Zagueiro do tetra, Márcio Santos demonstra preocupação com Thiago Silva

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Márcio Santos durante partida do Brasil na preparação para a Copa de 94 (Shaun Botterill/ALLSPORT)
Márcio Santos durante partida do Brasil na preparação para a Copa de 94 (Shaun Botterill/ALLSPORT)

Márcio Santos foi um zagueiro de boa técnica e personalidade forte. Características fundamentais para uma equipe que conviveu diariamente com a pressão pelo título da Copa do Mundo, como a seleção brasileira de 1994. Passadas mais de duas décadas daquela conquista, o ex-jogador não vive mais o ambiente do futebol – é empresário e administrador de shopping center em Balneário Camboriú (SC) –, mas segue acompanhando de perto os passos da seleção. Em entrevista exclusiva ao Yahoo Esportes, ele faz uma análise da equipe comandada por Tite e relembra grandes momentos do tetracampeonato mundial nos Estados Unidos.  

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Quais são as tuas expectativas em relação ao Brasil para a Copa do Mundo de 2018 e como você avalia a convocação do Tite?

O grupo tem qualidade técnica, e isso me deixa confiante. Esses eram os jogadores que o Tite tinha para convocar. Antigamente, existiam três ou quatro grandes atletas por posição, o que você não vê mais hoje em dia. Tanto é que o Brasil não foi bem na Copa de 2014 e, por falta de opção, alguns voltaram a ser convocados.

E qual análise você faz dos quatro zagueiros do elenco?

São as melhores opções possíveis. O Miranda é sereno e, quando um zagueiro é tranquilo, raramente comete falhas. O Marquinhos também é muito regular. Sobre o Geromel, sempre achei que merecia ser convocado, porque está há mais de um ano e meio jogando em alto nível. Ele já teve experiências na Europa e acho até que pode brigar pela titularidade. Já o Thiago Silva teve várias chances, mas parece que deixa a desejar na parte psicológica em momentos agudos da competição.

Sob esse aspecto, há um contraste entre o seu comportamento na Copa de 1994 e o dele em 2014. Ainda que tenha desperdiçado o pênalti na final contra a Itália, você era o titular mais jovem da equipe (24 anos) e foi o primeiro batedor. O Thiago Silva, por sua vez, nas oitavas de final contra o Chile, pediu ao Felipão para ser o último entre os 11. O que explica essas posturas tão antagônicas?

Isso aí é personalidade, e a minha sempre foi muito forte. Aos 18 anos, era capitão do Novorizontino no Campeonato Paulista, apesar da equipe ter vários veteranos. Na Copa de 1994, nós sempre cobrávamos pênaltis após os treinos, e eu tinha o melhor aproveitamento. Quando chegou a hora de escolher os batedores contra a Itália, fui o primeiro a ser procurado pelo Parreira. Acabei perdendo a cobrança por outros fatores, como ter decidido mudar o canto na última hora. Quanto ao Thiago Silva, é um grande zagueiro, capitão do PSG e já fez muito na Europa, mas tem demonstrado fraqueza na parte psicológica inclusive em jogos decisivos da Liga dos Campeões.

Em entrevista concedida ao jornalista Paulo Vinícius Coelho, na Copa de 2014, você disse que os jogadores da seleção brasileira estavam com medo de serem os “novos Barbosas”, de se tornarem os novos vilões por uma eventual perda do título. Como você imagina que eles estarão agora, carregando o peso do 7 a 1?

Brinco que agora está 7 a 2, porque ganharam o último amistoso por 1 a 0 (realizado em 27 de março de 2018, no estádio olímpico de Berlim). Na época, quando fui perguntado sobre a pressão de jogar em casa, disse que a preocupação não era com a parte técnica, e sim com a psicológica. Tínhamos grandes jogadores, mas havia o histórico de ter perdido em 1950, algo que o brasileiro não aceitaria pela segunda vez. Naquela seleção, nem o Neymar tinha experiência de Copa do Mundo. Faltava experiência no grupo para encarar a pressão de um país inteiro. Todos viram claramente o que aconteceu durante a execução dos hinos nacionais. No elenco de 2018 isso está mais equilibrado. Sempre cobrei a presença de mais protagonistas na seleção, e antes só existia o Neymar. Se você conseguisse anulá-lo, acabava a equipe. Agora não, há outros jogadores com protagonismo em seus clubes na Europa.

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Havia vários protagonistas também naquela seleção tetracampeã em 1994. Um deles era o Ricardo Rocha, com quem você dividiu o quarto na concentração. Apesar de ter se machucado na estreia contra a Rússia e não ter mais atuado na Copa, qual a importância dele para o grupo?

O Ricardo é muito especial, atuamos juntos desde a Copa América de 1991. Eu era jovem e conversávamos bastante. Ele sempre procurou me incentivar e aumentar a minha moral, mas foi fantástico com o grupo inteiro. Todo elenco precisa de um jogador assim, tanto é que pedimos ao Ricardo Teixeira para que não fosse cortado. Ele ajudou muito na questão da experiência e exerceu uma influência muito boa fora de campo.

Qual foi a partida mais complicada daquela Copa?

Todos pensam que foi o 3 a 2 contra a Holanda, porque relaxamos e só depois conseguimos voltar para o jogo, mas a partida mais chata foi contra os Estados Unidos. Durante toda a Copa, entrávamos em campo e parecia que estávamos em casa, com as arquibancadas verde-amarelas. Existia uma empresa que patrocinava a seleção e presenteava a torcida com uma camiseta, dando a impressão de estarmos no Brasil. Mas isso foi diferente contra os americanos, porque era o Dia da Independência deles (4 de julho). Só havia bandeira dos Estados Unidos. E teve ainda a expulsão do Leonardo, que aumentou um pouco a pressão e deixou o jogo truncado.

E a melhor recordação?

Uma das grandes lembranças é a união daquele grupo. Em oito anos de seleção e em todos os clubes que passei, nunca vi nada igual. Quando eu dividia uma bola perto do banco de reservas, todos pulavam e apoiavam. Essa energia positiva chegava aos que estavam dentro de campo. Além disso, o país ainda estava de luto por causa do Ayrton Senna. Ele assistiu a um amistoso que fizemos em Paris (Brasil 0 x 0 Paris Saint-Germain, em 20 de abril de 1994) e disse que, naquele ano, um de nós teria que ganhar. Como ele sofreu o acidente, precisávamos dar um jeito de amenizar aquele luto. Não havia preocupação com nenhum adversário, e sim vontade de ser campeão.

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