Vice-líder na Bundesliga, brasileiro questiona Bayern e aposta em voos altos do RB Leipzig

Por Tauan Ambrosio 

Recentemente, Philipp Lahm disse que o Borussia Dortmund era o grande culpado pela falta de emoção na corrida pelo título da Bundesliga. O capitão do Bayern de Munique, que lidera o Campeonato Alemão com folgas, seguiu adiante: “faltou qualidade para os demais times”.

Único brasileiro do surpreendente RB Leipzig, vice-líder que está a dez pontos atrás dos Bávaros, Bernardo tem uma opinião um pouco parecida, mas que na verdade é uma grande crítica à Bundesliga em si e ao Bayern. Na opinião do zagueiro, filho de um ex-jogador da equipe de Munique, a discrepância em relação aos outros times é o que atrapalha o futebol local.

“Não tem concorrente para o Bayern”, disse, ao concordar que alcançar o time de Munique é impossível. Em Leipzig, Bernardo ganhou asas e sonha com voos mais altos no time da Red Bull. Afinal de contas, o filho do ex-volante Bernardo da Silva [que teve boas passagens em clubes como São Paulo e Vasco] vem trilhando uma carreira impecável dentro dos times patrocinados pela marca de energéticos: passou pelo RB Brasil, conquistou títulos no RB Salzburg e, da Áustria, deu um pulo para defender o único time da antiga Alemanha Oriental a disputar a Bundesliga.

Leipzig, aliás, parece combinar com Bernardo, que foge um pouco da imagem generalizada do boleiro. Na mesma cidade em que o filósofo Friedrich Nietzsche estudou, que Wagner nasceu e fez suas primeiras composições e muitas outras personalidades tiveram destaque, o brasileiro mostra grande interesse pela cultura local e acontecimentos históricos [seja na geopolítica ou no futebol].

Nos campos germânicos, o jovem de 21 anos se impressionou com a rejeição que fez a sua equipe ser considerada ‘a mais odiada da Alemanha’. Tudo isso por causa do apoio da Red Bull, que em 2009 comprou o antigo SSV Markranstädt, rebatizou o clube e trilhou uma ascensão incrível da 5ª divisão até os lugares mais altos da elite futebolística do país. Em entrevista exclusiva, Bernardo falou sobre como é jogar nesta equipe que já fez história, revela a dificuldade que foi marcar Douglas Costa, projeta um crescimento gigante para o seu atual clube e revela o que pensou quando viu torcedores de outros times mostrarem todo o desgosto pela sua equipe.

Você construiu a sua carreira em times que pertencem à Red Bull. Existe algum tipo de plano de carreira para o jogador que tem contrato com uma equipe da RB? É tudo ligado?

“Os clubes são independentes, mas são interligados. A ponte entre Brasil e Áustria é comum, e também ocorre várias vezes entre Áustria e Alemanha. Em todos os meus casos, eu fui negociado, vendido. Não fui de graça, ou alguma coisa, mas o bom relacionamento entre os times, o fato de eles pertencerem a um mesmo patrocinador facilita com que ocorra uma transferência, e desde quando eu estava na Red Bull Brasil eu via essa possibilidade.

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Apesar de ser zagueiro, no Leipzig Bernardo atua na lateral-direita... mas com uma 'pegada' mais defensiva (Foto: Getty Images)

Para mim, o projeto é perfeito. Pela identificação que eu tenho com o clube, pelo futuro promissor que o clube tem... pelo ambiente que eu tenho, a regularidade que eu venho jogando. Acho que não teria motivo para trocar de equipe, principalmente no futebol alemão. É lógico que eu tenho outros objetivos na minha carreira, jogar talvez em clubes mais tradicionais... mas eu me vejo pelo menos nos próximos três, quatro anos, aqui com certeza”.

Até o final do seu contrato [2022] você acha que o Leipzig vai se notabilizar por ser um daqueles times que sempre buscam vaga na Champions League?

“Ah, sim. Eu imagino que sim. Quando eu assinei o contrato, eu imaginava que a primeira e a segunda temporada seriam mais difíceis. Inclusive, eu esperava lutar contra o rebaixamento. Mas vendo o time que a gente tem, a campanha que a gente fez e o nível dos nossos adversários, acho que a gente tem tudo para se estabelecer, no mínimo, como uma potência Top 5 da Alemanha e brigar sempre por uma vaga em uma competição continental”.

