Whindersson Nunes e Maria Lina: quem tem medo dos mamilos femininos?

Marcela De Mingo
·5 minuto de leitura
A foto publicada por Whindersson Nunes recebeu uma série de comentários machistas por conta da escolha de Maria de não usar sutiã (Foto: Instagram / Whindersson Nunes)
A foto publicada por Whindersson Nunes recebeu uma série de comentários machistas por conta da escolha de Maria de não usar sutiã (Foto: Instagram / Whindersson Nunes)

Muitos anos atrás, Bella Hadid saiu pelas ruas de Nova York, certo dia, com uma blusa preta super transparente. Até aí, o look, em si, não tinha nada de mais. A questão que chamou a atenção dos principais tablóides mundo afora é que ela estava sem sutiã, e seus mamilos ficavam completamente à mostra. O visual, no fim, era uma forma de Bella mostrar o seu apoio ao movimento Free The Nipple, que tinha como objetivo tirar o tabu sobre os seios femininos. A lição, aparentemente, não foi aprendida, pois em uma foto publicada por Whindersson Nunes essa semana ficou claro que a objetificação do corpo da mulher continua tão em alta quanto em 2016.

O comediante postou no Instagram para mostrar a evolução da gravidez de Maria Lina, que espera o primeiro bebê do casal. O foco de muitos dos comentários, no entanto, não foi a alegria do casal, a evolução da gestação de Maria ou a expectativa pela chegada da criança - mas o look, o corpo e, principalmente, os mamilos da jovem, que não usou sutiã com o vestido verde que exibe nas fotos.

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Os comentários foram dos mais variados, desde críticas sobre a suposta "vulgaridade" do visual, até os totalmente ofensivos, objetivando completamente Maria por conta do seu corpo, seios e o vestido justo que usava - um usuário teve a infeliz ideia de comparar Maria à ex do comediante, Luiza Sonza. Não à toa, o próprio Whindersson decidiu responder a um dos comentários dizendo que falas como aquelas eram o motivo pelo qual Maria, provavelmente, não conseguiria amamentar em público em paz.

Antes esse fosse um caso pontual. Mas a questão dos mamilos femininos é algo que permeia as redes sociais há muito tempo. O exemplo mais prático disso é que fotos de homens sem camisa (Whindersson tem várias publicadas em seu perfil, por sinal), não apresentam qualquer problema ou ameaça. Agora, os mamilos femininos são sempre censurados pelas redes sociais, que considera essa uma violação das suas condições de uso.

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Free The Nipple, Machismo, Amamentação e Objetificação

E o que isso nos diz? Que há uma diferença na percepção dos corpos masculinos e femininos. A resposta do comediante a um usuário faz sentido porque mostra exatamente a prática dessa diferença perceptiva. Enquanto um homem pode andar na rua e postar fotos sem camisa tranquilamente, para a mulher é diferente: aparecer sem blusa ou sem sutiã é uma forma de "provocação", é visto como algo sexual - e essa visão é o resultado de uma história de sexualização dos corpos das mulheres.

A questão da amamentação acaba sendo polêmica por causa disso. Já vimos inúmeros casos de mulheres que foram abordadas enquanto amamentavam suas crianças em público por pessoas incomodadas pelo ato - como se elas mesmas nunca tivessem sido amamentadas um dia. A questão é tão séria que existe uma lei garantindo o direito da mulher de amamentar em locais públicos, é a lei n.8069, de julho de 1990. Isso não significa que as mães estão livres dos olhares julgadores da sociedade.

Mas fomos muito à frente na história. O que vemos no dia a dia é uma prática do pensamento machista, que divide mulheres em putas e puritanas inclusive de acordo com o tipo de roupas que usam, como se isso comprovasse algo a respeito de seu caráter e de suas capacidades - é a tal objetificação, a mulher é vista como um objeto a ser possuído pelo homem, analisada segundo parâmetros quantitativos e qualitativos que determinam se ela é boa ou não para um relacionamento amoroso.

O uso do sutiã é um dos pontos usados para essa qualificação, assim como o abuso ou não de decotes, comprimentos curtos e roupas que evidenciam muito ou não o corpo. Aliás, é importante deixar claro que o movimento Free The Nipple é muito bonito quando se fala em mulheres magras e com seios pequenos, mas não necessariamente abolir os sutiãs do guarda-roupa é o ideal para todas as mulheres ou um sinal completo de quebra de padrões. A luta é muito maior do que isso e há questões anatômicas que, sim, exigem o uso de algum tipo de suporte para evitar problemas de coluna, por exemplo. O objetivo da campanha, aliás, nem é falar sobre o uso da peça especificamente, mas contestar essa diferença de percepção.

De qualquer maneira, a escolha de usar ou não do sutiã é puramente da mulher, assim como a sua escolha de roupa - e não há nada a ser dito sobre isso, por ninguém, que não caia no âmbito do machismo. Quanto à amamentação, as necessidades a serem consideradas são da criança e, se ela sente fome enquanto a mãe está em um espaço público, a amamentação é obrigatória - isso, sem considerar a importância de um momento tão essencial para o desenvolvimento dos laços afetivos desse bebê.

Dizem que "a mulher não tem um segundo de descanso", e esse parece ser o caso mesmo, quando até uma imagem comemorativa vira alvo de comentários machistas. Afinal, a pergunta que fica é: quem tem medo do mamilo feminino? Aparentemente - e se vale de amostragem -, todo homem que acompanha a vida de Whindersson Nunes.