Uefa se rende aos grandes clubes para não perder prestígio nos seus torneios

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Você já deve ter ouvido falar da reforma que a Liga dos Campeões sofrerá nos próximos anos. A ideia da Uefa é premiar ainda mais as competições mais bem ranqueadas, o que proporcionará um aumento de vagas diretas para as quatro grandes ligas: Itália, Inglaterra, Espanha e Alemanha.

Atualmente, a Itália tem apenas duas vagas diretas e a terceira é para a repescagem antes da fase de grupos. A medida é bem impopular e prejudica outros países com menor tradição. Mas é um passo para que a Champions sobreviva às novas exigências dos clubes gigantes.

A reforma é considerada uma ameaça aos pequenos por um simples fato: os mais ricos das principais ligas serão privilegiados. O futebol europeu já é bem desigual desde o começo da década de 1990, quando foi instituído um novo formato para a Champions. Ao fim da década e no começo dos anos 2000, torneios como a Recopa Uefa e a Intertoto foram extintos, acabando com chances de títulos dos mais modestos.

Como se não bastasse a desigualdade financeira dentro das próprias ligas nacionais, agora a Europa não está mais tão ao alcance de todos. Isso também ajuda a explicar a repetição de finalistas nos torneios organizados pela Uefa. Aí você, amigo leitor, se pergunta: como foi que as coisas caminharam tão rápido para as mesmas mãos de sempre? Há um movimento entre os clubes mais ricos que traça um outro caminho paralelo à Uefa. Eles queriam planejar em longo prazo uma competição que reunisse apenas o suprassumo do futebol no continente, envolvendo os maiores vencedores e as principais potências financeiras.

A “Superliga” estava tomando forma e ganhando adesões ilustres, mas acabou sendo desmantelada em seu embrião graças a um esforço da Uefa. Um esforço que soa mais como a reação a uma espécie de chantagem velada. Os mais ricos querem um faturamento ainda maior e um ambiente mais competitivo. Analisando esta intenção com o nível apresentado na primeira fase da Champions, eles podem até ter um pouco de razão, tendo em vista as goleadas e a disparidade técnica dos concorrentes. Entretanto, o que seria do futebol sem os nanicos que eventualmente brilham no cenário internacional? A consequência desta Superliga que estava sendo tramada é o total sufocamento das forças médias e pequenas em cada país.

Fora do eixo França-Inglaterra-Itália-Espanha-Alemanha sobra muito pouco. Quantos times fortes você viu saindo de outros países nos últimos anos? Fortes no sentido de competitivos, ricos ou que brigaram por títulos em decisões ou até mesmo semifinais? Poucos. E geralmente restritos à Liga Europa, o torneio secundário da Uefa.

O que a Uefa planeja com a reformulação da Champions e as tais quatro vagas diretas para as quatro melhores Ligas é basicamente atender às exigências do seleto clubinho bilionário composto por equipes como Real Madrid, Barcelona, Bayern, Paris Saint-Germain, Juventus, Chelsea, Manchester United, City entre outros. Um homem liderava esta frente para defender os interesses da classe: Karl-Heinz Rummenigge, ex-atacante alemão que encabeça a Associação Europeia de Clubes. Segundo ele, a Superliga morreu (por agora) porque estes dirigentes que estão reunidos se sentem protegidos pela Uefa com o novo formato.

O cartola foi categórico e até um pouco demagogo na sua escolha de palavras sobre o tema: “É uma decisão justa e séria, que mostra a solidariedade dos clubes europeus. A reforma vai tornar a Liga dos Campeões mais atrativa do que nunca”, ainda colocando a cereja no bolo ao dizer que os pequenos e médios serão beneficiados com isso. Mas espere aí: quais pequenos se beneficiariam com isso? Apenas os dos grandes centros, isso posto que se classificassem para a competição.

Um rápido exercício de projeção. No cenário atual das quatro ligas melhores ranqueadas (Espanha, Alemanha, Inglaterra e Itália, nesta ordem), se classificariam: Real Madrid, Barcelona, Sevilla, Atlético de Madrid, Bayern de Munique, Leipzig, Dortmund, Hoffenheim, Chelsea, Tottenham, Manchester City, Liverpool, Juventus, Roma, Napoli e Lazio. Destes todos, apenas Leipzig e Hoffenheim podem ser configurados como “pequenos”. Só neste grupinho, já saem 16 clubes para a Champions, quase metade do total de competidores. Aí temos os franceses, portugueses, holandeses, que ocupam uma posição menos favorável e logicamente dispõem de menos representantes nestas frentes.

Ao entregar a Champions na mão destas quatro nações, a Uefa não está pensando em uma saída para evitar a morte lenta dos que não jogam suas competições anualmente. Está apenas tomando uma atitude desesperada para não perder o prestígio diante de uma emergente coalisão, o chamado “G14” dos ricos e poderosos.

Quando se fala em futebol europeu, os resultados podem até sugerir que há um restrito grupo que disputa entre si estas taças. Mas historicamente e até mesmo levando em conta o contexto nacional de cada um, existem muitas agremiações que estão seriamente ameaçadas com este novo modelo. Matar os menores não é só uma grande injustiça, mas um desrespeito a tudo que o futebol representa para os povos. O esporte não é só o que passa na TV para o mundo todo.