'Vou trabalhar todos os dias, com ou sem coronavírus': o drama dos ambulantes em meio à pandemia

Yahoo Notícias
Klebson à espera dos clientes (Everton Menezes/Yahoo Notícias)
Klebson à espera dos clientes (Everton Menezes/Yahoo Notícias)

Por Everton Menezes

Como de costume, Klebson Ferreira, de 23 anos, chegou cedo ao terminal de ônibus da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. Por volta das 7h, ele parou numa das esquinas da rua da Várzea e montou a barraca, onde vende, há três anos, balas, doces e salgados. Mas essa terça-feira (24) não foi um dia fácil, nem para o rapaz nem para quem depende do comércio ambulante. 

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

O primeiro dia da quarentena de 15 dias, decretada pelo Governo de São Paulo, proibiu a abertura de estabelecimentos comerciais e recomendou que a população evitasse sair às ruas. O decreto é uma forma de conter o avanço do novo coronavírus no estado. A região do terminal rodoviário, habituada ao vaivém de passageiros e motoristas, estava praticamente deserta. “Tá muito difícil. Eu não sei o que vou fazer se ninguém comprar meus produtos. Não vendi nada, até agora”, contou Ferreira. Em dias normais, Klebson costumava ganhar cerca de R$ 300. Mas na última segunda-feira (23), durante as 12 horas de trabalho, o ambulante vendeu apenas R$ 50 em produtos. “Voltei para casa desanimado. O que a gente faz com esse dinheiro? Tive que comprar o pão e o leite das crianças. Elas estão em primeiro lugar. Não podem morrer de fome”, afirmou o jovem que divide uma casa de dois cômodos, na Barra Funda, com a irmã e dois sobrinhos, de 10 e 12 anos.

Leia também

Em 2017, Klebson deixou Juripiranga, no interior da Paraíba, para tentar a vida em São Paulo. O rapaz lembra da infância difícil no Nordeste. “Muitas vezes, eu não tinha o que comer. Minha mãe era doméstica e tinha que cuidar dos cinco filhos, sozinha. Estou preocupado com o que pode acontecer comigo e minha família durante toda essa crise. Não quero mais passar fome”, afirmou. O garoto luta para encontrar outras alternativas, mas não vê uma saída. “Espero não ter de pedir esmola na rua. Seria o fim da minha dignidade. É claro que eu tenho medo de tudo isso, mas preciso vencer esse monstro e tentar vender alguma coisa, nem que seja um único chocolate”.  

Durante a entrevista, uma pessoa se aproximou da barraca, comprou um maço de cigarro, no valor de R$ 5, e um saco de pipoca, a R$ 1. “Viu só como tá a situação? Em três horas que eu estou aqui, ganhei apenas R$ 6. Tive um lucro só de R$ 2. Não consigo nem comprar uma marmita para o almoço. Vou ficar no prejuízo”, disse. 

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

A situação está tão difícil que o ambulante não rejeita nem aqueles fregueses indesejáveis. Já passava das 11h, quando dois moradores de rua tentaram comprar um cigarro. 

- Quanto tá um palito? 

- R$ 0,50

- Tá muito caro. Esquece!

- Ei, volta aqui. Faço dois por R$0,50. 

- Aí, sim, irmão! Obrigado.  

O diálogo rápido revela como serão os próximos dias de Ferreira. Sem cliente para vender seus produtos, o jeito vai ser diminuir o preço para esse outro público – geralmente usuários de drogas na região. “Estou vendendo tudo. Não posso rejeitar nada”, declarou. Klebson já pensa no pior. A barraca tem cerca de 200 produtos, entre chocolates, biscoitos, bolachas, pipocas, salgadinhos, chicletes e cigarros. Se não forem vendidos, vão estragar rapidamente.  Pergunto se ele tem esperança em dias melhores e Klebson responde: “quando a esperança voltar eu já estarei falido”. 

