Sacrifício e ajuda à família: a dura vida dos trabalhadores imigrantes da Copa do Catar

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Trabalhadores imigrantes de Bangladesh e Paquistão, em frente às obras do estádio Lusail, no Catar (Tiago Leme)
Trabalhadores imigrantes de Bangladesh e Paquistão, em frente às obras do estádio Lusail, no Catar (Tiago Leme)

Por Tiago Leme (@tiago_leme), de Doha, no Catar

Em frente às obras do estádio de Lusail, no Catar, que vai receber a final da próxima Copa do Mundo, no dia 18 de dezembro de 2022, um grupo de seis trabalhadores demonstrava cansaço e um semblante abatido enquanto manuseava materiais de construção. No local que daqui a menos de três anos pode receber craques como Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar diante de milhares de torcedores, eram os coletes amarelos de humildes operários, vindos principalmente de países subdesenvolvidos da Ásia, que se destacavam em uma região praticamente deserta. No contraste do luxo com a pobreza, passando pela polêmica da exploração de imigrantes na preparação do Mundial de futebol no país, a esperança de ajudar a família é que faz esses trabalhadores se sacrificarem em uma dura rotina de trabalho e condições precárias de vida.

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Quando o time do Yahoo Esportes se aproximou, os operários estranharam a presença de um turista estrangeiro em uma área que hoje é um canteiro de obras, com pouquíssimas pessoas nos arredores. Lusail é uma cidade que está sendo construída em torno do moderno estádio que terá capacidade para 86 mil pessoas, localizado a 20km do centro da capital Doha. Depois da identificação como jornalista, no início eles ficaram meio receosos em falar, mas conforme a conversa foi fluindo, histórias de vida, lamentos e sonhos foram se revelando. Eram cinco trabalhadores nascidos no Bangladesh e um no Paquistão, países com pobreza extrema. Mohamad Amran, de 31 anos, o mais comunicativo deles e que falava inglês melhor, resumiu bem seus sentimentos e objetivos.

“O Catar nos deu a oportunidade de um trabalho melhor do que temos em Bangladesh, lá é muito difícil, infelizmente. Não é um trabalho fácil, é cansativo, mas é a única opção que temos na vida para ganhar mais dinheiro e mandar para ajudar a família. É um sacrifício válido, por alguns anos, mas quero voltar pra casa logo pra ficar com minha mulher e filhas, dar melhores condições para elas. Sai muito caro trazê-las pra cá, não tem jeito. Tenho uma filha de quatro anos e outra de nove e quero que elas tenham no futuro uma qualidade de vida melhor do que a minha”, afirmou.

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Amran contou que, assim como a maioria dos operários deste nível mais simples, ele ganha por mês um salário de 1.500 rials catarianos, a moeda local, equivalente a R$ 1.700 ou 400 dólares. São pelo menos oito horas de trabalho por dia, com uma folga por semana. Deste dinheiro, ele explicou que consegue guardar cerca de 800 rials a cada mês, pouco mais da metade do que recebe, e o restante é gasto com hospedagem, alimentação e quase nada em lazer. A despesa com aluguel do local onde ele mora é de 250 rials mensais, em um quarto que ele divide com 12 pessoas, em uma casa que tem 11 quartos e zero conforto.

No sul de Doha, fica o bairro chamado de Labour City (Cidade do Trabalho), também conhecido como Asian Town, um conjunto habitacional onde vivem cerca 70 mil operários que vieram de fora do país, a maioria de países como Índia, Bangladesh e Nepal, empregados na construção civil. O complexo foi construído pelo governo exclusivamente para abrigá-los e conta com shopping center, teatro, cinema, mesquita e campo de cricket (esporte tradicional nesses países asiáticos), fazendo com que esses imigrantes pouco se misturem com os cidadãos locais. Em um contraste radical de ambiente, a 20km dali estão modernos prédios e arranha-céus espaçosos na região de West Bay e principalmente no The Pearl (A Pérola), onde moram os Cataris e os estrangeiros com empregos melhores, como jogadores de futebol e funcionários da área de petróleo, gás natural e tecnologia. Vale citar que mais de 80% da população de 2,7 milhões de habitantes do Catar é formada por estrangeiros, e a minoria local faz parte da elite com excelente condição financeira.

Durante a tarde da conversa do Yahoo Esportes com os trabalhadores, no meio de muita areia e poeira ao lado do estádio Lusail, de uma estação de metrô recém-inaugurada e uma rodovia ainda semi-pronta, fazia sol e o calor era de 23 graus Celsius no inverno do Oriente Médio, em dezembro, época que será disputada a Copa de 2022. Temperatura bem mais amena do que os 50 graus que podem fazer em julho, quando normalmente a competição é disputada. A Copa mudou de data desta vez para o verão não castigar os atletas, mas durante todos esses anos o sol a pino tem feito vítimas no trabalho incessante da construção de estádios e outras estruturas.

De acordo com números não oficiais, até agora quase 3.000 pessoas já morreram durante as obras da Copa do Catar, por motivos não explicados exatamente, mas há denúncias de que problemas respiratórios e paradas cardíacas tenham acontecido por causa do calor do forte calor. O Comitê Organizador nega as acusações de trabalho escravo, mas admite alguns erros. Por exemplo, uma das maiores críticas de organizações de direitos humanos era o esquema de “kafala”, que não permitia ao operário mudar de trabalho ou mesmo deixar o país sem autorização do seu empregador, mas essa lei foi extinta em outubro de 2019. Também foi introduzido no país um salário mínimo sem discriminação por nacionalidade. Com isso, os direitos dos trabalhadores sofreram algumas alterações na legislação, dando melhores condições a eles. 

O estádio Lusail, nos arredores de Doha, será o palco da final da Copa do Mundo de 2022 (Tiago Leme)
O estádio Lusail, nos arredores de Doha, será o palco da final da Copa do Mundo de 2022 (Tiago Leme)

“A Copa do Mundo é catalisadora para mudanças positivas. Nos últimos dez anos, alterações significativas que aconteceram nas condições de trabalho fizeram nossos maiores críticos reconhecerem o comprometimento do Catar e as mudanças que aconteceram. Temos muito a fazer, mas ninguém pode negar nosso comprometimento com mudanças", afirmou Hassan Al Thawadi, secretário-geral do Comitê Organizador da Copa de 2022, em entrevista durante o Mundial de Clubes, em dezembro.

Ninguém do grupo de operários asiáticos que conversamos quis se alongar muito ao serem questionados sobre essas mortes, mas deram a entender que, mesmo sabendo dos riscos, não possuem outra alternativa a não ser continuar lutando.

“Não sei. Não conheço ninguém que passou por isso (morte). A gente escuta algumas coisas, mas não sabemos muito. O calor realmente é forte no verão, mas descansamos um pouco quando está muito quente”, disse Mohamad Aminuslim, também de Bangladesh.

Antes da despedida, o time de capacetes e coletes amarelos até esboçou um sorriso enquanto comia um sanduíche e falava de futebol nos poucos minutos de pausa do trabalho, em um raro momento de descontração. Porém, os semblantes fechados e a seriedade logo voltaram quando eles posaram para uma foto juntos a pedido da reportagem. Na mensagem final de Mohamad Amran, uma mensagem com sinal de orgulho pelo trabalho realizado e, ao mesmo tempo, a esperança de uma vida melhor.

“Volte aqui daqui a três anos que você vai ver tudo isso pronto, vai estar bem bonito. Tenho certeza que todo mundo vai gostar. Infelizmente, sei que não conseguirei entrar para ver os jogos, os ingressos são caros. Então, eu vou finalizar minha missão aqui e em breve estarei de volta ao meu país, com minha família, para esquecer os momentos ruins e aproveitar a parte boa!”

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