Vítor Severino vê identidade sendo construída no Botafogo: 'Não queremos nunca uma equipe reativa'

Vítor Severino, auxiliar de Luís Castro (Foto: Vítor Silva/Botafogo)


A torcida do Botafogo está empolgada com o futuro. Não é por menos: o começo de Brasileirão é animador, com estádios cheios e bons resultados. Além disso, há a construção de um trabalho que está sendo formado pela comissão técnica de Luís Castro. O serviço, contudo, não é feito sozinho.

Vítor Severino, principal auxiliar do treinador português, deu detalhes sobre o que a comissão pensa sobre o futuro e o modelo de jogo do Botafogo em entrevista exclusiva ao LANCE!. Acima de tudo, o objetivo pela construção de um modelo de jogo definido e claras ideias técnicas e táticas que serão repetidas nos treinos e jogos.

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- Nossa forma de trabalhar está muito associada à complexidade, não à complicação. Entendemos o futebol como um fenômeno complexo, é um fenômeno de interações, somatórios. Até muito tempo atrás, nas modalidades coletivas, não só futebol, era olhado em uma ótica cartesiana, A + B + C + D + E é igual ao jogo, então treinava-se de forma separada. É importante correr sem bola. Se olhar para os dados, os jogadores ficam pouco tempo com a bola no pé. São poucos minutos que um jogador passa por jogo com a bola no pé, nos outros 80 minutos o que ele faz? Ele corre, mas corre por algum motivo. Corre em relação a bola, ao adversário, ao espaço que tem em relação às costas, em relação à ideia do treinador... A nossa metodologia é virada para a complexidade. O nosso treino é o jogo, tudo que fazemos no treino está relacionado com o jogo, todas as atividades são representatividades, são algo micro daqui do nosso jogo macro - explicou Vítor.

O modelo-base da comissão técnica é a ideologia de periodização tática, metodologia produzida por Vítor Frade, técnico português que teve passagem marcante pelo Porto. Esse modelo também já foi citado e utilizado por José Mourinho e Vítor Pereira, atual treinador do Corinthians.

- Se nós queremos o jogo associativo, construção desde trás, a equipe cresce junta e fica equilibrada, não podemos ter outros exercícios. Se tivermos falhas nas duas primeiras tentativas damos um reforço aos jogadores, o exercício de posse 3 para 3 tem que refletir uma estrutura mais macro, isso no momento ofensivo ou defensivo. Sempre perguntam sobre periodização tática e a influência que tivemos com o professor Vítor Frade no Porto. É uma metodologia no treino, que diz que o modelo de jogo é uma intenção, que pode até não conseguir concretizá-la. A periodização tática diz que é uma ferramenta para transformar essa intenção na prática. Se o jogo é de complexidade de interações, o treino tem que ser de complexidade de interações. Se no jogo o jogador toma decisões durante 90 minutos, ele tem que tomar decisões no treino. Nosso treino não é de muitas respostas, é de muitas perguntas. Já foi aquela era de que o treinador era o homem das respostas - analisou.

- O fenômeno complexo do futebol não tem resposta para tudo. Tu podes treinar o comportamento de uma linha defensiva para apresentar profundidade e outras quatro ou cinco situações. Mas chega no jogo e acontece outra completamente diferente. O treinador precisa fazer perguntas aos jogadores para que eles saibam se adaptar e possam responder bem no outro jogo. A periodização tática tem a ver com isso, criar contextos para fazer propensões para realizar o nosso jogo, linha alta, pressão, coberturas, dinâmicas de lateral entre o 8, profundidade... Temos que interpretar o contexto. O jogo é um fenômeno completamente imprevisível, mas nós diminuímos muito essa imprevisibilidade se treinarmos com essa metodologia - completou.

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ESTILO DE JOGO

A busca por uma identidade é a prioridade de Vítor Severino. Acima de tudo, a busca por um jogo baseado na ofensividade e um modelo que busca criar espaços e tem a construção de jogadas o tempo inteiro. É importante, cita Vítor, que a equipe saiba se adaptar ao adversário, mas nunca abandone os valores.

