Verón e a paixão pelo futebol que ultrapassa as barreiras da idade

Felipe Portes
Foto: AP/Gustavo Garello

Um velho conhecido do futebol sul-americano entrou em campo na noite de terça-feira pelo Estudiantes. Depois de três anos de inatividade, o agora presidente do clube, Juan Sebastián Verón está de volta. Capitão, dono da camisa 11 e escalado apenas para jogos da Libertadores, o volante desfilou sua classe contra o Barcelona de Guayaquil.

Verón, como se pode perceber, não tem o mesmo pique e a agilidade de antes. Mas a técnica e a sabedoria não se perdem jamais. Aos 42 anos, o maior craque da história do Estudiantes empresta seu talento para mais um sonho de conquistar a América, muito embora dessa vez pareça que os pincharratas não irão longe o suficiente.

A questão aqui é o amor pela bola, não pelos resultados. Verón voltou da aposentadoria para dar ao seu povo uma última alegria, um último espetáculo. E ninguém duvida que ele possa proporcionar isso. Casos como o dele são raros no esporte. Por mais que tenhamos o grande exemplo de Zé Roberto no Palmeiras, aos 42 anos e capaz de atuar em alto nível, o lateral alviverde jamais anunciou que iria parar. Já Verón, ensaiou pelo menos dois finais de carreira, mas voltou atrás.

A trajetória de “La Brujita” começou em 1994, pelo Estudiantes. Filho de Juan Ramon Verón (La Bruja), craque tricampeão da Libertadores nas décadas de 1960 e 70, também pela equipe platense, o herdeiro conseguiu ser tão vitorioso e reconhecido como o pai. Rodou por clubes grandes do cenário mundial como Boca Juniors, Sampdoria, Parma, Lazio, Manchester United, Chelsea, Internazionale, antes de retornar em 2007, já veterano, ao clube que o lançou.

De todos os títulos que conquistou, talvez os mais marcantes para ele sejam os dois que levantou na Liga Argentina e o da Libertadores, em 2009. Em grande fase, conduziu os pincharratas ao tetracampeonato da competição, contra o Cruzeiro. Depois disso, o mago das meias baixas fez uma breve pausa e saiu dos gramados em 2012. Atuou em equipes amadoras, apenas para não ficar longe da bola. Um ano depois, em 2013, fazia um retorno triunfal para mais dois anos de contrato com o Estudiantes. Só mesmo em 2014 considerou que era a hora de parar de vez.

Desde então, se elegeu presidente do clube e devolveu um pouco de estabilidade ao Estudiantes. O time voltou a ser competitivo, apostando em atletas jovens formados na base. Com a missão de vender camarotes para o estádio Ciudad de La Plata, ele prometeu voltar aos gramados três anos depois da aposentadoria se a torcida comprasse 65% dos carnês para a temporada.

Dito e feito: assinou ao fim de 2016 um contrato de 18 meses que prevê a sua participação apenas na Libertadores de 2017 e na de 2018, caso a equipe se classifique. Ele não irá jogar nenhuma partida pela Liga Argentina. Verón só ficou de fora da estreia contra o Botafogo porque tinha uma suspensão pendente em uma partida de 2011, pela Sul-Americana. Na ocasião, ele foi expulso após a partida contra o Arsenal de Sarandi.

O retorno se deu de forma oficial diante do Barcelona de Guayaquil, na noite de terça, em La Plata. Mas o resultado não foi bom para os argentinos: com o placar de 2-0 para os equatorianos, Verón saiu no início do segundo tempo, obviamente por não aguentar atuar por 90 minutos. Ele já havia dado um aperitivo do seu futebol durante a Florida Cup, em janeiro deste ano, nos Estados Unidos.

Por Verón, o Estudiantes bem que merecia chegar à segunda fase. É sempre muito bom poder ver uma estrela deste tamanho atuando, ainda que com algumas limitações. O problema para os alvirrubros é a chave complicada: eles terão de bater o Botafogo, o Atlético Nacional e o Barcelona se quiserem avançar. Não devemos esperar uma atuação sublime de La Brujita em campo, mas sabe como é, nunca se duvida de alguém com tanta história como Verón.