Já ídolo no Cazaquistão, Love rechaça aposentadoria e ainda sonha com volta ao CSKA

Fábio Paine
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Vágner Love em sua chegada ao Kairat (Kairat - Divulgação)
Vágner Love em sua chegada ao Kairat (Kairat - Divulgação)

MOSCOU (RÚSSIA) - Quando deixou o Corinthians no ano passado, Vágner Love tinha tudo para acertar com o CSKA Moscou (RUS). Porém, a negociação acabou não se concluindo e o atacante foi parar no Cazaquistão, surpreendendo a todos.

Seu destino foi o Kairat.

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Quase um ano depois de chegar ao clube, o atacante já faz parte de sua história. Em 2020, com sete gols em 13 partidas, ajudou a equipe a quebrar um jejum de 16 anos sem o título do campeonato nacional. Isso colocou o Kairat na fase preliminar da Champions League 2021/2022.

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No total, em 23 partidas, o atacante já acumula 12 gols.

Os bons números e a gana de conquistar mais títulos fazem com que o jogador de 36 anos nem pense em se aposentar, como revelou nesta entrevista ao Yahoo Esportes.

Love também afirmou que não fecha as portas para um retorno ao Brasil, mas mais uma vez reafirma seu desejo de retornar ao CSKA, time pelo qual colecionou taças e soma 259 partidas.

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Como você avalia até o momento a sua passagem pelo Cazaquistão?

Gosto muito daqui, a cidade (Almaty) me surpreendeu muito, rapidamente me adaptei. Logo de cara consegui ajudar o time a alcançar o objetivo, que era o título. O clube não vencia a liga já havia 16 anos. Fiquei muito feliz com esta conquista. Renovei o contrato por mais um ano (até o fim de 2021) e espero seguir conquistando novos feitos.

Como será para você voltar a disputar uma Champions League, ainda que seja uma fase preliminar e sabemos que será muito difícil para o Kairat alcançar a etapa de grupos?

Fico contente de ter esta oportunidade mais uma vez em minha carreira, ainda que seja uma etapa eliminatória. Claro que este é um desafio muito difícil para nós, pegando clubes com maiores investimentos, com maior poderio e com jogadores melhores que os nossos, sendo sincero. Mas dentro das quatro linhas, quem sabe né? Podemos conseguir um feito inédito para o clube, o de jogar a fase de grupos. Sabemos das dificuldades, mas vamos trabalhar o mais duro possível.

Como foi e está sendo jogar em meio à pandemia? Você ainda não teve oportunidade de jogar nenhuma partida em frente à torcida de vocês.

Agora aqui o país todo voltou para uma fase vermelha. Só não funcionam as coisas essenciais. Seguimos treinando e já disputamos três rodadas do campeonato. O que me deixa triste é que parece que isso nunca vai acabar. Cada hora falam uma coisa sobre esta pandemia. Mas temos de acatar o que dizem as autoridades, ter o maior cuidado possível. O fato de não ter torcida é complicado. Sou um jogador que gosta de jogar com estádio cheio. Gosto muito quando tem apoio e até a vaia é válida. Mas temos que pensar no bem de todos, nos cuidar bastante. Quando todo mundo estiver vacinado, espero que o público possa voltar. Seria muito legal poder compartilhar com os torcedores estes momentos que estou vivendo aqui. Sinto muita falta deles. Quem sabe neste ano a gente não consiga ser campeão de novo e com o torcedor dentro do estádio curtindo este momento.

Gostaria de falar um pouco sobre o CSKA. O clube recentemente acertou com o Ivica Olic, seu ex-companheiro no clube, para ser treinador apesar de ele só ter experiência como assistente da seleção croata. Como você avalia isso?

Fiquei sabendo que ele foi contratado para ser o novo técnico e que tinha apenas esta experiência na Croácia. Só tenho a desejar toda a sorte do mundo para ele. Espero que possa repetir os feitos que conseguiu como jogador na Rússia, quando ganhou muitos títulos. Tomara que como treinador seja o mesmo e possa desenvolver o seu trabalho.

Como era jogar com o Olic? Vocês foram campeões da Copa da Uefa (atual Liga Europa) jogando juntos.

Era um jogador muito bom. Nos entendíamos muito bem. Creio que passamos entre um ano e meio e dois juntos, e depois ele foi vendido para a Alemanha. Apesar de pouco tempo, como você disse, ganhamos este título inédito e histórico para o CSKA. Ele seguiu a sua carreira em outros lugares e agora voltou como treinador. Como disse, espero que tenha muito sucesso.

