Zé Roberto sonha com 'projeto Fenerbahçe' no vôlei do São Paulo

BRUNO RODRIGUES
Folhapress
***ARQUIVO*** SAO PAULO, SP,19.07.2019 - Tecnico Jose Roberto Guimaraes. (Foto: Guilherme Rodrigues/MyPhoto Press/Folhapress)
***ARQUIVO*** SAO PAULO, SP,19.07.2019 - Tecnico Jose Roberto Guimaraes. (Foto: Guilherme Rodrigues/MyPhoto Press/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dono de três medalhas de ouro em Jogos Olímpicos, José Roberto Guimarães, 65, comandará em Tóquio o que diz ser sua última Olimpíada à frente do voleibol brasileiro. Com um vasto currículo de contribuição ao esporte, o treinador só mira uma coisa: um lugar no pódio.

Além de sua despedida olímpica com a seleção feminina, o treinador está com a cabeça voltada para um outro projeto, com o qual também quer deixar resultados expressivos.

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O São Paulo, que desde 2015 não tinha uma equipe de vôlei -quando cancelou sua parceria com o time masculino do Taubaté-, anunciou para esta temporada um acordo com o Barueri, de Zé Roberto, para retomar a modalidade dentro do clube do Morumbi.

Tricolor de coração, o técnico diz ter a segurança do presidente Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, para que a parceria dure ao menos dois anos. Para isso, porém, afirma que ele e o time também precisam contribuir.

"A diretoria gosta [de vôlei], os torcedores gostam. Mas cabe a nós mostrar que vale a pena investir, que vale a pena torcer, estar junto. Não é uma via de mão única", afirma Zé Roberto à Folha de S.Paulo.

A primeira parte da meta projetada para 2019 o São Paulo/Barueri já alcançou: estar entre os quatro primeiros do Campeonato Paulista. Semifinalista do estadual, o técnico planeja também ficar entre os oito primeiros na Superliga na temporada de estreia das são-paulinas no torneio.

De 2010 a 2012, Zé Roberto comandou o vôlei feminino do Fenerbahçe, que no futebol é um dos clubes mais populares da Turquia. Campeão da Champions League da modalidade na temporada 2011/2012, o técnico conta que a torcida abraçou a equipe de voleibol a ponto de interditar o aeroporto de Istambul para comemorar a conquista.

Seu sonho, agora com o São Paulo, é replicar de certa forma a experiência de clube que teve na Turquia, país que hoje tem a principal liga feminina de vôlei do mundo.

"Lembro que, quando ganhamos a Champions League, chegamos de Baku, no Azerbaijão, e ficamos duas horas e meia sem conseguir sair do aeroporto. Quando o torcedor do São Paulo vê que luta, que corre atrás e que tenta, ele sempre dá força. Então é isso que eu espero e é disso que a gente precisa correr atrás", completa.


PERGUNTA - Como está este início de projeto em parceria com o São Paulo?

ZÉ ROBERTO - O São Paulo veio em um momento de muita dificuldade que nós [Barueri] estávamos encontrando. Era um sonho do Leco ter um time de vôlei representando o clube e, quando a gente sentiu a oportunidade de montar juntos esse projeto, ele foi muito solícito. Para mim, como são-paulino, é um grande orgulho representar o São Paulo e estar em um projeto onde há categorias de base muito interessantes, jogadoras que serviram às nossas seleções de base nos Mundiais recentes, bem como o time adulto, que é composto por jogadoras jovens, mas com muito talento. Tem muitas jogadoras que vão ser o futuro do voleibol brasileiro. Claro que no início vamos ter dificuldade, mas esse time vai incomodar muito time grande.


P. - Que segurança o São Paulo lhe dá que o projeto não será interrompido?

ZR - Foi conversado com a direção do São Paulo, inclusive, que o projeto será de no mínimo dois anos. A diretoria gosta, os torcedores gostam. Eu vejo isso com bons olhos. Mas cabe a nós do time mostrar que vale a pena investir, que vale a pena torcer, que vale a pena estar junto. Não é uma via de mão única. Temos a nossa responsabilidade, o nosso comprometimento de entregar o melhor resultado possível.


