Trump e sua luta contra os princípios econômicos do Partido Republicano

Delphine TOUITOU
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Donald Trump durante ato de campanha em West Salem, Wisconsin, em 27 de outubro de 2020
Donald Trump durante ato de campanha em West Salem, Wisconsin, em 27 de outubro de 2020

O presidente americano, Donald Trump, levou o Partido Republicano a sacudir os alicerces de seu pensamento econômico com uma abrangência poucas vezes vista. Seja no tema do livre comércio, da imigração ou da ortodoxia fiscal, ele mudou a identidade do "Grand Old Party".

O presidente "afastou o Partido Republicano de seus princípios econômicos, tais como o apoio ao livre comércio, os limites ao gasto público e uma intervenção escassa do governo na economia", resumiu Eswar Prasad, economista e professor da Universidade de Cornell. 

Há quase quatro anos, Trump preferiu o protecionismo ao livre comércio, impondo tarifas alfandegárias punitivas a milhares de produtos chineses e europeus.

E o equilíbrio fiscal? Ficou para 2035 no lugar de 2030, inclusive antes dos megapacotes de ajuda econômica, decididos para mitigar os efeitos da pandemia do novo coronavírus.

A dívida? No começo de 2019, disse que não era uma preocupação porque tinha que fortalecer as Forças Armadas, e justificou desta forma o vertiginoso aumento do passivo.

No entanto, em janeiro de 2013, o próprio Trump criticava seu partido no Twitter: "Não posso acreditar que os republicanos aumentem o teto do endividamento. Sou republicano e me incomoda muito".

Pouco antes, em 2012, criticou Barack Obama pelo déficit nas contas públicas. "Os déficits de @barackobama são os mais altos da história dos Estados Unidos. Por que leva nosso país para a falência?", escreveu na mesma rede social.

É algo "nunca visto no passado recente", disse Prasad. O Partido Republicano (GOP) parece ter "abandonado alguns de seus princípios econômicos fundamentais em benefício da promoção de seu programa social e o corte de impostos, a desregulamentação e uma inclinação do sistema judicial para a direita", explicou.

Seja qual for o resultado das eleições de terça-feira, Trump terá mudado por muito tempo "a substância e o tom do Partido Republicano", concluiu.

- "Poucas ideias" -

"O Partido Republicano nunca mais será o que era antes" da Presidência de Trump, destacou Edward Alden, especialista do Council on Foreign Affairs.

O presidente tem "uma ideologia particularmente confusa", disse.

Para Geoffrey Gertz, especialista da Brookings Institution, o ataque ao livre comércio foi "provavelmente a ruptura mais clara de Trump com a política econômica" republicana, embora não tenha tido o efeito esperado, já que o déficit comercial cresceu 22,8% entre 2016 e 2019.

Houve, ainda, incontáveis comentários e tomadas de posição que não se traduziram necessariamente em políticas, acrescentou.

Ao se apresentar como opositor ao liberalismo extremo nas finanças, colocou-se como o defensor dos afetados pela crise de 2008.

Na terça-feira passada durante um ato de campanha em Wisconsin, Trump voltou a usar o mesmo recurso, tentando se descolar das elites políticas.

"Se não soo como um político clássico de Washington é porque não sou um político", disse a seus partidários. "Se não sigo as regras do 'establishment' de Washington é porque fui eleito para lutar por vocês!", exclamou.

Mas por trás destas mensagens populistas, "o Partido Republicano está escasso de ideias", disse Alden, ao destacar que o presidente não apresentou um programa econômico para a eleição de 2020, enquanto seu adversário, o ex-vice-presidente democrata Joe Biden, dispõe de um plano detalhado.

Poderiam passar décadas até que o GOP (Grand Old Party) reformule um "pensamento econômico coerente", segundo Alden.

"É preferível para a democracia americana contar com dois partidos concorrentes com ideias econômicas bem distintas", concluiu.

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