Lenda do vôlei, Zé Roberto Guimarães vira objeto de desejo de biógrafos

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(Foto: Reuters)
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Por Alessandro Lucchetti

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Peguei o trem rumo a Barueri com a satisfação de quem está prestes a entrevistar um personagem do esporte que gosta de falar com jornalistas. E prefere fazê-lo face a face. Diferente de outros personagens mais arredios, Zé Roberto tem prazer em dar sua versão dos fatos. Após anunciar suas perspectivas para os Jogos Olímpicos de Tóquio e relembrar importantes momentos da carreira, o treinador fez mais uma homenagem a jornalistas que ajudaram a contar a vitoriosa história do vôlei brasileiro, sobretudo nas décadas de 80 e 90. Amigo do falecido Nicolau Radamés Creti, co-autor do livro Vitória!, ao lado de Cida Santos, fez questão de visitar o jornalista quando ele se encontrava seriamente enfermo, com leucemia, na distante Pirassununga. É esse treinador, hoje disputado renhidamente por candidatos a autor de uma provável biografia, que conversou longamente com a reportagem do blog Mundo Olímpico, no ginásio José Correa, que recebe os jogos do São Paulo/Barueri:

No dia da final olímpica de Londres, você revelou parte de suas superstições. Deu tapinhas nas corcundas de pessoas em 92 e em 2012, que, no seu entender, foram importantes para duas conquistas olímpicas. Está preparando algum canal para receber ajuda extra-quadra em Tóquio? Acho que o Brasil vai precisar...

Fico muito envolvido com toda a logística de preparação para os treinos e jogos. O resto, as demais coisas, dependem muito do universo.

Mas se tivesse uma ajudinha do outro plano seria bom...

Olimpíada é um campeonato totalmente diferente dos outros. Ninguém pode se machucar. Não pode ter problemas dentro do grupo...não pode haver absolutamente nada. Você tem que estar inteiro e tudo deve estar conspirando a seu favor.

Nunca teve problema mais grave dentro do grupo nos Jogos em que você ganhou?

Não. Apenas coisas normais, nada de sério. E nem quando perdemos. Tivemos coisas normais, pelo que a gente saiba.

Essa vai ser uma das Olimpíadas mais difíceis pro Brasil?

Acho que sim, mas pra todo mundo, não só pro Brasil. 

Queria que nos ativéssemos às perspectivas para o Brasil.

O nível de dificuldade é semelhante ao apresentado em outras edições dos Jogos. Não acho que seja diferente das outras não. Nunca foi fácil. Quando fomos pra Pequim, a gente vinha de uma derrota difícil em 2004. Tínhamos que provar pra todo mundo que o nosso time era de brio, de caráter, que tinha muita coisa boa. Foi um ciclo muito difícil. Havíamos perdido a final do Mundial pra Rússia, havíamos perdido a final do Pan pra Cuba...Vínhamos de pouquíssimas derrotas. Estávamos completando um quadriênio bom em termos de vitórias e de derrotas pontuais. Mas a cada derrota éramos tachados como um time de amarelões.

E aí você mandou aquele “somos amarelo-ouro”...

Mandei. Ali era uma dificuldade grande.

Nós, da imprensa, usamos esse verbo pesado, amarelar. E acho que ele machuca demais vocês. Mas o que talvez quiséssemos dizer, se usássemos termos mais suaves, era que a preparação mental talvez não estivesse no mesmo nível que a técnica e a física. Talvez aquele time precisasse ter perdido o que perdeu para criar a chamada “casca”. Os críticos usaram um termo talvez inadequado, mas era mais ou menos isso que queríamos dizer, sobre insuficiência de preparo mental...

