Turfe volta no Rio em meio a decreto e gera atrito entre clube e prefeitura

Jonas Moura
LANCE!


Enquanto o futebol e outros esportes se desdobram para encontrar medidas eficazes de segurança sanitária com o objetivo de retomar competições, o turfe se mantém como opção de entretenimento para quem está em casa e cria um impasse entre o Jockey Club Brasileiro e prefeitura do Rio de Janeiro.

No último domingo, o clube voltou a receber páreos no Hipódromo da Gávea, apesar das medidas de restrição social da prefeitura e do governo do estado, devido à pandemia da COVID-19. Em São Paulo e outras cidades do país, as atividades nem chegaram a parar.

As disputas acontecem sem presença de público e, segundo o clube carioca, seguem recomendações das autoridades de saúde. É obrigatório o uso de máscaras e luvas por todos os envolvidos, como jóqueis, diretores, treinadores e veterinários, e distanciamento "mínimo" entre as pessoas.

O problema é que as corridas de cavalo não são enquadradas nos chamados serviços essenciais, de modo que os clubes podem ter de arcar com as consequências jurídicas da decisão. No dia 30 de abril, o governo do estado do Rio prorrogou as medidas de restrição social até 11 de maio, enquanto o município as estendeu até 15 de maio.

As apostas são feitas somente pela internet e por telefone, para evitar aglomerações. Para o retorno, foram inscritos 278 animais. Outros páreos acontecem nesta segunda-feira. É possível acompanhá-los pelo Facebook do Jockey. O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, disse que o procurador Geral do Município fará pedido à Justiça para que a diretoria obedeça ao decreto.

Ao anunciar a volta das atividades, o clube explicou que estaria proibida a entrada de "sócios, proprietários, criadores, parentes e familiares de profissionais do turfe, agentes de montaria e qualquer pessoa estranha à atividade nas áreas do Hipódromo da Gávea, assim como toda e qualquer circulação de pessoas por outras áreas do local, e qualquer tipo de aglomeração, respeitando-se as regras de distanciamento e cautela".

Há dois argumentos centrais para que as corridas ocorram em meio à pandemia, no momento em que o sistema de saúde do município beira o colapso: a necessidade de submeter os cavalos a exercícios, para evitar que contraiam doenças como cólica ou laminite, que podem levá-los a óbito, e a falta de apoio financeiro a quem vive do turfe.

Os defensores da reabertura argumentam que a rotina não foi alterada com a retomada, uma vez que o mesmo número restrito de pessoas nas provas já comparece ao local diariamente para atender aos animais.

– Todos os funcionários que já estão trabalhando no Jockey no dia a dia trabalham na corrida, não tem ninguém a mais. E os cavalos são atletas, eles precisam se exercitar. Quem regula nossa atividade é o Ministério da Agricultura. Imagine um cavalo 60 dias fechado? É uma questão sanitária animal – afirmou o diretor do Jockey, Marcelo Beloch, ao "Globo Esporte".















Segundo o dirigente, as pessoas que trabalham e moram no Jockey são as que participam das provas. O LANCE! solicitou à assessoria de imprensa do clube entrevista com algum porta-voz para pedir explicações adicionais, como, por exemplo, se todas as pessoas envolvidas nas corridas de fato moram no local, ou se precisam se deslocar. Ainda não obteve resposta.

A prefeitura informou que os estabelecimentos que descumprem as normas fixadas para contenção da pandemia são autuados com multa diária no valor de R$ 891,59. O órgão informa ainda que os mesmos "poderão ser interditados e, em caso de desobediência, ter uma notícia-crime encaminhada à delegacia e ao Ministério Público, e terem, até mesmo, o alvará de licença para estabelecimento cassado.

Os infratores também podem responder pelo crime de infringir determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa, conforme previsto no art. 268 do Código Penal.

Na semana passada, a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, através da Superintendência de Defesa Agropecuária, prometeu a interdição do local, de modo que as atividades ficariam suspensas até o dia 11 de maio.

Em São Paulo, o Jockey Club da cidade também tem realizado páreos. O governo do estado diz que o descumprimento das medidas restritivas é passível apenas de fiscalização e orientação educativa. Em Porto Alegre, as corridas chegaram a ser paralisadas, mas voltaram em abril.

Fora do Brasil, a situação varia. A Inglaterra, onde o turfe tem grande tradição, e a Alemanha decidiram suspender os páreos e avaliam a reabertura dos hipódromos para este mês. Nos Estados Unidos, há corridas sendo realizadas em vários estados, como Flórida, Arkansas e Oklahoma.











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