Tri da seleção no México começou com tédio e confusão em Guanajuato

ALEX SABINO
Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mario Jorge Lobo Zagallo, então técnico da seleção brasileira de futebol, ficou desolado ao ver o gramado da Universidade de Guanajuato em 8 de maio de 1970.

A 26 dias da estreia da equipe no Mundial do México, o gramado que deveria ser usado na reta final da preparação estava cheio de buracos mesmo após a CBD (Confederação Brasileira de Desportos, antecessora da CBF) ter pago pela reforma do campo.

A comissão técnica concluiu que seria impossível utilizá-lo para treinos coletivos. "Isso aqui é o fim do mundo", disse o administrador José de Almeida, integrante da delegação.

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Com população de 65 mil pessoas no começo daquela década, a cidade, a 2.000 metros de altitude, serviria como base do período da adaptação para o ar mais rarefeito da capital do país, a Cidade do México (2.250 metros), onde aconteceria a final.

"Era um lugar calmo. Mas calmo demais. Fomos bem recebidos pelas pessoas e funcionários do hotel. Mas não havia nada o que fazer. Todo mundo ficou entediado", afirma Wilson Piazza, que atuou no torneio como zagueiro.

Ele se refere ao Hotel Parador San Javier, com seus muros altos, portões de ferro e isolamento total. A não ser nos horários dos treinos ou das refeições, as únicas distrações dos atletas eram partidas de tênis de mesa, baralho e voleibol. Por causa das condições do campo na universidade, os treinos com bola foram transferidos para Leon, o que provocava viagens de 80 km diárias entre ida e volta.

Zagallo chegou a dizer à imprensa que seria melhor se preparar para a altitude em Toluca ou na Cidade do México e culpou a comissão técnica anterior, comandada por João Saldanha, pela escolha de Guanajuato. Pressionado pelos dirigentes da CBD, afirmou no dia seguinte que a cidade era agradável.

"O problema é que realmente era tudo muito parado. Antes a gente estava em Guadalajara. Não saíamos do hotel, mas era um lugar mais movimentado, havia gente no hotel", relembra o atacante Jairzinho, que se transformaria em titular com a contusão de Rogério, o favorito de Zagallo, e faria gol em todas as partidas da Copa.

Rogério virou outra preocupação em Guanajuato. Quando ficou claro que teria problemas para se recuperar de lesão na coxa antes da estreia contra a Tchecoslovária, em 3 de junho, ele começou a se deprimir. Chegou a pedir para voltar ao Brasil. Para animá-lo, o treinador pediu que observasse os futuros adversários e tirasse fotos de seus posicionamentos.

Funcionários do hotel disseram aos jornalistas da época que o mais tranquilo dos jogadores brasileiros com o sossego de Guanajuato era Pelé. Segundo eles, o camisa 10 passava horas escrevendo cartas a familiares e amigos.

A CBD cogitou antecipar a volta para Guadalajara, mas continuou na altitude até 27 de maio, um dia a menos que o previsto.

"Era uma cidade com pouquíssima gente e não havia o que fazer. Mas era tranquilo, talvez o que precisássemos naquele momento. Era treinar, treinar, treinar e descansar. A rotina era diferente da que estávamos acostumados nas grandes cidades. Nosso único convívio era com a imprensa", afirma Clodoaldo.

Os jornalistas brasileiros protagonizaram a maior polêmica com o elenco na cidade, após fazerem uma partida contra a comissão técnica no campo do hotel. Logo após o jogo, Jairzinho, que apenas assistia, percebeu que havia perdido o seu relógio, comprado em Manaus. Apesar da procura, ninguém encontrou o objeto.

No dia seguinte, policiais mexicanos foram ao hotel onde estavam os jornalistas e pediram a lista de todos os que estiveram presentes no amistoso. Eles entenderam que estavam sendo acusados de roubo, e uma confusão instaurou-se. Não contribuiu para apaziguar os ânimos a declaração do jogador, de que o amistoso não deveria ter acontecido.

O relógio foi achado logo depois, caído no campo. Antonio do Passo, presidente da comissão que acompanhava a equipe, ofereceu um café da manhã da paz aos repórteres.

Apesar de alguns jogadores contarem os dias para sair de Guanajuato, outros não consideraram aquele o período mais enfadonho da preparação para o Mundial.

"Nós ficamos concentrados no Rio de Janeiro antes da viagem em um retiro de padres em São Conrado, no alto de um morro. Você pode imaginar o que era isso? Não havia nada para fazer. Nós íamos e voltávamos dos treinos dentro de kombis", completa Clodoaldo.

Era tão tedioso que o jeito encontrado pelo zagueiro Brito para dar alguma emoção era gritar "vamos dar um voo cego no motô!" e tapar os olhos do motorista durante a descida do morro.

"Como tudo deu certo no fim e fomos campeões, creio que era essa a concentração, no Rio e em Guanajuato, que precisávamos antes da estreia", constata o volante.

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