Nós não tínhamos o know-how que os outros times tinham em termos de preparação para grandes eventos. Essa situação de termos pouca gente no nosso time atuando em clubes de fora do Brasil, inclusive treinadores, isso nos prejudicava. Era o meu caso. Pude sair do Brasil (em 2006) e treinar times no exterior (na Itália e Turquia). Pude treinar estrangeiras e jogadoras que atuavam fora do Brasil, pude enfrentar algumas outras. Foi um aprendizado e um parâmetro que tivemos em Pequim e que não tínhamos em Atenas. A gente sempre estudou muito, víamos vídeos aqui do Brasil. Sempre teve muito estudo. Mas nunca fomos in loco participar de tudo aquilo. Quando a gente teve essa possibilidade, e estou falando dos três treinadores – Claudinho foi pra Turquia, Paulinho foi pra Espanha e eu, pra Itália – saindo pra viver novas experiências. Vimos o mundo inteiro jogando vôlei. Aí o parâmetro que tivemos foi muito diferente. Tudo mudou. 

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Pode detalhar?

Treinar jogadoras adversárias foi muito benéfico. Treinar as brasileiras – a Sheilla em Pesaro, a Mari no ano seguinte, a Jaqueline tava em Jesi – teve muitas coisas que elas vivenciaram. Antigamente não tinha nenhuma jogadora brasileira atuando fora do País, elas não viviam outras experiências. Isso acrescenta muito. 

Aquela derrota para as cubanas no Pan de 2007, em casa, foi um negócio sofrido, doloroso. Ajudou a curtir o couro do grupo de vocês, né?

Exatamente. Tudo serviu pra gente entender, pra gente aprender. Quando chegou a Olimpíada, eu tinha certeza de que tínhamos time para brigar contra qualquer seleção do mundo. Eu vinha dizendo isso. Haja visto o que aconteceu no Mundial, no Pan, no Grand Prix...A gente sempre estava brigando entre as melhores do mundo. Mas sempre tinha uma chacota, né? “Time de amarelonas” e tal. No entanto, eu sabia que era uma questão de tempo pra gente chegar. 

Mas teve até uma ocasião em que a Fofão me disse: “olha, a nossa preparação mental não está no mesmo nível da técnica, da física”. Era a forma de ver dela, né?

Claro.

Acho que não é demérito pra ninguém não estar tão bem preparado mentalmente. 

Por isso que te falo: tudo é aprendizado. A própria Fofão saiu pra jogar fora. O fato de você ter tido essa experiência de estar jogando em outros ambientes, com essas jogadoras que enfrentará depois, em futuros confrontos de seleções, te dá uma segurança...Poxa, estou aqui do lado delas...Isso te coloca num patamar de confiança. Isso que aconteceu, na realidade. Vivenciamos outras experiências – os treinadores da comissão técnica e as jogadoras. Fomos crescendo no quesito emocional, psicológico do jogo. 

E quanto a Londres?

Depois de toda grande vitória, é preciso tomar um cuidado muito grande. Foi assim no masculino (depois de Barcelona-92) e no feminino também. Muda todo o enfoque. Ganhou-se, e aí tem um glamour. Nesse momento, precisamos adotar cuidados. Você não pode parar de treinar, porque, afinal de contas, é do time a ser batido. Seu time é o parâmetro. 

Ser bicampeão, dentro desse contexto...

É mais difícil ainda. O Brasil sofreu muito pra ganhar esse bicampeonato. E imagine depois desse bicampeonato...

Jogando em casa, em 2016...

Aquela derrota pra China (na Rio-2016) foi para o time que depois se sagrou campeão olímpico. E foi no tie-break, por 15/13...

Zé, e quanto à renovação? Já ouvi declarações suas dando conta de que está vindo uma nova geração, para os Jogos de 2024 e 2028, que é alta e boa. Mas tem uma lacuna agora...

As pessoas falam muito nessa coisa de renovação...Muitas vezes fico surpreso com certos raciocínios. Se você olhar pra outras modalidades, vai ver que um dos melhores jogadores de tênis hoje tem 38 anos (Roger Federer). Existe maior longevidade no esporte hoje. E é muito subjetivo isso. A gente sempre renovou quando foi necessário renovar. Por exemplo: a Mari disputou a Olimpíada de 2004 com 19 anos. A Natália chegou à seleção adulta com 16 anos. Hoje ela tem 30, e não acho que seja uma jogadora velha. 

O Marcel, do basquete, dizia que entendia renovação como a troca do pior pelo melhor, não necessariamente do mais velho pelo mais novo...

