Venda para sauditas divide sentimentos da torcida do Newcastle

ALEX SABINO
Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Chris Waddle, 59, nasceu em Felling, uma cidade de 9.000 habitantes a 6 km do St.James Park, estádio do Newcastle United, o time da sua vida.

Um dos maiores jogadores do clube nos últimos 40 anos, o meia-atacante atuou também pelo Olympique de Marselha, na época em que a equipe francesa era a mais rica da Europa, e disputou a Copa do Mundo de 1990.

Hoje aposentado, ele voltou a ser o que sempre foi: mais um torcedor do Newcastle. E como vários outros, tem sentimentos ambíguos com a possível venda do clube para o Fund Investiment Public, fundo que pertence à família real da Arábia Saudita e tem patrimônio estimado em US$ 320 bilhões (R$ 1,66 trilhão).

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"Eu deveria estar radiante e, de certa forma, estou. Os torcedores há muito tempo querem se livrar de Mike Ashley, e agora apareceu um novo dono que tem muito dinheiro para investir no time, o que todos desejam. Mas há uma questão moral", admite Waddle.

Ashley é o proprietário da Sports Direct (entre outras empresas), uma das maiores redes de lojas de roupas esportivas do Reino Unido. Ele comprou o Newcastle há 13 anos e tenta vendê-lo há 12, frustrando torcedores por não demonstrar interesse nos resultados em campo, desde que o clube desse lucro.

"Eu jamais vou dizer para um torcedor do Newcastle parar de apoiar o time por causa dos sauditas. É desconfortável, mas falamos de um time que eu amo desde criança. Seria muito difícil me desligar disso", diz Normal Riley, editor do fanzine True Faith, dedicado à equipe.

A questão que divide os fãs é o regime autoritário da Arábia Saudita, país em que a monarquia que o comanda é acusada de contínuo desrespeito aos direitos humanos.

O príncipe Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, é acusado de ser o mandante da morte do jornalista Jamal Khashoggi, crítico do regime, assassinado na embaixada do país em Istambul, na Turquia. Ele depois foi esquartejado. Salman, conhecido pela sigla MBS, nega relação com o crime.

A Anistia Internacional do Reino Unido denunciou a proposta de compra do Newcastle por R$ 1,6 bilhão como tentativa de melhorar a imagem na nação árabe por meio do futebol.

Em carta aos dirigentes da liga inglesa, Kate Allen, diretora da entidade, disse que "a Premier League se colocou em risco de se transformar em boneco de quem quer usar o prestígio e glamour da liga para acobertar ações que são profundamente imorais, que desrespeitam a lei internacional e são estranhas aos valores da Premier League e da comunidade global do futebol."

Pesquisa realizada pelo jornal Newcastle Chronicle teve 80% de torcedores favoráveis à compra, que ainda precisa de aval dos dirigentes do campeonato.

Um grupo de moradores locais escreveu ao diário para dizer que Ashley deveria vender o clube e não poderia se colocar no caminho de uma oferta que pode levar o time a outro patamar.

O pedido soa como desespero por uma razão bem clara. O Newcastle United é um dos clubes com torcida mais numerosa e paciente do futebol europeu. Seu último título de expressão foi a Recopa europeia de 1969. A equipe não ganha a liga inglesa desde 1927, e a Copa de Inglaterra, desde 1955. A média de público em St.James Park nos últimos três anos, apesar disso, é superior a 52 mil pessoas.

"É preciso entender que o Newcastle United representa muito para a cidade de Newcastle e sua população operária. Confunde-se com a vida das pessoas", afirma Waddle.

Um dos argumentos de defesa dos torcedores do Newcastle é de que a liga não se opôs quando o conglomerado da família real dos Emirados Árabes, outra monarquia absolutista sem democracia e com histórico de desrespeito aos direitos humanos, comprou o Manchester City em 2008. Do dia para a noite, a agremiação se transformou em um das mais ricas e poderosas do mundo.

"Eu creio que não seja justo pedir para que torcedores assumam essa batalha. Eles gastam o seu dinheiro suado com seu time do coração e precisam se sujeitar a horários esdrúxulos para satisfazer transmissões de TV. É para isso que políticos são eleitos. Por que somos nós que temos de brigar contra a Arábia Saudita?", defende Alex Hurst, outro editor do True Faith.

Ele se apoia no fato de que, em 2018 e 2019, o Reino Unido vendeu o equivalente a R$ 4,2 bilhões (em valores atuais) em armas para a Arábia Saudita.

Por causa da pandemia de coronavírus, a decisão tem sido empurrada com a barriga pelos dirigentes da Premier League, mas o Fund Investiment Public já depositou o sinal e apresentou os documentos necessários para a compra.

Waddle acredita que a escolha do Newcastle faz sentido para os sauditas. É um gigante adormecido, com muito potencial para crescer. E isso significa ganhar títulos, palavra que sozinha parece capaz de enfeitiçar seus torcedores, não importa de onde venha o dinheiro.

"Eu não vou deixar de ir ao estádio, mas será uma situação bem difícil", confessa Riley.

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