- O mais importante é aquilo que vamos construir ao longo prazo, que é a equipe ter uma identidade. Quando a equipe tem identidade ela tem valores, assim como nós. É esperado que você reaja de uma forma a uma provocação e eu de outro jeito, tudo vai da personalidade. No futebol é exatamente o mesmo. Não queremos nunca uma equipe reativa, isso não existe. Não preparamos a equipe para reagir ao Flamengo, ao Ceilândia... Preparamos a equipe, estamos nesse caminho, ainda não chegamos lá, é óbvio. É a construção de uma identidade e a equipe vai dar respostas. Ela será diferente contra o Flamengo do que contra o Ceilândia. A resposta contra um bloco alto é diferente contra um bloco que não pressiona. Quem vê de fora pode pensar que estamos nos adaptando ao Flamengo, mas há vida do outro lado. É importante a nossa equipe manter a nossa identidade, esse estilo de jogo associativo e os princípios macros do jogo ofensivo - colocou Vítor.

Espaço, paciência e ataque. Três dos fatores levados em consideração pela comissão técnica do Botafogo na busca pela oportunidade perfeita de tentar fazer o gol.

- Se a equipe tem espaço, ataque-o. Se a equipe não tem espaço, crie. Se consegue criar uma situação de gol com um passe, vai. Se precisar de 47 passes, faça 47. Isso parece simples, mas é muito difícil entender o timing para atacar a profundidade e a memória circular para desmontar o bloco do adversário. A nossa forma de jogar as pessoas têm tendência a dizer que é o estilo de posse de bola, eu não concordo nada com isso. A posse de bola é uma consequência, não um objetivo. É a consequência de jogar apoiado e ter prioridades. Nada contra quem joga mais direto. O equilíbrio de jogar curto e longo é algo a ser trabalhado. Jogar curto promove atração e mais espaços, e o jogo longo em demasia promove erros. Queremos uma equipe com identidade própria e que possa responder a modelos de jogo do outro lado, nunca que possa responder a A ou a B. Esse processo demora tempo. É preciso fazer os jogadores se apaixonarem por isso, mas já vi sinais muito positivos - finalizou o auxiliar.

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Conversa com Luís Castro para decidir sobre o Botafogo
- Uma das características das nossas equipes é jogar de forma associativa, forma envolvida. Ele usa diversas vezes a palavra família e podemos usar em diversos sentidos. É bem mais abrangente que o sentido literal, é verdadeiramente uma família. Quando alguém cai, o outro levanta. Se um não pressiona, o outro avisa e cobra. É uma família não só no sentido positivo, às vezes tem que cobrar mesmo. Isso é transversal à comissão técnica. Nós tomamos decisões juntos, existem funções definidas e todos sabem o que devem fazer. Existe muita partilha e reflexão. Sobre o Botafogo, ele falou conosco, quando é assim ele explica o que está acontecendo e pede a nossa opinião. Depois sentamos e falamos o que achávamos. Todo mundo sabe que é ele que decide, mas temos espaço para falar.

Estudos sobre o Botafogo
- Ficamos muito entusiasmados porque havia essa questão de querer trabalhar no Brasil. Na primeira vez que falamos ele pediu para pensarmos sobre. Fui para casa pesquisar, falar com amigos que trabalharam aqui... Fiquei agradavelmente surpreendido. Não vou ser hipócrita, não tinha noção da dimensão cultural e histórica do Botafogo. Sabia do tamanho do Botafogo, de alguns ídolos que tinham passado, mas não tinha noção do peso do clube. Sabíamos que o clube passaria por uma fase de reestruturação e seríamos os atores principais da mudança. A decisão foi tomada muito cedo, sendo sincero, embora formalmente foi tudo formado mais tarde. Rapidamente tomamos a decisão de fazer parte do projeto.

Possibilidade de trabalhos melhores a curto prazo
- Depende do que seja interpretado como melhor. Tu podes interpretar melhor um salário mais alto, ganhar um troféu logo... É tudo relativo e subjetivo. É preciso de duas pessoas para dançar o tango, se uma não quiser não há dança. Sentimos desde o início que a vontade de nos ter aqui era muito grande, isso foi decisivo. Treinadores têm várias abordagens, isso é normal, e os clubes também procuram mais de um profissional. Nós sentimos desde o início que o Botafogo tinha um projeto bem estruturado por quem o coordena e nos queriam realmente aqui. Conheciam a nossa metodologia, sentimos que aqui tinham um projeto, queriam uma comissão para implementar uma ideologia a longo prazo. Ganhamos títulos em alguns países, não tanto como gostaríamos, é verdade, mas tivemos sucesso em todo lado. Essa foi a motivação de colocar uma folha em branco em cima desse patrimônio e escrever uma história nova.

