O dia em que o Animal Edmundo maltratou torcedores palmeirenses

Edmundo durante uma de suas passagens pelo Palmeiras (Foto: Neal Simpson/EMPICS via Getty Images)
Edmundo durante uma de suas passagens pelo Palmeiras (Foto: Neal Simpson/EMPICS via Getty Images)

Era uma manhã de sábado. O Palmeiras treinava na Academia de Futebol, ainda em construção, com tijolos para todos os lados e a areia subindo sempre que um carro entrava ou saía rápido e cantando pneus no estacionamento dos jogadores.

O Diário Popular era o único jornal de São Paulo que cobria os treinos de sábado, fossem eles de manhã, ou à tarde. Os outros jornais fechavam as edições de domingo nas noites de sexta-feira. De vez em quando surgia um repórter ou outro de rádio ou televisão nos treinos de Corinthians, São Paulo ou Palmeiras.

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Mas isso era raro.

O Dipo, não. Os repórteres iam aos treinos de sábado. Este era apenas mais um dos muitos diferenciais da editoria de esportes do jornal.

Antes do treino, normalmente marcado para começar às 9 da madruga, eu e o repórter fotográfico do Dipo já estávamos na Academia de Futebol palmeirense.

Faz tempo que eu não vou à Academia. Por isso não sei como ela é hoje. Pelo que já ouvi, muitas melhorias foram feitas lá. Na época, havia um ginásio que era utilizado para os jogos do time de futebol de salão.

A entrada era de terra batida. Que virava um lamaçal quando chovia. A poeira subia em dias de sol.

Final de treino, fui para o estacionamento para retornar à redação no carro do jornal.

Percebi que o movimento era grande de torcedores palmeirenses nas proximidades do estacionamento onde os jogadores deixavam seus carros.

Como o seu vizinho São Paulo, o Palmeiras também começara a abrir o seu CT para que seus torcedores entrassem aos sábados. O local estava lotado de homens, mulheres e crianças. Era o dia em que os pais levavam os filhos para conhecer seus ídolos. E ídolos não faltavam naquele Palmeiras que tinha o suporte financeiro da Parmalat. Roberto Carlos, Evair, Mazinho, César Sampaio, Edmundo...O time palmeirense tinha muitas estrelas.

O Diário Popular chamava o Palmeiras de Leiteria, claro, uma clara alusão ao seu patrocinador.

Vejo Edmundo entrando no seu carrão.

Vários torcedores se aproximam dele. Querem autógrafos. Celular ainda não existia. Portanto, nada de fotos. Eram assinaturas em camisas, em cadernos, qualquer folha de papel. Edmundo dá três, quatro autógrafos.

Percebo que ele está irritado. Quer ir embora. Não consegue. Já está dentro do carro.

Eu conhecia bem o Edmundo. Tinha certeza de que ele iria perder a paciência.

Fico olhando a cena. De longe. Ele não me vê. De repente, ele acelera o carrão.

Faz com que os que estão na frente do carrão pulem de lado, saiam em disparada.

Edmundo parte em alta velocidade. Levanta poeira. As pessoas, apavoradas, correm. Pais pegam seus filhos no colo. Edmundo sai pelo portão da Academia. Entra na Av. Marquês de São Vicente e vai embora.

Vou para o jornal. Escrevo sobre o treino e apresento o clássico com a Portuguesa, sim, a Lusa naquele tempo era time grande, que seria disputado naquele domingo.

E relato a cena que o "Animal", era assim que Edmundo era chamado pelo narrador Osmar Santos, protagonizou na saída do CT.

A manchete do Dipo no domingo foi: Animal maltrata torcedores. No domingo, fui cobrir o clássico, no Canindé.

Após a partida, dentro do vestiário palmeirense, sim naquele tempo repórter entrava no vestiário, Edmundo veio falar comigo. Eu estava sentado entrevistando o Roberto Carlos, quando Edmundo se aproximou.

"O que você escreveu lá?". Perguntou.

Não respondi. Levantei-me rapidamente, para não ser agredido e massacrado sentado. Para a minha surpresa, Edmundo se afastou. Eu continuei o meu trabalho.

Até hoje não sei o que o levou a recuar.

Medo de mim? Não creio.

O fato é que o Animal, impulsivo e sempre disposto a partir para a porrada, qualquer que fosse o motivo, teve um lampejo de sensatez. E recuou. Ufa, ainda bem.