'O Cavaleiro da Rosa' subverte os gêneros e vai da sutileza ao escracho

*** FOTO DE ARQUIVO *** SÃO PAULO, SP, 03.07.2022 - ÓPERA THEATRO MUNICIPAL - Montagem da ópera
*** FOTO DE ARQUIVO *** SÃO PAULO, SP, 03.07.2022 - ÓPERA THEATRO MUNICIPAL - Montagem da ópera

FOLHAPRESS - Richard Strauss já era dono de seu estilo ao escrever a partitura da ópera "O Cavaleiro da Rosa", em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo, que estreou em 1911 a partir de texto do poeta Hugo von Hofmannsthal.

Contemporâneo de Mahler, que, como ele, foi um compositor-regente de sucesso, Strauss fazia uma música autoconsciente, com amplo domínio do uso de fragmentos e que rondava as fronteiras da tonalidade.

Ao enveredar pelo humor --"O Cavaleiro da Rosa" é uma comédia--, ele usa todo o arsenal da música romântica contra ela mesma, desconstruindo ironicamente cada convenção do estilo.

Presente em camadas do ótimo texto de Hofmannsthal, a ironia está antes de tudo na música, e dela passa ao público, que riu boas gargalhadas na récita de estreia, que ocorreu nesta sexta-feira.

Característica forte de alguns de seus poemas sinfônicos, o humor é levado ao limite por Strauss em "O Cavaleiro da Rosa". Em mais de um sentido, ele subverte o gênero.

Primeiro, brinca com as peripécias, comuns na história da ópera desde o barroco, de Octavian, personagem masculina interpretada por uma mulher que ao longo da história se traveste de homem. Depois, caracteriza o estereótipo do baixo bufo-cafajeste no barão Ochs. E ainda escancara a naturalização do adultério na alta sociedade vienense com Marechala e tira sarro da metafísica simbólica dos dramas musicais de seu antecessor, Richard Wagner.

Dessa forma, o gênero que está em questão é, primeiramente, a própria ópera romântica. O cavaleiro que surge como vindo de outra dimensão ("Lohengrin"?) é também o emissário do noivo perante a mulher destinada ao matrimônio, mas que se apaixona perdidamente por ela em um olhar ("Tristão e Isolda"?), mas igualmente traz um símbolo --a rosa de prata-- ao qual está atribuído um leitmotiv, uma convenção sonora, como em "O Anel do Nibelungo". De tudo ele tira sarro, não sobra pedra sobre pedra.

A montagem paulistana, que retoma e aperfeiçoa uma produção de 2018, leva em conta tudo isso. A suspensão harmônica marcante da música de Strauss, sua ambiguidade tonal, interpretada em alto nível de excelência e acabamento sonoro pela Orquestra Sinfônica Municipal, dirigida por Roberto Minczuk, é traduzida pelos objetos suspensos da cenografia.

Mesas, cadeiras, sofás, lustres e sobretudo camas estão sempre pendurados, suspensos nos acordes da música de Strauss. A ótima direção cênica de Pablo Maritano conta com cenografia de Desirée Bastos e brilhante desenho de luz de Aline Santini, um dos pontos altos do espetáculo.

Cantar Strauss exige mais do que bom preparo cênico e vocal. Suas exigências em termos de volume, resistência e homogeneidade em diferentes registros são imensas, e o grande destaque entre as vozes femininas, como os aplausos finais souberam reconhecer, foi a soprano argentina Carla Filipcic Holm, que interpreta Marechala. Entre as vozes masculinas, vale mencionar Hernán Iturralde, divertidíssimo como Barão Ochs, e Rafael Thomas como Faninal.

No último ato, Strauss e Hofmannsthal criam uma escrachada trama farsesca, com uma shakespeariana peça-dentro-da-peça, com efeitos de assombração tais como Ingmar Bergman usou na cena noturna de seu filme "O Rosto", de 1958.

Muito antes de que o contemporâneo Maurice Ravel desconstruísse a valsa vienense com sua obra "La Valse", de 1920, Strauss avacalha em alto nível a dança de salão austríaca, com direito a comentários das personagens em tempo real. "Que música bunita", imitando em alemão uma forma popular de falar, o que é captado pela legenda em português na tradução de Irineu Franco Perpetuo. "Dá vontade di chorá."

De sério, só a passagem implacável do tempo, especialmente do tempo para o amor: "Não me abrace tanto", diz a mulher de meia-idade ao jovem amante. "Quem muito abraça pouco segura."

O CAVALEIRO DA ROSA

Quando: Dom. (7) e sáb. (13), às 17h; ter. (9) e qui. (11), às 19h

Onde: Theatro Municipal - pça. Ramos de Azevedo, s/nº, República, região central, São Paulo

Preço: De R$ 10 a R$ 150, à venda na bilheteria do Municipal ou em theatromunicipalsp.byinti.com

Classificação: 12 anos

Elenco: Carla Filipcic, Hernán Iturralde, Luisa Francesconi e Lina Mendes

Direção: Pablo Maritano

Avaliação: Muito bom