Verônica Hipólito encara novo tratamento de tumor com otimismo

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
·4 min de leitura
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO/RJ, 09/09/2016 - A atleta Veronica Hipolito leva prata no estádio do Engenhão. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO/RJ, 09/09/2016 - A atleta Veronica Hipolito leva prata no estádio do Engenhão. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na agenda de Verônica Hipólito, 25, há um evento descrito como radioterapia. É a forma que a velocista encontrou para ver o "copo cheio", como definiu em entrevista à Folha, na sua batalha contra a volta de um tumor no cérebro.

São 30 sessões necessárias, e o último procedimento está previsto para ser realizado até a primeira semana de janeiro. Um final de ano bem diferente para quem, no início dele, alcançava bons resultados e tinha a esperança de brigar novamente pelo pódio nas Paralimpíadas de Tóquio.

Verônica compete na classe T38 (para atletas com algum tipo de paralisia). Além de medalhas em Mundiais e Jogos Pan-Americanos, ela conquistou prata e bronze nos Jogos do Rio-2016.

"Vou começar 2022 com o pé direito, com as 30 sessões concluídas", diz Verônica, aos risos. "Procuro ver o copo cheio. Durante o tratamento estou conhecendo novas pessoas, andando mais pela cidade de São Paulo, conversando mais com os meus pais. [A cada radioterapia] São três horas dentro do carro, depois conversando com enfermeiros e radiologista."

Nascida em São Bernardo do Campo (SP), Verônica reside, atualmente, na vizinha Santo André. Incentivada pelos pais, José Dimas e Josenilda, ela começou a praticar judô aos 10 anos como forma de superar a timidez. Aos 12, recebeu o diagnóstico, pela primeira vez, do tumor no cérebro, que teve que ser retirado em uma cirurgia.

Dois anos depois, Verônica sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e teve o lado direito do seu corpo paralisado. Como parte do processo de reabilitação, ela optou pelo atletismo. Em 2013, despontou no esporte paralímpico ao vencer a prova dos 200 metros no Mundial em Lyon, na França.

Em sua caminhada até subir ao pódio no Rio em 2016, a paulista se deparou com outras barreiras. Desenvolveu, em 2015, um quadro grave de anemia às vésperas dos Jogos Pan-Americanos de Toronto, mas conseguiu faturar três ouros (provas dos 100 m, 200 m e 400 m) e uma prata no salto em distância.

De volta do Canadá, teve boa parte do seu intestino grosso removido, o que gerou incertezas se conseguiria estar pronta até as Paralimpíadas do Rio. Não só estava como foi ao pódio.

"Algo que aprendi com meus pais é que não cabe a nós julgarmos a dor do outro, se é um tumor, um resfriado ou o dedinho que bate na quina e aquilo dói muito. Cabe a nós mostrarmos que vai dar certo, ficar tudo bem e encararmos", afirma a corredora.

"Eu não vou focar nos problemas e ficar 'oh, céus, vida, azar'. Vou focar na solução e continuar com o esporte."

Em 2017 e 2018, ela passou por mais duas intervenções cirúrgicas para a retirada do tumor no cérebro. Depois desta última, a atleta enfrentou uma pneumonia.

"Pensei, agora vai: os Jogos [de Tóquio] foram adiados, comecei a ter bons resultados e treinando bem, mas no exame de rotina ficamos sabendo que o tumor tinha voltado", recorda a paulista. "No início fiquei bem cansada, insegura. Brinco hoje que venho só levando na cabeça desde 2017."

Distante de Tóquio, Verônica foi convidada pelo Grupo Globo para comentar os Jogos para os canais SporTV. Caiu no gosto do telespectador e, ao mesmo tempo, encantou-se com a comunicação.

Deixou os estúdios com tamanha saudade que faz planos para trilhar uma carreira na televisão. Antes, porém, caminha para concluir o curso de economia na Universidade Federal do ABC e não perde Paris-2024 de vista.

Verônica coleciona conquistas diariamente para voltar a competir em alto nível. São cinco remédios diferentes todos os dias, entre eles o corticoide para o resto da vida. "Com este eu fico inchada, não faço reposição hormonal e tenho mais chances de lesão. Mas é o que me permite viver e continuar correndo também."

Verônica ficou aflita quando observou um aumento de peso. Com ajuda de duas nutricionistas, cumpre dieta que limita a ingestão de carboidratos em 60 gramas, no máximo, por dia. Segundo ela, o equivalente a duas colheres de sopa com arroz integral. "Antigamente eu comia seis colheres com arroz branco, carnes e batata, e um chocolate."

Ao longo de todo esse processo e distante das competições, a velocista perdeu o auxílio da sua bolsa atleta na faixa pódio, a mais alta, cujo pagamento mensal varia entre R$ 5 mil a R$ 10 mil de acordo com o desempenho do competidor.

Poucas coisas afligem Verônica. Uma delas é a falta de incentivos do governo federal na formação e capacitação dos atletas.

"A bolsa estudantil é de R$ 370, como faz para uma criança treinar de segunda a sexta e ter uma alimentação adequada com o preço do alimento e da passagem nas alturas? Como inspirar essa galera?", questiona.

Por isso ela fundou o projeto Naurú, que propõe oferecer assessoria para atletas e treinadores evoluírem na carreira. São treinamentos nas áreas de comunicação, gestão e divulgação da imagem e mídias sociais, saúde e suplementação, entre outros.

Naurú, na língua tupi-guarani, faz alusão ao bravo, ao guerreiro, ao herói. Palavras que Verônica aprendeu ainda cedo. E, por meio dos pais, o significado delas.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos