Volare Cantare, por Carter 'essediafoilouco'

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A Itália é campeã de novo. O título da Eurocopa chega no ápice de valorização do torneio que é praticamente uma Copa do Mundo sem Brasil, Uruguai e Argentina.

Antes do jogo começar - não sei dizer o motivo - eu já nutria um sentimento de que a decisão seria nos pênaltis.

Chiellini comemorando com a torcida italiana | FABIO FRUSTACI/Getty Images
Chiellini comemorando com a torcida italiana | FABIO FRUSTACI/Getty Images

Não contentes em infligir sofrimento ao seu próprio torcedor, as seleções de alguma maneira gostam de fazer isso com requintes de crueldade.

Disputa por pênaltis é uma coisa paradoxal. Em geral é tão fácil marcar um gol de pênalti que a tarefa termina sendo a coisa mais difícil do mundo para quem vai bater. Tão grande é o gol que os caras quase sempre chutam exatamente no lugar em que há um goleiro para defender. Disputa por pênaltis é um tipo de DOR que o torcedor sente.

Se pra eles é sofrido, para todos os demais é ENTRETENIMENTO.

Afinal, a melhor coisa do futebol é a decisão por pênaltis sem envolvimento emocional.

Não apenas é a melhor, como também é a mais democrática, acessível a literalmente qualquer cidadão do mundo.

Fico imaginando como deve ter sido para aqueles italianos da minha geração, que viram a Itália perder a final da Copa do Mundo de 1994.

1994 pra gente é TETRA. Eu até hoje grito "é tetra, é tetra, É TETRA" para celebrar uma conquista. Mas certamente para os italianos 1994 é sinônimo de dor. Tudo que eles conseguem se lembrar de 1994 deve doer. A memória é uma vasta ferida.

Pênalti de Baggio é de doce memória aos brasileiros, mas cruel para os italianos que vivenciaram aquele dia | Ben Radford/Getty Images
Pênalti de Baggio é de doce memória aos brasileiros, mas cruel para os italianos que vivenciaram aquele dia | Ben Radford/Getty Images

"Ah, mas o trauma foi curado em 2006, quando os italianos não erraram uma cobrança sequer contra a França", dirá o leitor mais atento.

Sim, mas uma dor como essa pode passar por um tempo, mas a cura de fato não chega nunca.

Contra a Espanha, na semifinal, Locatelli desperdiçou a primeira cobrança. Nessa hora tenho certeza que o trauma bagginesco voltou com tudo.

No final acabou dando tudo certo e a Itália se classificou para a final.

E no final estava claro que tudo seria decidido nos pênaltis mais uma vez.

A Itália saiu atrás, foi a primeira a perder e depois contou com a sorte e o talento de Donnarumma para ter a chance de definir o título com o especialista Jorginho.

Quando o Jorginho perdeu pênalti é certo que já não tinha mais nenhum torcedor italiano com coragem de olhar para a TV ou para o campo. Acabou ali. O pesadelo de 1994 se instalou no subconsciente coletivo italiano de vez. Eu garanto que nesse momento eles deram tudo por perdido.

Tanto é verdade que o Donnarumma defende a última cobrança do Saka e não tem sequer a ousadia de comemorar.

A comemoração "de gelo" de Donnarumma | LAURENCE GRIFFITHS/Getty Images
A comemoração "de gelo" de Donnarumma | LAURENCE GRIFFITHS/Getty Images

Uma pessoa cujo espírito está faltando não consegue comemorar. Levou um tempo até ele se acostumar com a ideia.

Novamente campeã, voando, cantando, pintando a Europa de Azul. Aliás, já pode ser chamada de favorita para conquistar o Penta no Qatar no ano que vem. Prazer, meu nome é Itália.

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Volare oh, oh

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