CR7 e o pouco incentivo a meninas no futebol

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À primeira vista, o vídeo abaixo mostra uma inocente brincadeira de Cristiano Ronaldo com seu filho Mateo. O craque da Juventus, eleito cinco vezes melhor do mundo pela Fifa, ensina os primeiros chutes ao menino. Uma cena corriqueira e natural, não é mesmo?

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Uma publicação compartilhada por Cristiano Ronaldo (@cristiano) em 5 de Abr, 2019 às 9:38 PDT

Mas um olhar mais atento ao que acontece ao fundo faz da cena uma metáfora da realidade da maioria das meninas que querem jogar futebol. Irmã gêmea de Mateo, Eva Maria imita os movimentos do pai e do irmão para chutar a bola, claramente querendo entrar na brincadeira. Contudo, a menina é completamente ignorada pelo jogador.

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Cristiano Ronaldo simplesmente não vê a filha. O jogador não dá atenção às tentativas da menina de se juntar ao jogo, enquanto se mostra empolgado com os chutes precoces de Mateo. Em nenhum momento ele parece perceber a vontade da menina de também chutar a bola.

Eva Maria, então, desiste e se volta para seus brinquedos, e ironicamente pega uma vassoura. Uma escolha um tanto simbólica, já que uma das principais ofensas ouvidas por mulheres no futebol é que “lugar de mulher é na cozinha, cuidando da casa e dos filhos, e não no campo/arquibancada/etc.”.

A publicação foi feita há dez dias e levantada pela pesquisadora Carmen Rial, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), durante o III Encontro Internacional sobre Futebol Feminino na América do Sul, realizado na última semana no Rio de Janeiro. Nos comentários da postagem, alguns internautas perceberam o ocorrido e chamaram atenção do jogador.

<em>Filha de CR7 quis jogar, mas não recebeu a bola (Reprodução/Instagram)</em>
Filha de CR7 quis jogar, mas não recebeu a bola (Reprodução/Instagram)

“Que pena que as pessoas só veem um menino chutando a bola e não um pai ignorando sua filha, uma filha tão pequena que tenta jogar e nem sequer tem oportunidade”, foi um dos comentários. “Triste exemplo de construção de gênero. A menina atrás querendo jogar e não recebendo a bola é uma metonímia dessa construção. Esse vídeo é o estereótipo da nossa sociedade. Triste.”

“A menina quer jogar”, cutucou Virgínia Torrecilla, jogadora do Montpellier e da seleção espanhola feminina.

Apesar das críticas, Cristiano Ronaldo não se manifestou acerca do vídeo polêmico em que ignora as tentativas de sua filha de jogar futebol. O mais complexo é que Cristiano Ronaldo parece realmente não ver a menina e suas tentativas de receber a bola do pai ao fundo da cena. Quão significativo é que isso ocorra na casa de um dos maiores jogadores da atualidade?

Seguindo a linha da reflexão de Rial, a cena pode ser encarada como uma metáfora da realidade das meninas que buscam jogar futebol – esporte historicamente reservado aos homens, que chegou a ser proibido por lei para elas no Brasil e em outras partes do mundo. Pouco incentivadas pela família e pelos adultos, meninas são invisibilizadas e têm suas tentativas no mundo esportivo ignoradas, o que faz com que elas acreditem que não pertencem àquele espaço. E podem desistir, como fez Eva Maria no vídeo. E assim, ciclicamente, o futebol segue sendo um ambiente majoritariamente masculino.

Possivelmente sem dar-se conta, Cristiano Ronaldo jogou um balde de água fria no entusiasmo de sua filha com o futebol. Que os comentários façam o craque refletir e chamar Eva Maria para jogar junto da próxima vez. E que o vídeo também nos faça pensar sobre as atitudes que reproduzimos e que podem estar desencorajando meninas a verem o esporte como espaço genuinamente delas. 

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