Vegano, vaidoso e baladeiro: o outro lado do pentacampeão Lewis Hamilton

Lewis Hamilton comemora seu quinto título da Fórmula 1 (Clive Mason/Getty Images)
Lewis Hamilton comemora seu quinto título da Fórmula 1 (Clive Mason/Getty Images)

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Por Julianne Cerasoli (@jucerasoli)

Não é exagero dizer que Lewis Hamilton se tornou homem diante dos holofotes. Quando estreou na Fórmula 1, em 2007, o piloto de então 22 anos cultivava a imagem de bom moço, andando sempre acompanhado da família, sendo empresariado pelo próprio pai, que chegara a ter três empregos para sustentar sua carreira, e seguindo à risca as determinações de sua então equipe, a McLaren.

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Muita coisa mudou de lá para cá. A primeira grande revolução na vida de Hamilton foi o rompimento com o pai, em 2010. Depois, ele terminou um relacionamento conturbado com a cantora norte-americana Nicole Scherzinger, em uma época em que cometeu muitos erros na pista e foi muito cobrado por sempre andar cercado de celebridades.

A terceira mudança fundamental foi a troca da McLaren pela Mercedes, em 2013. No time alemão, Hamilton passou da rigidez do chefe Ron Dennis para a liberdade de Toto Wolff. Logo começaram a aparecer as tatuagens, as roupas ousadas e a fama de solteiro baladeiro. Sempre cercado de celebridades, claro. Enquanto isso, nas pistas, os erros foram ficando cada vez mais raros e, de 2014 para cá, Hamilton conquistou nada menos que quatro títulos em cinco oportunidades, colocando-se entre os melhores da história da F-1.

Em entrevista exclusiva ao Yahoo Esportes, o piloto de 33 anos fala das suas transformações mais recentes: a dieta vegana e a preocupação com o meio ambiente, a maneira como recebe críticas a seu visual e o como se vê em um futuro longe do esporte.

Você se tornou vegano ano passado [sob influência de sua treinadora Angela Cullen, que o acompanha em todas as provas]. O quão difícil é manter a dieta viajando?

Eu diria que minha alimentação é baseada em plantas. Não gosto que falem vegano porque eu ainda tenho alguns itens de couro. Às vezes é muito fácil e às vezes é difícil, porque você acaba ficando sem opções. Não temos um chef vegano aqui na Mercedes [Hamilton chegou a pedir indicações ano passado via redes sociais], mas o chef da equipe tenta fazer receitas veganas. Mas quando você está viajando e come em hotéis, é muito difícil encontrar coisas que sejam realmente interessantes e daí fica monótono. Então você sempre tem que ficar pesquisando, lendo sobre o assunto, seguindo páginas do Instagram com receitas. Mas definitivamente nunca me senti tão bem na vida.

E, como atleta, é difícil encontrar boas fontes de proteína, uma vez que as proteínas vegetais têm menor valor biológico?

É bem fácil, na verdade. É uma loucura como nós somos treinados a pensar de uma determinada maneira. Por exemplo, achamos que leite de vaca é bom. Quando eu tiver filhos, eles não vão beber leite de vaca, desde cedo. Ouvi dizer que isso até desacelera a função cerebral das crianças. Então até falei para a minha irmã para ela parar com o leite de vaca e dar só leite de amêndoa ou algo do tipo. Você tem que treinar sua mente de uma maneira diferente, então estou lendo muito sobre isso. Mas posso dizer que foi uma das melhores coisas que fiz.

Mas tem algo de que sente falta?

Se eu tenho vontade de algo, é chocolate [Lewis costumava pegar um ou dois bombons no motorhome da Mercedes no início de cada entrevista antes de começar com a nova dieta]. Não posso porque tem leite. Às vezes tenho vontade e, não sou perfeito, então eu comi chocolate vez ou outra no último ano. Mas não me senti bem depois que comi e isso faz com que não tenha mais tanta vontade. Então hoje eu sinto mais os efeitos que antes não sentia porque meu corpo estava adaptado.

Para o ano que vem, você disse que quer ficar mais musculoso [agora que o peso do piloto não contará mais para o peso mínimo dos carros, exigência antiga dos mais altos]. Como será essa preparação?

Ainda não tenho certeza, estou tentando entender qual o melhor momento de começar, pois precisaria ser agora, já que ganhar músculo é um processo longo. E é algo bem diferente da preparação que eu fiz nos últimos anos, porque sempre corri muito, fiz muito aeróbio. E, se você quer ganhar músculo, não pode mais fazer tanto cardio. Será um novo equilíbrio para mim. Estou leve agora, bem mais leve do que no começo da temporada. Mas também tenho muito menos músculos. Tenho algumas metas em termos de ganho muscular e de perda de gordura. Mas acho que não vou mudar muito. Espero chegar para a temporada que vem na melhor forma da minha carreira.

Você tem dito que gostaria de ver os motores mais potentes de volta, ou seja, sem a tecnologia híbrida. Afinal das contas, qual o conceito que a F-1 deve adotar quando mudar as regras em 2021?

Ainda acho que a F-1 precisa voltar a ter motores maiores, como os V10, V12. Nosso rastro de carbono é muito alto de qualquer maneira – é só olhar o tanto de carne que as pessoas comem por aqui, e é algo de que as pessoas não precisam. Há mais poluição vinda de vacas do que de carros no mundo! Mas também há a paixão pelo som. Se as Ferrari, por exemplo, se tornassem totalmente elétricas e deixassem de ter o barulho, acho que as pessoas perderiam interesse – o que acho que será nossa nova realidade. Mas ainda é uma coisa que me fascina.

As pessoas estão sempre implicando com as roupas que você usa, com seu cabelo, as joias. O que você acha desses comentários? Vê racismo neles?

Primeiramente, eu nem vejo os comentários. Realmente não me importo com o que as pessoas têm a dizer. Não entendo totalmente o mundo e o porquê das pessoas terem opiniões sobre todas as coisas que os outros fazem. O que percebi na minha vida é que tenho que focar em mim mesmo. Se eu focasse no Seb ou em outro piloto e ficasse me importando com a maneira como eles estão lidando com suas coisas, estaria perdendo o foco na maneira como eu faço as coisas. Então é por isso que eu foco em mim mesmo e em tentar ser o melhor que eu puder. Porque é a única coisa que em que tenho qualquer impacto. “Zero fuck” [algo como zero de importância] é a abordagem que eu tenho e realmente não me importo com o que as pessoas dizem. Realmente não me importo se não gostam do meu cabelo ou do que eu uso. Houve um tempo em que eu me importava quando era mais jovem, e demorou um tempo para eu ter essa mentalidade. E foi a coisa mais saudável que eu fiz.

Como você se imagina quando tiver 40 anos? Terá começado uma família? Vai continuar viajando? Estará em uma indústria diferente do automobilismo?

Primeiro espero estar vivo e saudável. Esperaria ter começado uma família quando chegar aos 40 e ter adotado um estilo de vida diferente. E espero que esteja me sentindo desafiado por qualquer carreira que tenha decidido seguir. Sim, acho que estarei em outro tipo de indústria. Eu meio que tenho certeza de qual eu quero que seja, mas não sei se vou ter sucesso. Mas não sei onde estarei, em qual parte do mundo. Mas só rezo para estar vivo e com saúde, o que é estranho porque, quando eu era criança, não pensava sobre saúde e esse tipo de coisa. Achava que sempre teria saúde. Mas estou ficando mais velho e estou mais grato pela vida, por acordar todo dia me sentindo bem e poder fazer o que eu faço. Você percebe que seus dias são numerados. Então quero curtir os meus.

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