Vítor Pereira no Flamengo representou alívio para o português e para o Corinthians

Diferentemente dos torcedores, o técnico nunca foi muito amado por jogadores e dirigentes do Timão

Vítor Pereira não era exatamente amado dentro do Corinthians. Foto: Ricardo Moreira/Getty Images
Vítor Pereira não era exatamente amado dentro do Corinthians. Foto: Ricardo Moreira/Getty Images

Cansado de atrasos para treinos de alguns jogadores do Corinthians, Vítor Pereira foi cobrar um deles na reta final da temporada passada, antes da final da Copa do Brasil.

“Quando o clube me pagar em dia, eu chego na hora”, foi a resposta.

Para o técnico português, o episódio exacerbou seu senso de frustração com a situação da equipe. Era um casamento fadado ao fracasso porque boa parte do elenco também não suportava mais os métodos do treinador. A diretoria queria encontrar uma forma de se livrar de Pereira e sua comissão técnica. Em parte, por saber das reclamações dos atletas, mas também pela questão financeira.

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O Corinthians manteve, pela maior parte do ano, os salários em dia na carteira. Mas atrasou várias vezes direitos de imagens, prêmios, bichos e outros penduricalhos associados ao contrato que, no final de tudo, compõem a renda do boleiro.

Pereira queria aumento. Quando assinou com o Corinthians, acertou receber cerca de R$ 1,5 milhão por mês. O prêmio pelo título da Copa do Brasil era de R$ 4 milhões, dinheiro que o clube não teria para pagar em caso de vitória na final diante do Flamengo. Isso fez com que houvesse uma piada interna no Parque São Jorge de que seria um alívio financeiro não ser campeão.

Em viagem pelo Qatar, durante a Copa do Mundo, o ex-presidente corintiano Andrés Sanchez, apoiador do atual mandatário Duilio Monteiro Alves, repetiu a brincadeira, mas em tom mais sério que os demais.

Ele também falou a jornalistas que, no Flamengo, o português receberia “mais de R$ 4 milhões” por mês. Repetiu na frente de Marcos Braz, VP de futebol do clube carioca.

“É menos, é menos”, desconversou o flamenguista, constrangido.

A revolta dos torcedores com a ida de Vítor Pereira para a Gávea foi verdadeira. Principalmente depois dele ter alegado problema de saúde com a sogra para não ficar no Parque São Jorge. Mas para a diretoria corintiana, a notícia, além de esperada, foi recebida com certo alívio. O consenso foi que era preciso um novo começo.

Dias antes do anúncio, Duilio já sabia que o português seria técnico Flamengo. A indignação em frente aos jornalistas teve um componente teatral, de dar uma satisfação à Fiel.

Durante a temporada, o diretor de futebol Roberto de Andrade ouviu reclamações de empresários de jogadores de que faltava tato a Vítor Pereira. Uma das queixas foi que ele não tinha paciência para passar aos jogadores o que queria. Críticas públicas a Róger Guedes também não foram bem recebidas. Ao saber o que falavam, o português respondeu ser técnico de futebol, não pai dos atletas.

Nas conversas com o Corinthians, ele havia manifestado o desejo de ter reforços “mais qualificados” para 2023. Isso quer dizer: mais caros. Apresentou alguns nomes que foram considerados inviáveis pelo clube. Mas depois que foi para o Flamengo, Duilio sondou a possibilidade de contratar um deles: o meia-atacacante Philippe Coutinho.

A avaliação interna no Parque São Jorge é que a rota adotada por Pereira foi a melhor possível para os dirigentes paulistas. Ele poderia falar que o Flamengo tinha um ambição que o Corinthians não demonstrava no mercado e que a troca seria um upgrade na sua carreira. A maioria da torcida ficaria revoltada, mas não tanto quanto a história da doença da sogra, que soou como mentira.

“É normal o treinador ter sua forna de ver o futebol, mas alguns jogadores reclamavam que ele não era aberto ao diálogo, a ouvir opiniões contrárias”, explica empresário de um jogador do ataque corintiano.

Para Vítor Pereira, a situação era oposta. O único jeito de montar uma equipe vencedora seria seguir sua visão. E quando acertou contrato com o Corinthians, o combinado foi que a diretoria seguiria esse plano. Na opinião do português, isso não aconteceu.