Transexual negra é expulsa de casa de acolhimento e denuncia racismo e abuso de poder

Alma Preta
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A mulher de 35 anos foi a única pessoa obrigada a deixar o espaço após se envolver em uma agressão que resultou de uma série de humilhações sofridas por ela no espaço da Prefeitura de São Paulo
A mulher de 35 anos foi a única pessoa obrigada a deixar o espaço após se envolver em uma agressão que resultou de uma série de humilhações sofridas por ela no espaço da Prefeitura de São Paulo

Texto: Victor Lacerda Edição: Nataly Simões

Larissa Lee, de 35 anos, é uma mulher transexual e negra que ocupava uma das 30 vagas oferecidas pela Casa Florescer II, espaço dedicado ao acolhimento e acompanhamento psicossocial e educativo de mulheres trans e travestis no Tucuruvi, zona norte da cidade de São Paulo. Após desentendimento com outra beneficiada pelo projeto, que é branca, Larissa relata ter sido expulsa do local.

De acordo com ela, a expulsão neste mês de outubro foi resultado de uma série de humilhações e preconceitos que sofria desde que chegou na casa, em abril. Larissa conta que as sucessivas tentativas de constrangimento por parte de outra beneficiada do espaço culminou em uma agressão física de sua parte.

“Devido a um tratamento para tuberculose ganglionar e pulmonar, que tive no ano passado, tomei muitos medicamentos, o que causou a perda dos meus dentes. Na Casa Florescer, pela pessoa com quem discuti, diversas vezes fui chamada de sem dentes”, lembra.

Segundo Larissa, em retaliação ao ato, a transexual não recebeu encaminhamentos disciplinares ou de recebimento em outra unidade com atendimento semelhante, e foi expulsa. A dúvida da ex-beneficiada da Casa Florescer II sobre o desfecho do caso vai de encontro com a racialidade. “A regra da casa era simples. Caso brigássemos, todas as partes envolvidas deveriam sair de casa. E porque só eu tive de sair?”, questiona.

Em desabafo, a transexual ainda relata que as conviventes da casa já presenciaram casos de opressão da atual gestão com os funcionários contratados e o comportamento perdurava para as conviventes.

Em lives promovidas para angariar fundos e dar o pontapé inicial fora da casa de acolhimento, Larissa diz ter sido coagida pelo atual gestor do espaço. “Nós não tínhamos nada, precisávamos de apoio para depois recomeçarmos a nossa vida do zero. Em uma das campanhas, tive que escutar que, se eu conseguisse uma prótese para os meus dentes, qualquer ajuda financeira ficaria na casa. Não sairia comigo”, revela.

Atualmente desamparada, Larissa conseguiu receber um auxílio da Casa Florescer no valor de R$ 300. A quantia não é suficiente para mantê-la em condições básicas na cidade mais rica do país. Para ajudar na renda mensal, ela conseguiu um emprego informal de entregar panfletos, o que lhe rende R$ 70 por dia de trabalho.

Sobre o caso de expulsão da casa, um boletim de ocorrência foi feito junto à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi).

O Alma Preta procurou a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, da Prefeitura de São Paulo, para saber o posicionamento da pasta sobre a expulsão apenas de Larissa e sobre as denúncias de discriminação e abuso de poder relatadas por ela. Até a publicação deste texto, os questionamentos da reportagem não foram respondidos.