Tri com 'supertime', Curry vive ano histórico brigando por décimo lugar

MARCOS GUEDES
·4 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Stephen Curry é tricampeão da NBA. Eleito o mais valioso jogador da liga americana de basquete em duas temporadas, em uma delas conduziu o Golden State Warriors à melhor campanha da história do torneio, com 73 vitórias e 9 derrotas na fase de classificação.

No atual campeonato, o time californiano sofre para alcançar 50% de aproveitamento, com 31 triunfos em 62 partidas até a conclusão desta edição. A briga é apenas pelo décimo lugar da Conferência Oeste. E a versão 2021 de Curry talvez seja a mais impressionante de toda a sua carreira.

Aos 33 anos, o armador já não faz parte de um "supertime", como foi o Golden State que enfileirou taças entre 2015 e 2018. Sem a ajuda de velhos companheiros, como o lesionado Klay Thompson e o agora rival Kevin Durant, ele carrega a equipe em árdua luta para mantê-la relevante.

Dos colegas da conquista do tri, só Draymond Green continua ao seu lado. Rodeado de jovens como o ainda instável James Wiseman, 20, Curry assumiu uma responsabilidade ofensiva maior, e o resultado tem sido espetacular.

Com 31,2 pontos por jogo, ele trava uma disputa equilibrada com Bradley Beal, do Washington Wizards, pelo posto de cestinha da temporada. Em abril, sua produção atingiu níveis históricos, sobretudo na sua especialidade, o tiro de longa distância.

Ninguém nunca havia acertado tantos arremessos de três pontos em um mês. Foram 90 bolas desse tipo convertidas nas primeiras 14 partidas de abril --a 15ª e última seria disputada na noite desta quinta-feira (29), contra o Minnesota Timberwolves.

Nessa sequência, o camisa 30 converteu ao menos dez bolas de três em quatro oportunidades. Ele conseguiu isso outras duas vezes na temporada e um total de 21 na carreira. A título de comparação, o segundo colocado na lista é Klay Thompson, que obteve o feito cinco vezes na vida.

Os números ficam mais impressionantes se levada em conta a ausência nos Warriors de outra força ofensiva capaz de dividir a atenção das defesas. Os adversários enfrentam o Golden State com o claro propósito de impedir os arremessos de Curry.

O armador usa sua habilidade no controle da bola para iludir a marcação. Sua técnica de lançamento é veloz. A precisão é notória. Embora nada disso seja novidade, a fase é excelente até para o elevadíssimo padrão do jogador.

E o que passa na cabeça do craque em um momento no qual seu aproveitamento atinge patamar inédito? "Nada."

"Quando está nesse tipo de ritmo, você não pensa em nada. É simplesmente achar um espaço decente e posicionar os pés. O resto é memória muscular, confiança e criatividade", explicou. "Quando você está errando, é aí que começa a pensar na mecânica do arremesso, começa a pensar em outras coisas."

O atleta acertou 48,9% dos arremessos de três que tentou até aqui. Ele não é o primeiro colocado na estatística (Joe Harris, do Brooklyn Nets, lidera com 51,2%), mas tem um volume de tiros muito maior e cria as próprias oportunidades, diferentemente de Harris.

Curry tem ainda médias de 5,5 rebotes e 5,7 assistências e é a grande razão de os Warriors estarem vivos no campeonato. Neste ano, as equipes entre o sétimo e o décimo lugar de cada conferência disputarão um minicampeonato pelas vagas nos mata-matas.

O Golden State hoje está no limite para entrar no chamado de "play-in". Não é nem de longe favorito ao título, mas nenhum dos candidatos quer ter pela frente o armador.

O chefe também está impressionado. O técnico Steve Kerr, que era um grande arremessador em seus tempos de jogador, não se cansa de elogiar o atleta. "Não tenho mais maneiras de descrever o jogo do Steph. Vou parar de tentar. Mas eu sei que vocês precisam continuar perguntando", disse.

Kerr recordou momentos em que os lendários Michael Jordan e Kobe Bryant também se mostraram imparáveis antes de apontar que nem eles tinham a precisão do comandado: "Ninguém nunca arremessou assim na história do jogo".

Em seu memorável abril, Curry deixou para trás o próprio Kobe, tornando-se o primeiro atleta com ao menos 33 anos a marcar 30 ou mais pontos em 11 jogos seguidos. Bryant havia atingido os 30 pontos em dez partidas consecutivas, em 2012. E superou outro nome histórico, Wilt Chamberlain, que liderava os Warriors em pontos, com 17.783. Na noite em que ultrapassou o pivô, o armador fez 53 pontos, atingiu 17.818 e não parou.

Restam nove partidas para o Golden State fechar a fase de classificação e proteger a décima colocação. Não é muito para quem se acostumou a atropelar adversários, mas cada arremesso de Curry tem sido necessário na luta pela vaga no pré-mata-mata.