Uma lenda negra do surfe mundial

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Nick Gabaldón foi pioneiro no surfe em tempos de segregação nos EUA (Arquivo)
Nick Gabaldón foi pioneiro no surfe em tempos de segregação nos EUA (Arquivo)

Por Emanoel Araújo e Guilherme Daolio

Uma praia somente para pretos.

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Até meados da década de 50, isso não era uma exclusividade nas areias de Los Angeles. Isto era uma das perversas leis da segregação racial que concedia a praia de Inkwell (tradução livre: “Praia do Tinteiro”) a única alternativa da população afro-americana acessar o mar.

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Foi neste espaço restrito que surgiu uma lenda do surfe. Filho de mãe preta e pai mexicano, Nicolas Rolando Gabaldón sempre teve uma relação íntima com o mar. Ao surfar apenas com o corpo em Inkwell, o rapaz chamou a atenção de Buzzy Trent. Antes de se tornar um surfista famoso na década de 50, o salva-vidas da praia de Inkwell incentivou Nick a surfar com a prancha do Corpo de Bombeiros. Apresentado o potencial de Nick, Trent o convidou para se juntar a turma.

<em>Além da determinação, Nick ajudava os surfistas iniciantes no mar, utilizando sua experiência na Marinha. (Reprodução)</em>
Além da determinação, Nick ajudava os surfistas iniciantes no mar, utilizando sua experiência na Marinha. (Reprodução)

O problema é que a praia era tão sonhada quanto proibida para ele.

Famosa mundialmente, Malibu sempre foi o melhor lugar para se surfar na região. Sem poder colocar o pé nas areias da mítica praia, o surfista encontrou uma brecha.

Nick Gabaldón cumpriu a regra e nunca pisou na areia de Malibu. Sem carro ou alguém que se arriscasse a levá-lo até lá, ele teve uma ideia: remar, diariamente, 40 quilômetros em alto mar – para ir e voltar – de suas sessões de surfe.

A atitude conquistou de vez a comunidade branca do surfe em Malibu. Além da determinação, Nick ajudava os surfistas iniciantes no mar, utilizando sua experiência na Marinha. Simpático e talentoso, não demorou para se tornar um ícone das ondas locais.

Mesmo que não pudesse colocar os pés na areia, o primeiro afro-americano a surfar pelas praias de Los Angeles, ganhou o respeito de todos – exceto dos racistas, que gritavam e vaiavam à beira do mar.

:: ARTE IMITA A VIDA

Trabalhando nos Correios e cursando Inglês na Universidade de Santa Monica, o aluno Nicolas Gabaldón participava ativamente da revista de literatura da escola. A relação com o mar virou tema de sua última poesia, enviada ao periódico no dia 31 de maio. Ele ainda não sabia, mas cada linha soava como uma premonição.

<em>Além da determinação, Nick </em>ajudava <em> os </em>surfistas iniciantes <em> no mar, </em>utilizando sua <em> experiência </em>na <em> Marinha. (Reprodução)</em>
Além da determinação, Nick ajudava os surfistas iniciantes no mar, utilizando sua experiência na Marinha. (Reprodução)

Lost Lives

Scores and scores have fallen prey
To the slat of animosity;
And many more will victims be
Of the capricious, vindictive sea.

Vidas perdidas (tradução)
Marcas e marcas caíram
Para o sarrafo da animosidade;
E muitas mais serão vítimas
Do mar caprichoso e vingativo.

O conteúdo fazia relação entre o mar e a morte. Quatro dias após o poema, a arte se transformaria em um drama real. Nick enfrentou ondas de até 4 metros e, ao pegar uma delas, se desafiou a passar por baixo do Píer de Malibu.

Outros dois surfistas entraram na mesma onda e rejeitaram a ideia de Nick. A plateia acima das ondas correu para o outro lado, pronta para aplaudir o feito. Várias ondas depois, todos ficaram pasmos com o sumiço de um dos melhores surfistas que já passaram por ali.

Além da determinação, Nick ajudava os surfistas iniciantes no mar, utilizando sua experiência na Marinha. Seu legado segue vivo nos Estados Unidos. (Reprodução)
Além da determinação, Nick ajudava os surfistas iniciantes no mar, utilizando sua experiência na Marinha. Seu legado segue vivo nos Estados Unidos. (Reprodução)

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