Alcançar o Bayern já parece ser impossível. Você concorda?

“Eu concordo. Acho que alcançar o Bayern é praticamente impossível no Campeonato Alemão. É um clube que tem um orçamento muito maior, que tem jogadores muito maiores... o alemão é um povo que eu acho que está acostumado a ver o Bayern ganhar. Se isso acontecesse no Brasil, de ter uma equipe predominante, todo mundo ia questionar.

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Aqui não tem isso, os torcedores aqui estão conformados a verem o Bayern ganhar. Acho que enquanto não houver uma mudança, não sei se é a federação que tem que pressionar ou os próprios dirigentes do Bayern, para ter um futebol mais competitivo... isso vai ser muito difícil, se não for impossível. Porque não tem concorrente para o Bayern. Se tivesse dois, três, quatro concorrentes que pudessem tirar pontos... mas não tem. Então eu acho que, hoje, é uma tarefa impossível”.

E você acha que a curto/médio prazo, o Leipzig pode ser esse antagonista?

“A médio prazo eu acho que sim. É um clube que tem dinheiro, tem estrutura, que aposta sempre em jovens jogadores, que vão se desenvolver e, talvez, vão atingir um nível dos jogadores do Bayern. É um trabalho a longo prazo, mas que é surpreendente pela primeira temporada [na Bundesliga]. O que a gente está fazendo é muito melhor do que a nossa expectativa”.

No jogo contra eles, que você jogou [derrota por 3 a 0], qual foi a grande dificuldade que você encontrou?

“Com certeza foi o Douglas Costa, no meu caso. Acho que todos os jogadores enfrentaram dificuldades, porque os do Bayern realmente são fenomenais. Acho que adotei a tática errada.

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"Eu tomei um baile dele!", disse Bernardo (Foto: Getty Images)

Eu dei muito espaço para ele, sou um jogador rápido, mas ele tem muita explosão, dei espaço para ele correr e a maioria das bolas ele ganhou. Eu também estava voltando de uma cirurgia, então não estava na minha melhor forma. Eu tomei um baile dele (risos), essa é a verdade. E adotei a tática errada na marcação”.

Como você vê esse lance do Leipzig ser o time mais odiado da Alemanha? Isso existe mesmo?

“É o que dizem, né? Bom, por experiência própria, posso dizer que é um clube que tem uma rejeição muito grande. Mas também é um clube que tem bastantes adeptos.

Torcida RB Leipzig Bundesliga 06 04 2017

No estádio com capacidade para 42.959 torcedores, a média do RB Leipzig é de 41.347 por jogo! (Foto: Getty Images)

É um dos clubes mais populares da antiga Alemanha Oriental e vem conquistando fãs, pela maneira como a gente joga, e eu acho que a gente está ajudando a reverter a imagem do clube”.

Antes de um jogo pela Copa da Alemanha teve até torcedor adversário tacando cabeça de touro perto do ônibus de vocês... qual história dessa rejeição que mais te impressionou?

“Esse jogo [contra o Dínamo Dresden] eu não estava ainda. Quando eu estava aqui teve pelo menos dois casos, que nem se comparam a isso. Contra o Bayer Leverkusen teve um ataque ao nosso ônibus, um ataque de balões [bexiga com tinta dentro] e também no jogo contra o Colônia.

Os torcedores do Colônia sentaram na rua, na avenida, e não deixaram o ônibus passar. A gente chegou no estádio faltando 10 minutos para começar o jogo, que atrasou em uns 40 minutos. Em Dortmund [quando torcedores foram agredidos], a gente só viu o que aconteceu no dia seguinte, no jornal”.

E como é a reação dos jogadores quando acontece uma coisa dessas?

“Pra falar a verdade eu acho engraçado (risos). Não tem como se preocupar, não é nada chocante. A cabeça do touro, sim. Foi algo chocante, pela imagem, por ser um animal... mas o da bexiga e sentar na rua, eu vejo mais como um trote do que como algo que seja realmente maldoso. Eu levo na boa, entre aspas. Quando aconteceu eu olhei para o lado e dei uma risada”.

Quem é o defensor no qual você se espelha?

“Quando eu cheguei aqui, me compararam muito ao Luiz Gustavo. Pelo estilo de jogo, pelo porte físico, mas um cara que eu sempre admirei desde pequeno era o Miranda”.