Wilson Witzel e Helder Barbalho: "nova" e velha política na mira da polícia

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O governador do Rio, Wilson Witzel. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters
O governador do Rio, Wilson Witzel. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Por mais estranho que seja o timing das operações da Polícia Federal, em menos de um mês, contra dois críticos ferrenhos do governo federal logo após as mudanças ensaiadas (e realizadas) por Jair Bolsonaro  no comando da corporação, são graves as suspeitas levantadas contra os governadores Wilson Witzel (PSC-RJ) e Helder Barbalho (MDB-PA).

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Ambos foram alvo de ações policiais, embasadas pela Procuradoria Geral da República e autorizadas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que miram possíveis maracutaias em compras de equipamentos no combate à pandemia -- um pecado duplamente mortal em um momento em que os gestores não poderiam errar.

Em sua defesa, o governador paraense pode dizer que o valor destinado para a compra de respiradores da China, o ponto nevrálgico da ação da PF, ao menos foi restituído aos cofres públicos. 

Estima-se que a encomenda tenha custado R$ 50,4 milhões e que metade do valor se destinou a uma empresa única empresa. Tudo sem licitação, para atender à urgência da pandemia, e com suspeita de superfaturamento.

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Com quase 60 mil casos confirmados de coronavírus e 3,8 mil mortes, o estado deveria receber na metade de abril 400 ventiladores pulmonares e 1.600 bombas de infusão. O material chegou apenas em maio, e com menos da metade dos respiradores comprados. Nenhum funcionava.

Segundo o governador, o valor da compra já foi restituído.

A polícia suspeita que a escolha da empresa teve as digitais do governador. A intermediação entre foi feita por um empresário amigo que foi preso numa primeira fase da apuração, no começo de maio. Em uma mensagem de 23 de abril, o governador reclamou com ele pela demora na entrega. “Vc está ganhando uma fortuna”, escreveu.

Secretário da Saúde no Pará, o presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass), Alberto Beltrame, outro crítico da relação do governo federal com os estados, também foi alvo da ação. Na casa de seu secretário-adjunto, Peter Cassol, a PF apreendeu R$ 750 mil em espécie, segundo o G1.

No mesmo dia foi aberto no Rio o processo de impeachment contra Wilson Witzel, alvo de outra ação da PF, que em maio cumpriu mandados em sua residência oficial e particular para apurar possíveis desvios ligados ao Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde (Iabas) para a construção de hospitais de campanha no estado.

Um dos pontos da investigação é a contratação do escritório de advocacia da primeira-dama, Helena Witzel, que recebia R$ 15 mil mensais de uma empresa ligada ao empresário Mário Peixoto. Pivô de outra apuração, Peixoto é dono de empresas com contratos para prestação de mão de obra terceirizada com o governo estadual desde a gestão de Sérgio Cabral.

Barbalho e Witzel são representantes de dois fenômenos conhecidos da política brasileira.

O primeiro é herdeiro de Jader Barbalho, senador do MDB que começou a carreira política como vereador em 1967, foi ministro do governo Sarney,  governou o Pará em duas ocasiões, presidiu o Senado e esteve no centro do escândalo da Sudam e do Banpará. (Uma das suspeitas é que sua mulher recebeu recursos públicos para o projeto para criação de rãs; o ranário era fantasma).

Já o ex-juiz Wilson Witel era o representante da “nova política” das últimas eleições. 

Papagaio de pirata na cena em que dois candidatos aliados rasgaram uma placa em homenagem a Marielle Franco antes de se elegerem, ele pegou carona na onda bolsonarista e prometia ser implacável contra o crime e a corrupção. Ele ganhou notoriedade dizendo que, em sua gestão, a polícia poderia mirar na “cabecinha” de suspeitos e atirar e ao celebrar como um gol o tiro certeiro de um sniper contra um criminoso que sequestrara um ônibus no Rio. Também entrou no anedotário desfilando com a faixa de governador por onde ia, ajoelhado com a camisa do Flamengo em dias de jogos e fazendo flexões mambembes em encontros com militares.

Na crise da Covi-19, ele pediu desculpas pelo apoio a Bolsonaro, com quem rompeu de vez por uma suspeita mútua de perseguição policial/política. Ao fim da operação da PF em sua residência, disse que não abaixaria a cabeça para o “fascismo que está se instalando no país”.

“Não permitirei que esse presidente que ajudei a eleger se torne mais um ditador na América Latina”, disse o governador, segundo quem o filho do presidente, senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), deveria estar preso “com todas as provas que já temos contra ele”.

No começo da semana, Witzel baixou o tom e prometeu refazer as pontes com o governo, de quem agora depende para conseguir recursos e tirar o estado de um colapso fiscal que se anuncia. Foi ignorado.

Na quarta-feira (10), o pedido de impeachment contra ele foi aprovado na Assembleia Legislativa do Rio por 69 votos a 0. Até mesmo correligionários do seu PSC votaram pelo andamento do processo. Sem dinheiro, sem apoio e sem aliados, o governador que prometia alvejar o crime organizado parece não ter armas para se defender.

Seu destino está nas mãos de deputados igualmente enroscados na Justiça no estado onde cinco ex-governadores, assim como os conselheiros do Tribunal de Contas, foram ou estão presos. Mas esta é outra história. Ou não.

Até agora, quase 7 mil pessoas já morreram por coronavírus no estado.

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