Elenco
- É sempre mais fácil trabalhar com talento, o jogador é por norma sempre mais talentoso. A questão da decisão passa pelo treinador. Antigamente era o contrário, parecia que o técnico iria ensinar ao jogador qual que é o pé de apoio. Nada disso, não viemos ensinar nada. O talento está ali. Viemos ensinar a pensar o jogo, isso é mais fácil em um contexto de qualidade. Há uma frase que gosto de compartilhar que é: "quem acha que o futebol se joga com os pés são os mesmos que acham que o xadrez se joga com as mãos". Parte do treinador é a questão cognitiva, explicar o porquê de estar posicionado ali ou do outro lado. Se o jogador acha que pode colocar o pé de apoio mais dez centímetros ao lado que faça, contanto que tenha rendimento. Eu vejo isso como uma vantagem.

Influências do contexto do futebol brasileiro e a rua
- Não tenho dúvidas que tem (influência do futebol de rua), também sei que há muito do futebol de salão. As crianças costumam começar no futsal e isso tem demasiada influência. Em Portugal tem essa discussão de até que ponto é melhor começar com o jogo formal, de 11 x 11, ou até que ponto é melhor ter o jogo reduzido, de mais toques e mais erros. O erro é algo fundamental, não falamos muito dele. O erro e o fator emocional são algo que tentamos trazer aos nossos treinos. Cobrança é incentivo também. É do jogador sentir que fez algo bom e ouvir um feedback. Pode até ser inconsciente mas aquilo fica gravado. Tudo que tem impacto emocional nas nossas vidas fica gravado. O erro e o impacto emocional são importantes.

Vitória contra o Flamengo no sentido emocional
- Acho que consegue imaginar o que senti quando te disse que sou um apaixonado pelo futebol que chegou ao nível profissional. Sou aquele menino que no Natal pedia uma camisa de futebol, que ficava na porta de hotéis esperando o jogador de qualquer time passar. Saber que existem pessoas do outro lado que torcem e que ganhar o Flamengo é algo importante é uma emoção enorme. Me vejo muito do outro lado. O jogo teve momentos bons e não tão bons, mas todo torcedor quer celebrar uma vitória, não é analisar taticamente. Foi uma emoção enorme. A torcida do Botafogo é gigante e apaixonada e sei que há uma onda de entusiasmo, alguns me dizem quando chegamos nas concentrações que os momentos do passado não foram tão bons e nós estarmos presentes agora é motivo de recuperar a autoestima. Isso é fantástico. O amor está de todo o lado, ninguém cria uma torcida desse tamanho de um dia para o outro.

Vitória contra o Flamengo no sentido tático
- É um time que está montado há muito tempo, com jogadores de qualidade e com muitos torcedores ao lado, é claro que seria difícil. Não estávamos esperando chegar e ter 70% posse de bola e dominar. Para ganhar um jogo desse é preciso sofrer também. Claro que o adversário teve algumas situações de gol, algumas delas nós poderíamos ter evitado e já começamos a trabalhar aqui. Mas é o que eu digo de criar a identidade e trabalhar cada vez mais.

Pontos positivos depois do primeiro mês
- Eu elogio o profissionalismo de todos. A vontade de comprar a nossa ideia de jogo em todos os treinos, isso surpreendeu no lado positivo. Não é que não achasse que eles não fariam isso, mas superou as expectativas. Temos um grupo que trabalha muito forte. Os dados de GPS da análise só reforçam isso. Elogio muito essa vontade. A estrutura também está crescendo, estamos em uma fase de construção de infraestrutura e sinto que sou mais um nessa família. Chego no local de trabalho e está tudo pronto, só tenho que me preocupar em ir para o campo.

O que pode melhorar
- Há muitas coisas que podemos melhorar. A identidade de jogo não se faz de forma linear. Não é que estamos no nível C e agora fomos para o B. O modelo faz por avanços e recuos. Se ganhar vamos avançar em determinada forma no nosso ofensivo, mas daqui a duas semanas teremos que dar três passos atrás e voltar para a primeira fase da construção. Essa é a forma sistêmica de abordar o futebol. O modelo de jogo não cresce de forma linear. A reação pós-perda da equipe é fantástica, muita intensidade, isso não se ensina. É o jogador que tem vontade, a equipe está junta. Podemos melhorar na questão do timing no jogo ofensivo.

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