Pra mim é isso também. Não se deve simplesmente trocar o velho pelo novo, mas o pior pelo melhor. Vejo da seguinte forma: qual é a performance de determinada jogadora mais velha? Tá rendendo mais do que a mais nova? Devemos chamar as que estão melhor. Se a mais nova tá melhor, tem que ir a jovem. Se a mais velha estiver melhor, vai ela. 

Seria legal se tivéssemos jovens que desbancassem as mais velhas...

Mas aí é uma questão de tempo, de gerações. Nem todas elas são talentosas. Caso contrário, a Itália, depois daquela geração dos fenômenos (Zorzi, Cantagalli, o excepcional Lucchetta, Tofoli, Giani, Papi...) haveria uma outra e a Itália nunca mais pararia de vencer. Então é uma coisa de geração...particularmente, acho que teremos uma boa geração para 2024 e 2028.

O importante é o trabalho estar sendo bem feito...

Tivemos neste ciclo muitos problemas. Nunca conseguimos montar um mesmo time para os campeonatos que jogamos. E aí entra uma situação, aquilo que acontece na vida de cada uma das jogadoras. Existem escolhas pessoais, de se tornarem mães, de casarem. No feminino tem muito disso. 

Mas as alegações para alguns pedidos de dispensa tinham a ver com dificuldade para lidar com pressão de seleção brasileira adulta. Há jogadoras que preferem jogar apenas pelo clube mesmo. 

Não é qualquer jogadora que consegue jogar na seleção. Jogar no clube é uma coisa e jogar na seleção é outra. Não é qualquer uma que consegue aguentar a pressão na seleção. Algumas delas preferem ficar fora.

Esse fenômeno, de recusar a seleção devido à dificuldade para lidar com pressão, ocorria antes? 

(Faz uma pausa pra pensar). Acho que não. Nunca ouvi falar tanto em depressão como neste período que vivemos agora. Esse fenômeno não era tão comum no nosso dia a dia. Hoje ouço muito falar: “pô, estou deprimido”.

E isso é geral, não só no esporte...

Não é só no esporte não. 

Zé, você decidiu encerrar sua história como treinador da seleção brasileira nos Jogos de Tóquio. O que você levou em consideração pra tomar essa decisão?

O tempo. É o momento de viver minha vida. Dediquei metade da minha vida à seleção. É o momento de dizer adeus. Tudo na vida tem começo, meio e fim. O importante é o trabalho que foi feito. É vida que segue. 

Por que você indicou o Paulo Cocco?

Acho que o Paulinho é um cara que tá pronto. É um cara que tem feito um grande trabalho no Praia Clube. Trabalhou comigo durante anos, conhece todo o vôlei internacional. É um técnico excepcional.

Quando ele trabalhou contigo pela primeira vez?

No Banespa, em 96. A gente foi vice-campeão brasileiro. Depois fomos juntos pro Dayvit. Aí depois fui pro Corinthians (em 99, Zé Roberto foi trabalhar no Parque São Jorge, como diretor de futebol da Corinthians Licenciamento Ltda, empresa formada a partir de uma parceria entre o clube alvinegro e o fundo de investimentos norte-americano Hicks, Muse, Tate and Furst Incorporated. Depois disso, o treinador de vôlei foi atuar no futebol do Cruzeiro). Após a experiência no futebol, fui pra Osasco (com patrocínio do BCN e posteriormente do Bradesco). Lá, em quatro anos, fui três vezes campeão brasileiro e tive um vice, no primeiro ano. Aí um diretor, o Celso Barbuto, me disse que eu teria de optar entre a seleção e o time de Osasco. Respondi que meu sonho era conquistar uma medalha de ouro pelo feminino. Foi quando optei pela seleção nacional. Aí o Paulinho ficou um ano no meu lugar. Depois acabou saindo. Naquele momento entrou essa comissão técnica que está aí até hoje lá (comandada por Luizomar de Moura). 

E seu time atual, o São Paulo/Barueri? Deve ter sido muito gratificante essa conquista do Paulista, com um time mais modesto.

