Veteranos técnicos brasileiros lamentam quando o telefone para de tocar

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Rubens Minelli (à esquerda) ao lado de Felipão e Candinho. Foto: Rafael Ribeiro/CBF
Rubens Minelli (à esquerda) ao lado de Felipão e Candinho. Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Rubens Minelli não se lembra exatamente o ano em que aconteceu. Acredita ter sido pouco depois de 1998, após comandar o Coritiba. Um dos técnicos mais relevantes da história do futebol brasileiro, ele perde o raciocínio às vezes. Mas sua lucidez impressiona aos 92 anos.

Há fatos que ele não esquece. Um deles, foi quando o telefone parou de tocar.

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“Eu me recordo que muitas vezes estava empregado e choviam convites de clubes. Mesmo que fosse apenas para perguntar como eu estava no meu time atual, para saber se tinha interesse em trocar. Eu me preparei para isso (quando não fosse procurado mais), mas quando acontece, é difícil”, relembra.

Tricampeão brasileiro nos anos 1970 (1975 e 1976 pelo Internacional e 1977 pelo São Paulo), ele passou quase quatro décadas como um dos profissionais do futebol mais requisitados do país. Até chegar o momento em que seus serviços deixaram de ser solicitados.

“Não sei dizer por que aconteceu. Mas aconteceu. A gente tem de aceitar”, completa.

No universo do futebol brasileiro, principalmente antes da exigência de cursos da CBF, era comum técnicos surgirem de repente e desaparecerem na concorrência do mercado. Sempre houve profissionais disputados e que estavam empregados o ano inteiro. Isso chegava a gerar críticas de que eles faziam um rodízio. Nos times grandes, eram contratados os mesmos nomes.

Até que simplesmente param de ser procurados.

“É uma hora que chega para todo mundo. Para evitar isso, eu tinha decidido me aposentar, também por causa da minha família e da minha saúde. Mas apareceu outra oportunidade e resolvi aceitar”, diz Levir Culpi, 68 anos, que ficou desempregado por mais de um ano, por vontade própria.

Em dezembro de 2019 ele anunciou que se afastaria do futebol. Em janeiro deste ano voltou. Foi convidado para dirigir o Cerezo Osaka, no Japão.

Levir Culpi no Cerezo Osaka neste ano. Foto: Masashi Hara/Getty Images
Levir Culpi no Cerezo Osaka neste ano. Foto: Masashi Hara/Getty Images

A partir de 2021, passou a valer restrição que cada clube da Série A não pode demitir mais de um técnico, embora haja uma brecha: a possibilidade de saída de comum acordo, como o que foi divulgado para a queda de Hernán Crespo no São Paulo.

A presença de estrangeiros, o que se tornou um hábito no país, também tornou a disputa pelos empregos mais acirrada.

“Eu vejo o futebol e não enxergo nada de novo. Falam de formações táticas que eu olho o campo e, sinceramente, não vejo. Futebol é o mesmo de antes. Hoje algumas coisas podem ser velhas. Mas amanhã podem ser novas de novo. É tudo cíclico”, define Emerson Leão, que se sentou no banco de reservas pela última vez em 2012, em rápida passagem pelo São Caetano.

Ele afirma ter recebido convites no período, mas nenhum que lhe atraiu. Também tinha desejo de ser gerente de futebol, mas a não ser por breve trabalho na Portuguesa, já na época das vacas magras que ainda persiste, não teve outros trabalhos.

Dedicou-se ainda mais a dois dos seus grandes prazeres da vida: ser fazendeiro e colecionar pinturas.

O argumento de que nada mudou dentro de campo também é usado por Vanderlei Luxemburgo, que se revolta quando é chamado de “decadente”. Um dos seus vídeos mais vistos no Youtube é participação no programa “Bem, Amigos”, do SporTV, em que se define como “um cara de vanguarda”.

“Sabe qual o problema no futebol brasileiro? As pessoas não respeitam a história, o conhecimento, a experiência dos outros. Inventaram que determinadas pessoas são ultrapassadas. Colocam essa pecha em alguém e há quem acredite nisso. Eu não quis sair do futebol. Quiseram que eu saísse”, disse em entrevista, pouco antes de morrer, em 2017, aos 77 anos, Carlos Alberto Silva.

Em tom de brincadeira, o treinador campeão brasileiro com o Guarani em 1978 e o último nome do país a ter sucesso na Europa, dizia precisar a trabalhar porque estava “com a corda no pescoço” na questão financeira.

Silva foi bicampeão português pelo Porto (1992 e 1993).

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