P. - Vocês trabalham com alguma meta de resultados imediatos no Paulista e na Superliga?

ZR - Eu gosto sempre de trabalhar com os pés no chão. Acho que nós temos um time jovem, em desenvolvimento, jogadoras que passaram pela seleção nacional, como a Tainara e a Lorene, que fez um ano maravilhoso na seleção, mas acho que, se ficarmos entre os quatro do Campeonato Paulista e os oito da Superliga, será um bom resultado para este ano.


P. - Você já teve outros trabalhos dentro do futebol. O que aprendeu em sua convivência com clubes para que a experiência não seja frustrante, como talvez tenha sido no Corinthians?

ZR - No Corinthians eu não era diretor do clube, era diretor de uma empresa chamada Hicks Muse, que era parceira do clube. Foi um grande aprendizado. Sempre tive vontade de trabalhar no futebol e ver como as coisas aconteciam ali dentro. Isso aconteceu, fiquei muito feliz e só saí porque o planejamento não foi até o fim. A empresa já queria o retorno financeiro imediato, o que não tinha sido combinado. Vendeu os jogadores da parceria e inseriram um caos dentro do clube, e não era essa a proposta.

Mas acho que estão muito bem divididos dentro do São Paulo os esportes amadores e o futebol. Tem gente dentro do São Paulo que gosta de vôlei, também do basquete, do atletismo, do boxe, e que são a favor de ter essas modalidades caminhando junto com o futebol. Tem espaço para todo mundo. Nós precisamos buscar patrocinadores fora, também para ajudar com esse custo, para que a cada ano a gente consiga brigar de igual para igual com os melhores times da Superliga.


P. - Você trabalhou na Turquia com o Fenerbahçe, um clube de massa. Como é a estrutura deles, estão em nível mais alto no trato com os esportes?

ZR - Acho que foi uma das melhores experiências que eu tive. Nossos torcedores eram os torcedores do futebol, tínhamos ginásio sempre lotado. Lembro que, quando ganhamos a Champions League, chegamos de Baku, no Azerbaijão, e ficamos duas horas e meia sem conseguir sair do aeroporto. Isso com um time de vôlei feminino!

Claro, o título da Champions era importante, ninguém no clube tinha vencido um título europeu, mas foi uma loucura, marcou a minha vida. É o que a gente espera aqui. Quando o torcedor do São Paulo vê que luta, que corre atrás e que tenta, ele sempre dá força. Então é isso que eu espero e é disso que a gente precisa correr atrás.


P. - Neste ciclo para a Olimpíada de Tóquio você conviveu com recusa de atletas às convocações e muitas lesões. Isso atrapalhou até aqui na preparação?

ZR - Foi o ciclo mais difícil de todos os ciclos em que eu já participei. Nós nunca conseguimos ter o time inteiro, completo, em função de lesão ou de problemas pessoais. Então o resultado em alguns campeonatos ficou comprometido. Mas é o meu grande sonho, conseguir, para os Jogos Olímpicos, deixar todo muito bem, em forma. E rezar para que os deuses do universo conspirem a nosso favor, porque até agora nós sempre corremos na subida e isso foi muito difícil.

As jogadoras que pediram dispensa, eu sabia que pediriam dispensa, mas não podia deixar de convocá-las em função do que tinham apresentado na Superliga. Mudamos o time, novas jogadoras apareceram com boas performances e isso foi bom de uma certa forma, porque abriu o leque. Ainda acho que precisamos estar abertos para o surgimento de novas jogadoras que possam aparecer na Superliga. Nós vamos ter a Liga das Nações, que é o torneio que antecede os Jogos Olímpicos, então tudo pode acontecer. A convocação não está fechada, o planejamento sim.


P. - Você já disse que Tóquio será sua última Olimpíada. Sente-se de alguma forma pressionado por conseguir o ouro ou uma medalha?

ZR - Eu sempre sou pressionado por mim mesmo. Eu fico muito triste [quando não ganho], é o sentimento de que a missão não foi cumprida. Porque a gente treina muito, batalha muito, para que tudo saia da melhor maneira possível. Quando a gente não conquista o pódio, a gente já vai logo para o fracasso. Não queremos fracasso, queremos construir, deixar um legado para as outras gerações, e o legado é pódio. A medalha de ouro é uma consequência de tudo dar certo. Mas, se conseguirmos um pódio em Tóquio, já vai ser uma coisa muito importante. É para isso que a gente vai trabalhar.

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