Para o psicanalista Francisco Rodrigues Alves, do Departamento de Psicologia da Universidade de São Paulo, em qualquer situação de crise, haverá pessoas que vão reagir com pânico e outras que serão mais resilientes. Segundo ele, esses trabalhadores informais estão mais vulneráveis aos estragos da pandemia do coronavírus. “Eles estão desprotegidos de um sistema que não lhes garante nenhuma cobertura, como a concessão de crédito, por exemplo. Esse efeito gera um elevado nível de estresse e, com isso, a imunidade desse indivíduo cai”, afirmou. 

Em termos clínicos, Alves faz um alerta: “todo esse estresse gera uma ansiedade. Você acaba submetendo o corpo a um nível maior de desgaste. Geralmente, esse grupo não tem acesso ao tratamento de saúde mental e a grande maioria, quando entra em apuro, vai recorrer ao uso de drogas e álcool”.  Além disso, começam a surgir outros sentimentos, como tristeza, raiva e revolta. O psicanalista ressalta, ainda, que é preciso ter muito cuidado com a impotência dessa população. “É um comportamento extremamente de risco. É aquela pessoa que não tem noção alguma do que está acontecendo e do que está por vir. É muito comum esse cidadão cair em depressão e, às vezes, cometer suicídio”, informou.  

Vou trabalhar todos os dias, com ou sem coronavírus

Aos 42 anos de idade, João da Silva nunca viu uma crise como essa. Trabalhador autônomo, ganha a vida vendendo água, refrigerantes e produtos eletrônicos em frente ao terminal rodoviário da Barra Funda. O pernambucano, de Timbaúba, não esconde a frustração por não vender seus produtos. Demonstra irritação ao falar do decreto de quarentena e – com certo tom de revolta - diz que que não vai ficar em casa. “Eu não tenho medo do coronavírus. Isso é uma invenção. É uma histeria. Não há necessidade de fechar o comércio. Por que? Querem destruir a nossa economia”, afirmou. 

João da Silva está preocupado com a situação (Everton Menezes/Yahoo Notícias)
João da Silva está preocupado com a situação (Everton Menezes/Yahoo Notícias)

Antes da pandemia, João tirava, por dia, cerca de R$ 400 com a venda dos produtos. Mas, nessa terça-feira (24), perdeu a paciência ao esperar mais de cinco horas e ver que toda a mercadoria estava lá, do mesmo jeito que deixou. “Eu vou insistir. Vou trabalhar todos os dias, com ou sem coronavírus. Preciso pagar as contas: luz, água e aluguel”, comentou.   

O economista e pesquisador da Fipe/USP, Paulo Tafner, informa que os impactos dessa crise serão devastadores para todos os setores. “Todos nós vamos sofrer. É claro que a situação de quem vive na informalidade é desesperadora, mas precisamos ter consciência do que é essa crise. Ela é real. Empresas vão quebrar, trabalhadores ficarão sem emprego ”, assegura.

De acordo com o último levantamento da PNAD Contínua, entre outubro e dezembro de 2019, havia, no país, 11,6 milhões de desempregados. A população subutilizada - que reúne os subocupados (disponíveis para trabalhar mais horas), os desalentados (que desistiram de buscar emprego) e uma parcela que não consegue procurar trabalho por motivos diversos – era de 26,2 milhões no mesmo trimestre. Para reduzir os impactos da crise, Tafner acredita que o Governo precisa criar medidas emergenciais, como por exemplo, fazer uma transferência de renda por, no mínimo, seis meses a essa população. “O ideal é que o Governo libere recursos para os beneficiários do Bolsa Família e para quem estiver registrado no programa social Cadastro Único, que beneficia famílias de baixa renda”, informou. O valor ainda está em discussão, mas para o economista pode amenizar o problema. “Está longe de resolver, mas, ao menos, essas pessoas vão poder comer”, pontuou. 

Em razão da crise, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou, nessa terça-feira, que não vai suspender os cortes no fornecimento de energia elétrica para quem não conseguir pagar a conta. A decisão vale por 90 dias e pode ser alterada. 

