Quem será o próximo Wilson Witzel no Brasil de Bolsonaro?

Matheus Pichonelli
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Rio de Janeiro's Governor Wilson Witzel (L) and Brazilian President Jair Bolsonaro attend the ceremony marking the assembly of the parts of Brazil's new Navy submarine Humaita (SBR-2), at the Itaguai Navy Complex in Rio de Janeiro, Brazil, on October 11, 2019. (Photo by MAURO PIMENTEL / AFP) (Photo by MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images)
Wilson Witzel e Jair Bolsonaro durante evento em outubro de 2019. Foto: Mauro Pimentel/AFP via Getty Images

Menos Brasília, mais Brasil.

O slogan de campanha de Jair Bolsonaro é uma das muitas promessas que se esborracharam na primeira esquina do Brasil real.

Uma série de percalços, acelerados pela pandemia do novo coronavírus, tem reforçado a centralidade do governo federal na condução do país, a começar pela repaginação de programas de transferência de renda -- que têm potencial para aditivar os planos para a reeleição.

A inversão do discurso coloca em xeque o espírito do liberalismo que baixou no corpo de Bolsonaro para convencer o mercado de que ele era a melhor opção para enxugar a estrutura do Estado quando chegasse lá. Hoje esse Estado é moeda corrente de quem precisou se alinhar ao Centrão para andar em paz.

Com o baque da crise, teto de gastos e responsabilidade fiscal, se não viraram, estão prestes a virar licença poética.

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Bolsonaro planeja abrir a carteira e inaugurar obras com selo do governo federal Brasil afora, inaugurando assim a corrida para 2022. Quase todas foram herdadas das gestões anteriores, mas o que vale é a foto de quem cruza a linha de chegada.

No fim de semana, o presidente repetiu um roteiro observado quase todos os finais de semana desde o início da pandemia: circulou sem máscaras, provocou aglomeração, acenou para possíveis eleitores durante uma inauguração em Goiás, um cenário diferente da Praça dos Três Poderes, onde costumava afagar apoiadores com faixas golpistas em defesa do fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal até outro dia.

O que chamou a atenção no ato do fim de semana foi o realinhamento com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), que no começo da quarentena rompeu com o presidente dizendo que Bolsonaro não sabia nada de saúde. Cinco meses e 120 mil mortos depois, Caiado agora é só elogios ao capitão, a quem chamou de “homem simples, corajoso e determinado”.

A postura do novo velho aliado coincide com a mudança no discurso de desafetos que já acenam bandeira branca para o presidente. A começar pela pré-candidata do PSL à Prefeitura de São Paulo, Joice Hasselman, atacada nas redes pelos filhos do presidente e que agora mostra as portas abertas da legenda para um possível retorno do capitão.

A fé nas conversões e reconversões pode ser tão perenes quanto a correnteza das águas do rio Jordão, onde Bolsonaro foi batizado em 2016 pelo Pastor Everaldo, chefão de seu antigo partido, o PSC.

No mesmo rio Everaldo batizou Wilson Witzel, governador afastado na última sexta-feira pela canetada de um ministro do Superior Tribunal de Justiça.

O destino tem sido providencial. Witzel era desafeto do presidente desde que assumiu o desejo de concorrer ao Planalto em 2022. Chegou a declarar guerra ao clã e depois ensaiou um recuo estratégico. Era tarde.

Com sua saída de cena, seu substituto, o governador interino Cláudio Castro, ganha tempo para tentar um encontro com Bolsonaro antes de uma decisão final do STJ. Neste encontro, poderá conseguir ou não do presidente a aprovação de um pedido de renovação do Regime de Recuperação Fiscal (RRF) do estado.

Bolsonaro, se tem um bom lugar para mostrar quem é que manda, é o Rio de Janeiro, onde diante das acusações contra o desafeto Witzel, ninguém aposta que haverá manifestações de rua gritando “não vai ter golpe”.

Diz o ditado que não existe almoço grátis, muito menos acordo de recuperação fiscal. Caberá ao futuro governador fluminense escolher em breve quem comandará o Ministério Público do estado até o fim do mandato. É lá que correm as investigações sobre rachadinhas e afins.

A influência no órgão seria a joia da coroa para quem já se movimentou na sucessão do Ministério Público Federal e também na Polícia Federal, que desde então tem batido na porta de governadores desalinhados com o governo central. Se não forem os bastidores, o destino tem sido muito bolsonarista desde a sua eleição.

Em sua coluna na Folha de S.Paulo nesta segunda-feira 31, o sociólogo Celso Rocha de Barros mostrou a curiosa coincidência de decisões sincronizadas do mundo da Justiça que só beneficiam Bolsonaro politicamente -- a libertação, para prisão domiciliar, de Fabrício Queiroz e sua esposa, o dossiê contra os antifascistas, a perseguição a colunistas e, agora, o afastamento de Witzel.

Mais que a chave do cofre, o medo de uma possível influência em órgãos que podem destroçar a vida de quem não se alinhou automaticamente ao poder central, mais Brasília do que nunca, pode explicar a mudança de postura e as flores que o presidente, antes um alvo fácil de gestores municipais e estaduais, passou a receber. Daqui em diante, o desfecho da trajetória política de Witzel é uma espécie de corda dos condenados em praça pública que serve de exemplo a quem tentar a sorte. Quem quer ser o próximo?