O trabalho aqui é muito voltado para a base. Ele tem um cunho social importante. É preparação, desenvolvimento das categorias de base. Hoje, no time adulto, temos sete jogadoras que vieram da nossa base. A partir deste mês de janeiro, cinco delas continuam disputando competições de suas categorias, concomitantemente às do adulto. 

E como é dirigir esse time (a equipe treinava defronte ao treinador e ao jornalista naquele momento), sem tanto recursos?

É o terceiro ano em que trabalho de graça, é trabalho voluntário aqui. 

Por que optou por trabalhar de graça?

A gente tem que fazer alguma coisa. Não podemos simplesmente cruzar os braços. Barueri tinha um trabalho muito bom na base até 2015. Naquele ano, o município passou por um problema financeiro e resolveram acabar com todo o esporte de alto rendimento da cidade. Aí eu tava assistindo a um treinamento de seleções brasileiras de base e comecei a perguntar de onde as meninas eram. Fiquei sabendo que sete delas, entre as seleções sub-18 e sub-20, eram oriundas das categorias de base daqui de Barueri. Aí pensei, ‘’pô, esse trabalho não pode acabar. É muito bom, tem DNA. Quem sabe não consiga retomar esse trabalho, conversando com o pessoal da prefeitura?”.

E quais eram as pessoas que estavam por trás desse trabalho?

É um grupo formado por Betão, Betinho, Carlinhos, Serginho, Adroaldo...São caras do vôlei, que hoje são funcionários da prefeitura. Há muitos anos construíram os alicerces do vôlei de Barueri. E permaneceram durante muito tempo. Esse trabalho tinha acabado. Aí fui conversar com o prefeito e com o secretário de esportes e pedi ajuda pra retomar o trabalho. Aí ele me cedeu o Ginásio do Engenho pra base. Montei uma peneira e apareceram 463 meninas. Agora estamos no terceiro ano deste projeto. Neste terceiro ano, fomos às finais de todas as categorias que disputamos. Foi muito bom. Fomos vice (estaduais) no sub-17 e sub-19 e campeões no sub-21 e adulto.

Mas imagino que, ao sair da seleção, não vá ser possível continuar aqui, sem ganhar nada. Acho eu...

Não sei, tenho propostas de outros trabalhos. Tenho que pesar isso. Mas a minha preocupação, meu foco, é a seleção. Eu tô envolvido com o planejamento. No dia 8 (esta quarta-feira) vou à Holanda (que, a partir de 2020, quer ser chamada apenas de Países Baixos) para acompanhar o Pré-Olímpico Europeu. Tenho que estar muito próximo do que está acontecendo. Praticamente o trabalho de estruturação da base aqui tá todo pronto para que seja dada sequência no próximo ano. O São Paulo nos ajuda com uma verba para o adulto, que não é muita, mas ajuda. Quem nos ajuda na base é a Epson.

E o torcedor do São Paulo de fato se ligou nesse time?

Temos uma torcida muito interessante. A gente tem tido uma média de público que chega a 2 mil, 2.500 torcedores em partidas da Superliga. 

E esse papo de ir pra Rússia? (O jornalista Bruno Voloch revelou, em seu blog no Estadão, que foi feito um convite para que Zé Roberto assuma a seleção feminina russa). 

Convite existe. Mas não sei...

Muito frio?

Minha cabeça hoje tá voltada pra Olimpíada, pra essa renovação que estamos buscando. Não tenho nem cabeça pra pensar nisso. 

(Foto: Reuters)
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O que você pode dizer do trabalho feito na base brasileira, de uma forma geral? 

O grande problema que enfrentamos hoje é um problema natural, que ocorre no nosso país. Tudo depende da economia. Estamos sofrendo em tudo. Não é um problema exclusivo do vôlei. Todas as modalidades, todos os setores da nossa vida: na educação, na saúde, na cultura, na segurança...Temos falta de investimento em tudo. Estamos sofrendo por causa da nossa economia. Mas existem abnegados que trabalham. Há clubes que trabalham, que tentam fazer, que vão atrás de jogadoras com bom biótipo, talentosas. Temos jogadoras interessantes aparecendo aí. Muita gente cobra resultados na base. Resultados na base, muitas vezes, não mostram nossa realidade. O ideal é que tenham resultados no adulto.

