Um brinde ao ritmo

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Ainda era 28 de dezembro de 2021 quando eu recebi a lição mais importante para esse meu Ano Novo. Vamos, pegue seu copo. Encha como se enche um copo para um novo ano. Deixe chegar até a borda para que eu faça um brinde ao ritmo, que nos permite estar em constante movimento.

A lição se deu assim: eu estava voltando de viagem com minha família, depois de ficar 4 dias completamente offline, durante uma das temporadas mais intensas de trabalho da minha vida. Foram 5 semanas, entre 13 de dezembro e 11 de janeiro, em que o avanço da variante ômicron nos obrigou a dar guinadas radicais envolvendo 50 seres humanos no total. Algo que cancelou os planos de Natal e Réveillon de todo o time envolvido (e nos deixou mais perto de pedidos de divórcio por parte de parceiros frustrados com nossa ausência). Para garantir que chegássemos ao fim da missão, distribuímos 4 dias de descanso integral para cada membro do time. O meu se encerrava naquele 28 de dezembro, eu tinha acabado de ligar meu telefone, e as mensagens explicando imprevistos, problemas novos, decisões importantes a serem tomadas infestaram meu celular em segundos. Eu tinha que chegar em casa o mais rápido possível e receber a bola da próxima pessoa na fila do descanso, que sairia assim que a gente se atualizasse. De repente, demos de cara com um trânsito intenso na estrada, em um trecho sem internet. Eu estava absolutamente aflita, empurrando a fila de veículos em pensamento. Colei no caminhão que ia na minha frente e — um clássico! — o meu carro esquentou. O que é pior do que ficar parando de segundo em segundo num engarrafamento? Ter que parar de vez e esperar o carro esfriar para, só depois, pegar a estrada de novo.

O universo costuma ser meu amigo, e o carro parou de funcionar exatamente na frente de um bar, que estava fechado, mas tinha banheiros limpos e mesinhas em que a gente pôde descansar. As crianças estavam um bocado assustadas e, para acalmá-las, inventamos uma série de jogos de palavras. Me dei conta ali do quanto minha mente estava inquieta. Ao chegar em São Paulo, eu ia direto para uma reunião de trabalho. Fiquei imaginando a ansiedade com que chegaria se não tivesse sido obrigada a interromper a minha viagem e esfriar — o carro e a cabeça. Desacelerar.

Duas horas depois, quando pegamos a estrada novamente, eu sabia que tinha que seguir em frente com o trabalho, sem perder tempo, mas cuidando para não ter que parar.

A missão que entregamos no dia 11 de janeiro tem o potencial de impactar milhões de jovens. É algo que busca mudar uma estrutura sólida, dada como inescapável há 130 anos. Um normal, que gostaríamos de alterar.

No dia em que ficou clara a necessidade de fazer uma mudança radical (transformar em remoto um processo que estava, havia meses, desenhado para ser presencial) uma das perguntas que nos fizemos foi: é melhor cancelar? Nossas famílias, obrigadas a conviver com as consequências da nossa decisão de seguir em frente, talvez dissessem “sim”. O resultado seria manter as coisas como estão: a realidade dada como inescapável.

Por mais que as semanas entre 13 de dezembro e 11 de janeiro tenham sido as mais intensas da minha vida profissional e que eu espere que jamais se repitam, eu tomaria exatamente a mesma decisão, ali no momento em que tive de fazê-lo. Meu compromisso continua sendo encontrar formas de desenhar um mundo em que as pessoas tenham maior autonomia e melhor distribuição de riqueza. Por isso eu brindo hoje ao ritmo, para que nós possamos sempre seguir, no lugar de parar.

P.S. Enquanto estávamos na beira da estrada, pelo menos outros três carros também encostaram no bar. A maioria por problemas de aquecimento, mas um, em especial, porque a motorista viu um dos meus filhos com a camisa do Atlético Mineiro e parou para dizer: “E o Galo? O Galo ganhou! O Galo ganhou!” Que em 2022 a gente siga cantarolando celebrações ao glorioso campeão brasileiro de 2021!

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

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