A vida social na Itália do pós-quarentena: a fase do relaxamento

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Itália flexibiliza medidas de isolamento - Foto: Lucas Ferraz
Itália flexibiliza medidas de isolamento - Foto: Lucas Ferraz

Por Lucas Ferraz, de Roma

A nova vida noturna e social na Itália do pós-confinamento tem máscaras e álcool-gel, mas pouca observância às regras determinadas pelas autoridades para a atual fase de convivência com o coronavírus. Seja por parte dos clientes ou dos próprios comerciantes, é grande a dificuldade em respeitar os procedimentos.

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Primeiro país a impor uma quarentena ampla e geral à população e um dos mais afetados pela pandemia na Europa – cerca de 35 mil mortos até o momento –, a Itália completa nesta semana um mês da reabertura gradual após viver dois meses críticos (março e abril), no auge da difusão do vírus. Agora, finalmente, vive-se a fase do relaxamento. 

A retomada dos bares e restaurantes – estes menos frequentados nesses dias – trouxe uma lembrança de como éramos antes da disseminação da Covid-19, e ganhou um impulso com a chegada do verão no hemisfério Norte, que se inicia oficialmente no final deste mês. O calor coincidiu com a flexibilização das medidas de distanciamento e trouxe de novo o fervor às ruas em cidades como Roma, ainda que sem turistas. 

Na reabertura oficial dos bares, no dia 18 de maio, uma segunda-feira, os bairros boêmios da capital italiana estiveram em festa, com abraços coletivos de grupos de amigos – muitos sem máscara – e festas improvisadas que entraram pela noite. 

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A liberalidade vista naquele dia virou rotina, ao menos em Roma: há aglomerações na porta de bares ou mesmo em algumas praças, reunião de amigos e pouco respeito às normas. Teme-se uma eventual nova onda de contágio, como alertada pelas autoridades médicas, mas muitos parecem ter deixado essa preocupação de lado. 

Há uma série de regras estabelecidas pelo comitê técnico-científico do governo italiano que teoricamente deveriam ser observadas: uso obrigatório de máscara quando não estiver sentado na mesa de um bar ou restaurante, veto ao uso de ar-condicionado (um teste para os meses de julho e agosto, quando a umidade de Roma torna-se comparável a Cuiabá), distanciamento de pelo menos um metro entre os clientes, além de privilegiar o uso do espaço externo e, no caso dos restaurantes, a necessidade de fazer reserva. 

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O Calisto, em Trastevere, bairro turístico e boêmio de Roma, é um bar histórico, fundado há mais de 50 anos e frequentado por pessoas de diferentes idades e classes sociais. O estabelecimento já fez ponta em filmes como o premiado “A Grande Beleza”, de Paolo Sorrentino. Ele continua funcionando com as mesas do lado de fora e muitos clientes em pé na rua, que é restrita para pedestres. As poucas mesas que haviam na parte de dentro foram retiradas. 

No último fim de semana, no Calisto, se via a dificuldade em respeitas as regras.  Para retirar a bebida no balcão ou ir ao banheiro, é obrigatório usar máscara, o que geralmente era seguido por todos. Mas nas mesas do lado de fora, as medidas de segurança não eram seguidas. Segundo o gerente do bar, Fabrizio Toto, como as mesas são pequenas, elas poderiam ser usadas por até duas pessoas (para se respeitar a distância de um metro). Mas isso raramente acontece: às vezes são cinco, oito ou até mesmo dez pessoas reunidas em uma só. E elas nem eram higienizadas após a chegada de novos clientes. 

O Calisto foi multado nesse mês por descumprir um decreto da prefeitura de Roma que proíbe durante o verão o consumo de bebidas alcóolicas fora de um bar ou restaurante (ou seja, na rua) após às 23h. Toto conta que as regras para a convivência sob o coronavírus se chocam com as diretrizes do município.

“Como as pessoas não podem ficar dentro ou na área das mesas do lado de fora por causa do distanciamento social, elas acabam bebendo na rua e o bar foi multado. Fica difícil trabalhar e conciliar as duas coisas”, afirma ele, ressaltando a dificuldade em manter os funcionários nestes tempos. Nenhum deles foi cortado, mas todos tiveram redução nos salários. 

Os restaurantes, ao menos os mais sofisticados, trocaram o menu nas mesas pelo acesso ao cardápio por meio do celular. Para os que não dispõe da tecnologia, o próprio garçom anuncia os pratos disponíveis. 

Numa pizzaria de médio padrão que visitei recentemente, as medidas de segurança eram levadas um pouco mais a sério, mas também ali havia um certo relaxamento. Muitos clientes circulavam internamente sem máscara e nenhum funcionário se atreveu a reprová-los. 

Entre as limitações e o medo que imperaram por mais de dois meses e a liberdade recém-adquirida, ainda que permeada por riscos, claramente todos preferem a segunda opção. A disseminação da Covid na Itália neste momento está controlada, o que encoraja o relaxamento. 

Apesar da reabertura, os números da principal associação de produtores italianos, que representa também o setor de bares e restaurantes, mostram perdas consideráveis. Nas primeiras três semanas de reabertura, a queda no faturamento foi de 53%, segundo a Coldiretti, estimando uma queda de pelo menos 1 bilhão de euros na aquisição de comida e bebida pelos bares e restaurantes. 

Espera-se para breve, sobretudo no litoral e nas montanhas italianas, a chegada de turistas europeus, agora autorizados novamente a viajarem pela União Europeia. A dúvida, contudo, persiste: eles virão? 

Ao menos por enquanto, a Itália – um pouco mais relaxada – será exclusivamente para os italianos.

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