Você disse que vai pros Países Baixos para coletar mais informações sobre o cenário do vôlei internacional. Mas até o presente momento, como você o vê?

Temos hoje três seleções candidatas à medalha de ouro. China – o campeonato chinês está terminando agora. Procuraram fazer uma competição mais curta para dar mais tempo pra seleção treinar. Temos a Sérvia e os Estados Unidos também. A Itália corre por fora e o Brasil também. 

Nesse contexto, um bronze já seria uma baita conquista?

Uma medalha seria importante. Mas o time do Brasil tem condições de brigar com qualquer time do mundo pelo ouro. A gente fala que na Olimpíada tudo pode acontecer. 

Acho interessante esse surgimento de jogadoras italianas que descendem de africanos. Bonito você integrar os descendentes de pessoas sofridas que foram à Itália em busca de uma vida melhor. E hoje temos correntes migratórias africanas vindo para o Brasil. Quem anda no centro de São Paulo vê muitos camaroneses, senegaleses e nigerianos. E também chegam famílias negras provenientes da América Central, do Haiti. Será que os filhos desses imigrantes, alguns com biótipo tão favorável, terão a oportunidade de serem iniciados num esporte? Nossa estrutura esportiva dará essa chance a eles? 

Acho que é uma questão de tempo. Essa migração para a Itália se iniciou há mais tempo. No Brasil isso é mais recente. Na Itália, quando estive lá, trabalhando no Scavolini Pesaro (de 2006 a 2009), já ocorria esse afluxo populacional, e em escala maior. 

Depois de ter vencido tanto (uma medalha de ouro pela seleção masculina e duas pela feminina), a fome ainda é grande? 

(Abre um sorriso). O importante é a paixão. A paixão não diminui nunca. Não pode. Esse amor pelo esporte é muito grande.

Como se iniciou esse amor? O que te levou a jogar vôlei?

Eu jogava futebol e fui estudar num colégio de periferia de Santo André, o Sergio Milliet. Meu professor de Educação Física (Valderbi Romani, técnico da seleção masculina de vôlei na Olimpíada de 1972) gostava de vôlei e só dava vôlei pra nós na aula. 

Você ficava chateado?

Não entendia muito, porque queria jogar futebol. Mas comecei a tocar na bola, fui gostando e ele me levou pra fazer um teste no time da cidade, o Randi (clube mantido por uma tecelagem especializada na fabricação de cobertores. Os atletas jogavam numa quadra de cimento rústico, descoberta, nos fundos da fábrica). Fui aprovado. O Randi Esportes Clube depois se transformou na equipe que defendeu o Clube Atlético Aramaçan, Metalúrgica São Justo e acabou virando Pirelli. 

Aí você não quis mais saber de outra coisa...

A partir dos 13 anos, só queria saber de jogar vôlei. Não quis mais jogar futebol. Foi aí que conheci o William. Ele tinha a mesma idade que eu e tinha começado a jogar no Tietê. Aí a gente jogou contra no Campeonato Paulista, depois jogamos juntos na seleção paulista e na seleção brasileira. Joguei com ele na seleção até 77 e depois não fui mais convocado. Ele continuou sendo, era um grande talento. Foi pra Moscou em 80, pra Los Angeles em 84 e pra Seul em 88.

E você foi pra Montreal em 76...

Fui. Eram três levantadores: Bebeto, William e eu. 

Você era banco...

Entrava pra sacar e fazia o que faz o líbero hoje. Não tinha líbero naquela época, mas eu defendia bem. Eu entrava pra sacar e fazia todo o fundo de quadra. Se precisasse levantar, levantava também. 

E tempos depois você se tornou auxiliar do Bebeto na seleção...

O auxiliar do Bebeto em Seul era o Bernardo (Bernardinho). Depois que ele saiu, eu me tornei auxiliar do Bebeto. 

Naquele Sul-Americano de 89, em Curitiba, que foi histórico (Brasil bateu, numa virada emocionante, uma Argentina com nomes muito mais expressivos), você já estava...

