Vulcão e Klopp construíram caminho para Lewandowski ser melhor do mundo

BRUNO RODRIGUES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em abril de 2010, as diretorias de Blackburn e Lech Poznán já haviam acordado o valor para a transferência de Robert Lewandowski: cerca de 4 milhões de libras (R$ 27 milhões na cotação atual). Para confirmar o acerto, o atacante queria conhecer as instalações do clube inglês antes de assinar o contrato. A erupção em março do vulcão islandês Eyjafjallajokull, no entanto, atrapalhou a transação. Aeroportos de toda a Europa -incluindo o de Heathrow, em Londres- tiveram voos cancelados em razão das nuvens de cinzas que se espalharam pelo continente. Lewandowski, então, precisou esperar mais um pouco. Quem aproveitou o incidente vulcânico foi Jürgen Klopp, na época técnico do Borussia Dortmund, que tinha observado o jogador ao longo da temporada 2009/2010 e, após a negociação frustrada com o Blackburn, deu o aval para que o clube alemão fechasse a contratação do centroavante. O vínculo com o Dortmund, assinado em junho de 2010, foi o passo determinante para que Robert Lewandowski se apresentasse ao primeiro escalão do futebol europeu, o início da trajetória que culminou no prêmio de melhor jogador do mundo da Fifa, conquistado nesta quinta-feira (17). Aos 32 anos, o polonês se junta ao croata Luka Modric como os únicos atletas capazes de interromper o domínio quase absoluto de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo nos últimos anos. Dos 13 troféus de melhor do planeta entregues pela Fifa desde 2008, quando Ronaldo conquistou o seu primeiro, 11 foram divididos entre a dupla -Messi com seis prêmios, e o português com cinco. Não fosse o vulcão e a insistência de Klopp por sua contratação quando ainda era um desconhecido, Lewandowski talvez tivesse assistido à premiação da Fifa desta quinta como mais um espectador, e não como um candidato a vencê-la. "O gasto de 4,25 milhões de euros era tão significativo [para o Dortmund] que Lewandowski foi observado umas 30 vezes. O próprio Klopp viajou até a Polônia para dar uma olhada no atacante, disfarçando-se com um moletom e um boné", escreveu Raphael Honingstein em biografia do treinador alemão. O polonês, porém, demorou para se adaptar ao futebol do país. Em sua primeira temporada na Alemanha, anotou apenas oito gols em 33 apresentações no título da Bundesliga, quase sempre como reserva do argentino-paraguaio Lucas Barrios, que depois jogaria no Palmeiras e no Grêmio. Ciente da dificuldade de adaptação do atleta, Jürgen Klopp teve uma conversa de quase duas horas com o polonês para dizer o que pretendia dele dentro da ideia de jogo, mas também para ouvir de as impressões de Lewandowski. "Depois dessa conversa tudo funcionou melhor. Ganhamos o jogo seguinte do Augsburg por 4 a 0, eu marquei um hat-trick e dei uma assistência", disse o atacante, anos depois. "O que eu aprendi dele [Klopp] foi acreditar que eu poderia jogar no nível mais alto. Me fez perceber que eu tinha mais potencial do que imaginava." Logo na edição seguinte do Campeonato Alemão, Lewandowski mostrou suas credenciais. Na campanha do bicampeonato nacional, ele marcou 22 gols e distribuiu 10 assistências em 34 partidas. Além da artilharia, servir os companheiros passou a formar parte de seu repertório. Lewandowski ajudou o Dortmund a alcançar a final da Champions League na temporada 2012/2013, na qual o time foi vice-campeão diante do rival Bayern. Após mais uma última temporada com Klopp no Borussia, Lewandowski se transferiu em 2014 para o clube bávaro. Em Munique, o polonês teria a oportunidade de trabalhar com outro treinador decisivo no seu desenvolvimento técnico e tático: Pep Guardiola. "Ele é o jogador mais profissional com quem já trabalhei. Pensa 24 horas por dia na comida adequada, no descanso, no treinamento. Ele está sempre presente, nunca lesionado, porque foca essas coisas", afirmou o catalão em 2016. Guardiola levou as mãos à cabeça quando viu o centroavante anotar cinco gols em nove minutos na vitória por 5 a 1 sobre o Wolfsburg, de virada, na edição 2015/2016 da Bundesliga. Os bávaros perdiam por 1 a 0 quando Lewandowski, que entrou no intervalo, iniciou o bombardeio. Entre os minutos 6 e 15 do segundo tempo, foram nove toques na bola, seis chutes na meta do goleiro Benaglio e cinco gols marcados. O outro chute ainda bateu na trave. A jornada espetacular contra o Wolfsburg há quatro anos ilustra a capacidade de Robert Lewandowski de balançar as redes adversárias e como seu jogo no Bayern ficou ainda mais letal. Desde que chegou ao clube, em 2014, ele anotou 262 gols em 305 jogos (média de 0,86 gol por jogo), além de 62 assistências. Só na última temporada, foram 55 em 47 apresentações, média superior a um por partida. Apesar do título da Bundesliga, o seu sexto com a equipe alemã, foi o destaque no cenário internacional que credenciou Lewandowski ao prêmio da Fifa. Na Champions League conquistada no último mês de agosto pelo Bayern, o atacante terminou como artilheiro da competição, com 15 gols. Distribuiu também seis assistências e viu os dois maiores jogadores do planeta, Messi e Cristiano Ronaldo, terem desempenho apenas regular no torneio. A taça em Lisboa, diante do Paris Saint-Germain, foi a coroação do crescimento daquele polonês desconhecido e receoso quanto ao próprio talento de dez anos atrás. Hoje, não há dúvidas: Robert Lewandowski é o melhor jogador do mundo em 2020. * VEJA TODOS OS GANHADORES DO FIFA THE BEST Melhor jogador do mundo Robert Lewandowski, Bayern de Munique (ALE) Melhor jogadora do mundo Lucy Bronze, Manchester City (ING) Melhor goleiro Manuel Neuer, Bayern de Munique (ALE) Melhor goleira Sarah Bouhaddi, Lyon (FRA) Melhor técnico do futebol masculino Jürgen Klopp, Liverpool (ING) Melhor técnica do futebol feminino Sarina Wiegman, seleção inglesa Prêmio Puskás Son Heung-min, Tottenham (ING) Fifa Fan Award Marivaldo Francisco da Silva, torcedor do Sport Time feminino ideal da FifPro Christiane Endler, Lucy Bronze, Wendie Renard, Millie Bright, Delphine Cascarino, Barbara Bonansea, Veronica Boquete, Megan Rapinoe, Pernille Harder, Vivianne Miedema e Tobin Heath Time masculino ideal da FifPro Alisson Becker, Trent Alexander-Arnold, Sergio Ramos, Virgil van Dijk, Alphonso Davies, Kevin de Bruyne, Thiago Alcantara, Joshua Kimmich, Lionel Messi, Robert Lewandowski e Cristiano Ronaldo