Último time de Maradona brigava por título, mas meteu os pés pelas mãos

Jogadores do Gimnasia y Esgrima posam antes de partida pelo Campeonato Argentino (Foto: Marcelo Endelli/Getty Images)
Jogadores do Gimnasia y Esgrima posam antes de partida pelo Campeonato Argentino (Foto: Marcelo Endelli/Getty Images)

O estádio Juan Carmelo Zerillo foi inaugurado em 1924 e está longe de ter a qualificação para ser chamado de arena, mas seus arredores o transformam em um dos mais belos da América do Sul. Encravado no Parque del Bosque, está em uma das áreas verdes mais importantes da região metropolitana de Buenos Aires.

É um dos poucos orgulhos do dono do campo, o Gimnasia y Esgrima La Plata. A última equipe de Diego Maradona é daquelas que nas poucas vezes que consegue entrar em uma briga pelo título costuma meter os pés pelas mãos na hora decisiva. O clube tenta quebrar essa escrita em 2022, mas parece que os hábitos de criar confusão a partir do nada, continuam.

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“Gimnasia é o time do povo em La Plata, mas é incrível como tem a capacidade de se complicar sozinho e nos piores momentos”, afirma o ex-lateral e hoje técnico Guillermo Sanguinetti. Com 393 partidas, é o segundo jogador que mais vestiu a camisa da agremiação.

Sem títulos de expressão na era do profissionalismo (iniciada em 1931), o Gimnasia convive com o arquirrival que ganhou tudo: Estudiantes, seis vezes campeão nacional (um na época amadora), duas vezes vencedor da Copa da Argentina, quatro vezes dono do troféu da Libertadores e uma vez do Mundial.

“Mas nós tivemos o maior de todos como técnico. Eles, não”, defende Braian Alemán, meia atual do time, citando o período entre 2019 e 2020, quando Diego foi o treinador. Quando morreu, em 25 de novembro de 2020, aliás, ele estava no Gimnasia.

Alemán causou curiosidade quando, ao se lembrar da convivência com Maradona, citou elogio que jura ter recebido do campeão mundial de 1986: “Se eu tivesse um pé esquerdo como o seu, teria ido mais longe ainda”, teria dito o craque.

O Gimnasia é o atual quinto colocado do Campeonato Argentino a seis rodadas do fim, mas ainda está na disputa pelo título. Está a quatro pontos do líder, o improvável Atlético Tucumán. Mas a sensação é que a grande oportunidade pode ter sido perdida mais uma vez. Quando lutava pela primeira posição, os jogadores entraram em conflito com o presidente Gabriel Pellegrino.

Antes do jogo contra o Independiente, no início de setembro, o elenco decidiu não ir para a concentração. Era um protesto por causa dos salários atrasados. Pellegrino poderia ter adotado um discurso conciliador e negociado um acordo. Mas isso não seria Gimnasia. Ele jogou gasolina aditivada na fogueira. E pela imprensa. Ironizou o grupo, chamando-o de “dream team”.

“A dívida existe, mas eles precisam entender o momento. É um elenco que não vai para frente. O dream team que temos decidiu não concentrar e estou muito irritado. Vamos pagá-los, mas isso é a Argentina, não a Suíça. Vou quitar a dívida e então que eles conquistem o título e se classifiquem para a Libertadores”, reclamou, ao dizer que a dívida era de um mês e meio.

Em contato com o Yahoo Esportes, Pellegrino confirmou as declarações, mas não quis falar mais sobre o assunto. As mulheres dos atletas foram às redes sociais contestar o presidente.

O Gimnasia ganharia do Independiente mas, depois disso, dos quatro jogos seguintes, perderia três.

Maradona era amigo de Pellegrino e apenas foi dirigir a equipe por causa do dirigente. Quando este ameaçou deixar o cargo, o campeão mundial disse que iria embora junto, se fosse o caso.

No meio da campanha da busca pelo primeiro título relevante da era profissional (o único foi em 1929), apareceu a notícia que o cartola havia iniciado romance com Rocio Oliva, a última espota de Maradona. Segundo Matías Morla, advogado do 10, Diego morreu ainda apaixonado por ela.

Pellegrino não quis comentar o assunto.

“Quando a gente ganha em campo, tudo se esquece. Se os resultados começam a não acontecer, essas coisas vêm à tona. Não me preocupo com isso, não. O futebol argentino sempre tem problemas econômicos e quando estávamos em primeiro ou segundo, a situação era a mesma”, disse Nestor Gorosito, técnico do Gimnasia.

O desempenho ofensivo mostrado pela equipe durante o campeonato fez com que aparecesse o apelido Piponeta Champagne para o time. Gorosito chegou a compartilhá-la no Twitter.

Nas paredes em volta do Estádio do Bosque, nome popular do campo do Gimnasia, as pinturas de Maradona estão por todos os lugares. Afinal, ele cumpriu uma promessa feita assim que chegou a La Plata: evitaria o rebaixamento. A situação era dramática. Em campo, a queda aconteceu, mas a AFA (Associação de Futebol Argentino) promoveu mais uma virada de mesa e ninguém acabou relegado à segunda divisão.

Foi como um título, assim como ter a imagem de Maradona atrelada a do clube.

“Diego foi uma benção para o Gimnasia. Que ele tenha passado por aqui e o que trouxe ao clube, não tem preço”, constata o presidente.