Em 88 eu ainda jogava. O Bernardo já tinha parado e já tinha sido técnico na Itália. Quando ele saiu, o Bebeto me chamou.

A conquista do Sul-Americano de 89 foi muito sofrida...

A Argentina tinha um time muito melhor que o nosso. 

Mas dava pra ver que estava nascendo uma geração brasileira muito boa...

Depois a gente perdeu a semifinal do Mundial de 90 pra Itália por 3 a 2 (Azzurra comandada em quadra pelo genial Andrea Lucchetta, MVP daquela competição). Depois o Bebeto foi pra Itália, pra ser técnico do Maxicono Parma. Aí em 91 me chamaram pra ser técnico das seleções femininas de base. Fomos vice-campeões mundiais nas duas categorias. 

Como você foi parar na seleção masculina?

Em 91 as coisas não tinham andado tão bem na seleção masculina. Aí o Nuzman me chamou pra assumir a seleção masculina adulta. 

Você chamou a atenção dele com esse desempenho na base feminina?

Teve episódios antes. O Bebeto um dia me chamou e disse que precisávamos tomar uma decisão. Ele me deu duas opções: ou você permanece como assistente técnico na seleção masculina adulta ou você pega a seleção infanto masculina. Ele pediu pra eu não responder naquela hora. Íamos começar a treinar pro Sul-Americano de 89. Aí me pediu pra pensar e responder em Curitiba. Na metade do Sul-Americano, anunciei minha decisão. Disse que o assistente dele era o Bernardo, não eu. Tinha ido preencher uma lacuna, mas queria começar minha vida como técnico. Aí ele ficou de passar isso pro Nuzman, e pediu pra que filmassem pra mim o Sul-Americano infanto para eu fazer a convocação dos meninos da sub-16. Mas o Bebeto era muito supersticioso. Como ganhamos da Argentina, e eu cantava o saque, ele virou pra mim na noite em que conquistamos o Sul-Americano e me disse que eu não ia mais pra seleção infanto. Disse que ia ficar com ele na seleção adulta. Eu disse que ele era o chefe, era quem mandava, mas pedi pra ele comunicar aquela decisão ao Nuzman. Porém, as coisas estavam meio complicadas entre Nuzman e Bebeto (como se pode ler na biografia de Bebeto, escrita por Ricardo Valesi). Em 90 fizemos o Mundial, o Nuzman acompanhou nosso trabalho. A comissão era Bebeto, Jorjão (Jorge Barros de Araújo) e eu. Aquela nossa garotada foi muito bem. Eles eram muito jovens e perdemos para um supertime italiano por 3 a 2 na semifinal. O Bebeto, que fez um baita trabalho, depois decidiu ir pra Itália. A seleção então foi desfeita. Para a seleção infanto masculina foi o Marcos Lerbach. Aquela era a seleção do Marcelo Negrão, que foi o melhor jogador do Mundial da categoria, que vencemos. O Paulo Márcio, que era o braço-direito do Nuzman, disse que tinham que aproveitar o Zé, que eu não podia ficar fora. O Marco Aurélio tava na seleção adulta feminina e resolveu me colocar nas seleções femininas de base do Brasil. Eles não achavam que eram bons times, mas eu achava que eram. Aí fomos vice-campeões mundiais nas duas categorias. O Nuzman não viajou pra ver esses campeonatos, mas me ligou. Ele me parabenizou, disse que o trabalho tinha sido uma beleza, disse que a classificação para aquelas duas finais era inesperada. A seleção masculina adulta atravessava um período conturbado. Aí resolveram me chamar.

E aí teve início o trabalho dourado de Barcelona. Gostaria de dar uma palavra final nesta longa entrevista?

Sim, sinto muita falta de jornalistas como João Pedro Nunes (ex-Estadão), Nicolau Radamés Creti (ex-Diário Popular e Gazeta Esportiva) e Cida Santos (ex-Folha de S. Paulo, hoje na TV Globo). Eles iam aos ginásios para acompanhar os treinos e jogos. Sinto que faziam jornalismo com mais coração.

Hoje muitos jovens jornalistas se especializaram em “entrevistar” perfis de Instagram e Twitter, eu acho.

Sinto isso também.

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