quis mais fazer fisioterapia.

“Todo mundo insiste com ele: médicos, família, amigos, etc. Mas o Pelé diz que sabe o que está fazendo. Ele é muito teimoso”, disse uma fonte, que concluiu: “Teimosia não é atributo só dos humildes mortais, como nós. A teimosia atinge também os ícones”, afirmou a fonte, pessoa próxima ao Rei, visivelmente preocupada.

Pelé era, além de tudo, de todos os atributos que possuía como jogador, um atleta inigualável.

Gostava muito de treinar. Ex-companheiros contam que quando ele não brilhava em um jogo, o que era raro, mas acontecia, no dia seguinte chegava cedo à Vila Belmiro para treinar e corrigir os defeitos que havia mostrado na partida.

Em uma de suas últimas raras entrevistas, revelou que se sentia fraco.

Triste, disse, apertando uma das coxas: “Eu tinha pernas fortes, grossas, agora estão finas, fracas”, constatou.

O que todos que amam o futebol, e que tiveram o privilégio de apreciar a arte de Pelé, esperam e torcem é para que ele consiga driblar os problemas de saúde e, Rei que é, tenha vida longa.