Você esteve muito perto de acertar com o CSKA quando deixou o Corinthians, mas as coisas não deram certo. Você ainda tem desejo de jogar pelo clube? Diversos atletas da sua época agora ocupam cargos diretivos ou na comissão técnica.

Amo o que estou fazendo e penso no agora e sou muito feliz. A família está muito bem adaptada ao Cazaquistão e tudo o que tem acontecido me deixa contente. Mas eu não sei o dia de amanhã. Se houver a oportunidade e entrarmos em um acordo, me deixaria muito feliz. Claro que seria ótimo poder voltar ao clube no qual tive uma história tão bonita. E saber que caras que atuaram comigo estão exercendo diversas funções no clube, me deixa feliz. Tinha ótimo relacionamento com eles dentro e fora de campo e seria muito legal. Se acontecer de eu retornar, farei de tudo para que o clube volte a conquistar títulos.

E teria interesse de desempenhar alguma função pelo clube fora de campo após encerrar a carreira, por exemplo?

Não penso apenas dentro de campo. Quem sabe né, não poderia representar o clube no Brasil, em países próximos, ser como um embaixador. Se recebesse uma proposta assim, veria com muitos bons olhos e com a possibilidade de ajudar muito.

Além de ter ficado muito perto do CSKA após deixar o Corinthians, soube também que houve uma sondagem em janeiro, na janela de inverno. Como foi isso?

Realmente teve esta sondagem e uma conversa preliminar, mas ficou nisso e nada mais. Na janela de verão do ano passado que foi sim algo mais concreto.

O CSKA não contratou você nesta janela de inverno, mas trouxe um jogador que também não é tão jovem, o venezuelano Rondón, de 31 anos. Como você vê este fato?

Ele jogou em dois grandes clubes da Rússia, o Zenit e o Rubin Kazan. É um jogador que conhece muito bem o campeonato. Optaram sim por não contratar um jogador tão jovem, mas que tem identificação com a liga e com o país.

Um dos motivos para não terem fechado contigo após estar quase tudo certo no ano passado foi a possibilidade de contratar o Adolfo Gaich, atacante argentino de 21 anos. Porém, depois de seis meses ele foi muito mal e acabou emprestado para o Benevento. Acha que foi um erro do CSKA? O que acha que pode ter dado errado para ele?

Eu não posso falar do jogador e pelo jogador pois não o conheço e também não sei o que passa e passou na cabeça dele. Mas a adaptação ao país e ao campeonato é sim um problema para muitos. Eu sou um jogador que nunca tive problemas em me adaptar em nenhum lugar e você pode ver isso agora no Kairat. Quero sempre fazer o meu melhor e retribuir o que o clube está fazendo por mim. Foi assim a minha carreira inteira. É claro que se eu tivesse chegado ao CSKA, estaria muito mais preparado do que ele (Gaich) por conhecer bem o campeonato, o clube. Mas como eu disse, não sei quais foram as dificuldades dele. Isso vai de jogador para jogador.

Aqui cheguei e ajudei o Kairat a ganhar um título depois de 16 anos, fazendo gols. Quem sabe se eu tivesse sido contratado pelo CSKA não estaria ajudando o time a estar mais forte na briga pelo título e conquistando os seus objetivos na temporada. Poderia ter chegado no início do campeonato e ajudado muito. Mas não posso falar de algo que não aconteceu.

Você jogou no CSKA com o Mário Fernandes, quando ele era novo e recém-chegado. Hoje, ele é referência do time, se naturalizou russo, jogou Copa do Mundo e é um dos atletas mais importantes da seleção. Como você vê isso?

Eu fico contente demais pelo sucesso dele. Ele é um jogador que nunca faz um jogo de regular para ruim. Sempre de regular para ótimo e mantém a média. É um jogador que tem muita qualidade técnica e poder de marcação. Também chega muito bem ao ataque. Por muitos anos tem se mantido neste nível e tudo que acontece com ele é um mérito por seu trabalho. Um cara que sempre trabalhou muito duro. Sempre foi muito dedicado. Ele não teve uma, mas sim inúmeras propostas para sair do CSKA e nunca quis sair. Se naturalizou russo, hoje é mais russo que brasileiro e está fazendo um excelente papel na seleção. Fico realmente muito feliz. Quem sabe, eu não volte e ainda tenhamos tempo de jogar juntos e ganhar mais títulos.

Você já tem planos para encerrar a sua carreira?

Até quando o corpo estiver obedecendo eu vou estar em campo e por isso eu não tenho planos de deixar o futebol.

Pretende encerrar a carreira no Brasil, voltar ao país em breve?

Como eu disse, nem passa pela minha cabeça encerrar a carreira. Não sei ainda quanto tempo seguirei jogando. Por isso é muito difícil responder esta pergunta.