CEO do Cruzeiro deixa cargo e pede intervenção judicial na Raposa

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Medioli comentou em uma live no Facebook os motivos que o fez deixar o Cruzeiro- (Reprodução/TV Globo)
Medioli comentou em uma live no Facebook os motivos que o fez deixar o Cruzeiro- (Reprodução/TV Globo)

O Cruzeiro continua sem paz nos bastidores para seguir sua caminhada de reconstrução. Na manhã deste domingo, 5 de janeiro, o torcedor da Raposa acordou com a notícia de que o CEO do clube, o empresário Vittorio Medioli, vai deixar o cargo no conselho gestor do clube.

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O próprio Vittorio fez o comunicado por meio da sua coluna dominical no jornal “O Tempo”, que faz parte de suas empresas. O agora ex-CEO alega que por ser prefeito de Betim, cidade da Grande Belo Horizonte, o impede legalmente de ter outro cargo diretivo.

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Medioli fez duras críticas ao estatuto da Raposa e sugeriu uma intervenção judicial no clube, devido aos desmandos de conselheiros e dirigentes que, segundo o empresário, se aproveitaram do Cruzeiro. O ex-CEO assumiu o cargo no dia 23 de dezembro, tendo como meta organizar as finanças e dar um novo rumo para o Cruzeiro, focando em transformar a Raposa em em clube-empresa.

Vittorio Medioli estava encarregado de buscar soluções para diversos acordos e contratos existentes no Cruzeiro e crê, que somente uma intervenção judicial poderá criar o ambiente propício para que as mudanças necessárias sejam feitas no clube celeste.

RECOMEÇAR DO ZERO

Encerrado o período de recesso e de festas, amanhã voltarei integralmente ao meu lugar de prefeito de Betim, ajudando o Cruzeiro nas horas disponíveis. O CEO do Cruzeiro será outro.

Ficou esclarecido que o estatuto do Cruzeiro me impede de assumir. Aceitei durante 15 dias participar de uma tentativa de resgatar, que me permitiu conhecer a extensão do imbróglio azul e apresentar estratégias e medidas que o verdadeiro CEO, aquele legitimado, poderá usar.

Enfim, não posso e não vou assumir, mas não sumir. Darei tudo que posso e a lei me permite.

Os últimos dias me concederam que, mais que um CEO, exposto à incerteza jurídica do cargo, o Cruzeiro precisa de um interventor amparado pela Justiça e com autoridade para executar o que for preciso. Doa a quem doer. O Cruzeiro, já há longo tempo, está sob investigação da polícia e do Ministério Público.
Um administrador (CEO) de uma “associação sem fins lucrativos” assume responsabilidades indefinidas, questionáveis, arrisca não apenas ser inócuo em seu esforço, como patético em seus propósitos de salvamento.

O estatuto do clube é um conjunto Frankenstein de regras que atendem interesses miúdos, mesquinhos e de dominação de grupos. Não atendem a grandeza e solidez de suas finalidades. Privilegia mais o incompetente que se preste a atender interesses inconfessáveis de um estreito grupo.

A reconstrução do Cruzeiro passa inevitavelmente pela elaboração de um estatuto coerente e alinhado com a realidade. Melhor ainda se o Cruzeiro se transformasse em empresa, aderindo à lei das Sociedades Anônimas (SAs), sem perder a possibilidade de manutenção do Profut (Refis do futebol) e de isenções tributárias. Isso ocorreu na Europa, mas encontra resistência ferrenha e falta de coragem do governo para dar um basta à cartolagem.

Retornando das férias (trabalhadas), creio que se encerraram as reclamações dos munícipes de Betim, as maquiavélicas intrigas políticas, os xingamentos dos adversários tradicionais do Cruzeiro e a alegria de quem me enxergou, por um momento, como um “salvador da pátria azul”. A estes últimos peço compreensão, a lei não me permite. Meu gesto poderia gerar mais instabilidade e problemas ao Cruzeiro.

Continuarei solidário, dando o meu tempo disponível, minha atenção e apoio em todos os sentidos. O vôlei continuará Sada Cruzeiro, ajudarei na manutenção das categorias de base também do futebol e onde possa ser útil com experiência e desprendimento.

Algumas considerações pessoais: se o choque de realidade, que só agora tomou conta do ambiente cruzeirense com a queda para a Série B, tivesse ocorrido três anos atrás, o Cruzeiro teria como se aprumar no momento certo quando o rombo, apesar de enorme e complexo, era a metade de agora. Complicadíssimo em 2017, imensamente longe do reparável em 2020.

A torcida deveria ter sido informada da pré-falência e sobre a necessidade de ajustes, por dolorosos que fossem. Austeridade, inovação, responsabilidade, coragem, honestidade, transparência, adoção de tecnologia de ponta, ousadia. Tudo isso era necessário, mas continuaram com o imediatismo, a incompetência, aumento estúpido e injustificado de gastos e uma agressão aos bens tangíveis e intangíveis do clube. Acelerou-se a derrocada e incinerou-se a governabilidade administrativa.

A farra foi prolongada até o último segundo, deixando o ambiente desertificado. Teve até dirigente demissionário que se atribuiu multa rescisória de R$ 2 milhões, que sacou de imediato na boca do caixa.

As práticas agressivas, irresponsáveis, perdulárias, fraudulentas já eram apontadas por uma consultoria internacional e por uma auditoria, em 2018, que foram interrompidas abruptamente para continuar mais 18 meses na obra de demolição do Cruzeiro.

Alguns conselheiros, dirigentes e um mundo indecifrável de figuras, capazes de qualquer coisa, se descobriu serem donos de passe de atletas, numa intrincada rede de empresas nacionais e estrangeiras que ocultam o verdadeiro titular.

A empresa de consultoria sinalizou que em 2017 o São Paulo ganhou R$ 120 milhões com negociações de seus atletas de base, gastando em formação pouco mais de R$ 30 milhões; lucrou R$ 90 milhões. O Cruzeiro gastou R$ 53 milhões em desenvolvimento e teve receita de R$ 2 milhões, com perda líquida de R$ 51 milhões. Isso é surpreendente.

A Série B, como a vitamina B, faz bem ao crescimento. Curou outros clubes, que retornaram revigorados nas alturas e aprenderam a via certa da sustentabilidade. Outro exemplo de time que entrou nessa via é o Flamengo, que se recriou.

Na outra ponta, a longa agonia do Cruzeiro possibilitou alongar até a última hora as dívidas, os empréstimos extorsivos, as operações inqualificáveis, as sonegações e uma série de imbecilidades em prejuízo do clube. Desvios de materiais, vendas por valores irrisórios de atletas jovens, compra por valores inacreditáveis de jogadores em final de carreira.

Quando era necessário cortar um dedo gangrenado para salvar a mão, nada se fez. No Cruzeiro deixaram gangrenar os dois braços, as duas pernas e até os órgãos reprodutores. Sobrou uma massa em decomposição. Um clube financeiramente aniquilado, enquanto ex-dirigentes esbanjavam saúde e alegria.

Não quero matar a esperança de ninguém, mas alertar que há de se fazer um trabalho enorme de limpeza, enxugamento, restauração da credibilidade e, ainda, político para que leis cabíveis amparem a migração do Cruzeiro para clube-empresa, vinculando-o assim a regras objetivas. Poderá, dessa forma, lançar ações para capitalizar o Cruzeiro, dando ao torcedor e a investidores a possibilidade de participar do seu time e lhe dar sustentabilidade.

O Cruzeiro, assim como a paixão pelo futebol, tem força para mudar as leis e abrir uma via de reconstrução. Estamos aí para ajudar.

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