João da Silva conta que fez uma reserva, mas que não é o suficiente para bancar a família por um mês. “Eu não estou conseguindo dormir, preciso de uma ajuda. Como vou sair dessa?”, questiona. O psicanalista Francisco Rodrigues Alves, do Departamento de Psicologia da Universidade de São Paulo, afirma que essas pessoas estão psicologicamente revoltadas. “Elas percebem que estão desprotegidas, que não há ninguém a favor delas. Não há como viver dessa forma, sem garantias. Chega uma hora em que ela explode”, conta.  

Alves acrescenta, ainda, ser importante falar da interdependência nesses tempos de crise. “Saber que todos – independentemente de classe social – estão no mesmo barco. Não adianta eu ter álcool em gel na minha casa se tem alguém na rua que não tem nem lugar para lavar as mãos. Chegou a hora de olharmos para o outro. Somos interdependentes. Precisamos ser solidários”, pede o psicanalista. 

“O meu sonho virou pesadelo” 

Faltavam vinte minutos para as dez da noite e o jovem Amado Guice não escondia a decepção de voltar para a casa sem ter vendido nada. Absolutamente, nada. O ambulante, de 23 anos, passou a terça-feira (23) em frente à estação de metrô Anhangabaú, na região central de São Paulo, na esperança de vender a mercadoria: roupas esportivas. Estendeu uma lona azul no chão e organizou as bermudas, por cores. “Eu deixo tudo direitinho para o pessoal ver e querer comprar. É tudo roupa de marca. Todo jovem quer uma. Mas, infelizmente, ninguém apareceu”, lamentou o vendedor, que ficou das 10h às 22h sem ver um cliente.

O angolano Guice não vendeu nada nas 12 horas de expediente (Everton Menezes/Yahoo Notícias)
O angolano Guice não vendeu nada nas 12 horas de expediente (Everton Menezes/Yahoo Notícias)

Em dias normais, Amado costumava ganhar cerca de R$ 200 com a venda de 10 bermudas. Com o dinheiro, pagava o aluguel de um quarto, no bairro da Bela Vista, e – de sobra – mandava uma quantia para a mulher e os três filhos, que moram em Angola, na África.  “Como eu vou pagar minhas contas? E agora? Não sei o que fazer. O meu sonho virou pesadelo”, disse o rapaz, que preferiu passar o dia sem comer para não gastar dinheiro. Ao ser perguntado se não sente fome, ele responde: “nem eu sei de onde eu tiro força. Melhor não comer hoje para comer amanhã. E eu sei lá o que vai acontecer”. 

Há três anos, quando decidiu deixar a família em busca de oportunidades do outro lado do Atlântico, Amado sabia que não seria fácil. Negro, pobre e estrangeiro, o angolano teve de enfrentar muitos medos no país desconhecido. Deu de cara com a solidão. Foi vítima de racismo e xenofobia. Com o pouco dinheiro que lhe restava, comprou bermudas no comércio popular da cidade e passou a revendê-las. “Deu certo! Eu tinha esperança de visitar meus filhos em breve. Mas com essa história do Coronavírus, tudo piorou. Nem voltar para o meu país eu posso mais. As fronteiras estão fechadas”, contou. 

E Guice tem razão. O novo coronavírus afetou não só a vida dele como a de todo o planeta.  De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a pandemia representa a maior ameaça à economia global desde a crise financeira de 2008. Aqui, no Brasil, os reflexos da crise já são sentidos em todas as esferas econômicas. Especialistas não descartam uma depressão severa no país, com o aumento do desemprego e retração do PIB. “Nem preciso entender muito de economia para saber que eu estou ferrado. Sem o meu negócio não consigo viver. Tem pessoas que dependem de mim. Estou desesperado”, afirma ele com os olhos cheios d’água. São dez da noite, fim de expediente. Guice recolhe as roupas do chão, as coloca dentro do caixote e vai embora com a esperança desse pesadelo acabar. 

Siga o Yahoo Notícias no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentário.

Leia também