Torneio com seleção em SP é bancado por lei de incentivo

DIEGO GARCIA E JOÃO GABRIEL
Folhapress
SÃO PAULO, SP - 28.08.2019: Técnica Pia Sundhage, da seleção brasileira, dá entrevista antes do amistoso contra a Argentina, no Pacaembu. (Foto: Van Campos/Fotoarena/Folhapress) ORG XMIT: 1785811
SÃO PAULO, SP - 28.08.2019: Técnica Pia Sundhage, da seleção brasileira, dá entrevista antes do amistoso contra a Argentina, no Pacaembu. (Foto: Van Campos/Fotoarena/Folhapress) ORG XMIT: 1785811

RIO DE JANEIRO, RJ, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O jogo que marca a estreia da treinadora sueca Pia Sundhage no comando da seleção brasileira, nesta quinta-feira (29), às 21h30, no estádio do Pacaembu, em São Paulo, não irá gerar, segundo a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), receita para a entidade.

Organizado por uma empresa parceira da confederação, a Sport Promotion, e pela Fif7 (Federação Internacional de Football 7 Society), o torneio, que abre com a partida da equipe nacional, captou dinheiro público via Lei de Incentivo ao Esporte.

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Esse mecanismo permite que empresas e pessoas físicas repassem valores de pagamentos de impostos para projetos esportivos.

A CBF não usa diretamente verba via Lei de Incentivo e diz não receber dinheiro público para suas atividades e eventos. Assim, o controle de seus gastos não está sujeito a normas públicas de transparência.

"A CBF não usa e jamais usará dinheiro público em suas questões particulares. Por que ela não quer, tem seu próprio mecanismo de trabalho, ela não quer ingerência, não quer que amanhã alguém diga que ela usa dinheiro público", afirma Marco Aurélio Cunha, coordenador da seleção feminina da entidade.

O jogo da equipe gerenciada por Cunha será bancado com o incentivo público, por meio de um projeto aprovado pelo governo federal e que permite e captação de verbas junto a empresas.

Criada em 2006, a Lei de Incentivo proíbe a arrecadação por parte de empresas privadas -estas devem participar apenas como contribuintes. A entidade que recebe a verba é obrigada a prestar contas ao governo federal.

Sem a CBF na organização do evento, a Sport Promotion, parceira da confederação em outros negócios, promove a competição junto com a Fif7. Antes, a federação realizou competições de modalidades de futebol de 7 e de areia.

"A única relação com CBF é que somos os organizadores de um torneio em que a seleção feminina do Brasil participa", afirma Marcelo Sangiovanni, vice-presidente da federação.

O torneio terá ainda as seleções de Chile, Argentina e Costa Rica. Serão quatro jogos no Pacaembu até domingo (1º).

Os doadores via Lei de Incentivo são a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), com R$ 500 mil, além das empresas Uber, com R$ 495 mil, e Atacadão, com R$ 358 mil.

Em 2018, segundo dados oficiais da Secretaria Especial do Esporte (subordinada ao Ministério da Cidadania), mais de R$ 276 milhões de reais foram destinados ao esporte pela lei. Dessa quantia, aproximadamente 43% foram para projetos da categoria alto rendimento, como o torneio de futebol feminino.

O futebol de campo é a terceira modalidade que mais recebeu dinheiro pela lei, com R$ 19,8 milhões, atrás de tênis (R$ 23,8 milhões) e corrida de rua (R$ 25,1 milhões). Procurada para comentar o assunto, a secretaria não respondeu às perguntas.

A Sport Promotion diz comercializar o projeto aprovado pela Fif7 junto ao Ministério do Esporte.

"Por termos participado de eventos com o mesmo perfil no passado, estamos auxiliando a Fif7 em outros temas, como contato com as seleções participantes, divulgação e comunicação", afirmou a empresa.

"A CBF faz a parte logística, e a Sport Promotion, através de um grupo de futebol society de 7 [a Fif7], que tem uma empresa que apoia a Sport Promotion, viabiliza o jogo. Nós somos convidados desse modelo", disse Marco Aurélio Cunha.

A confederação teve, em 2018, uma receita bruta de quase R$ 617 milhões. Desses, R$ 318 milhões são verbas de patrocínio, provenientes, substancialmente, da seleção brasileira (98% do total, segundo a entidade).

Cunha diz que houve aumento de investimentos da CBF no futebol feminino nos últimos anos.

"Temos mais jogos nos campeonatos, 18 Clubes na Série A1 e 36 na A2. Um campeonato sub-18 que ano que vem terá 12 clubes", explica.

A Sport Promotion organizou torneios internacionais com a seleção feminina de 2009 a 2016. Nas edições anteriores, a competição não captou recursos pela lei de incentivo.

O grupo ganhou, em 2019, o direito para exploração das placas de publicidade do Campeonato Brasileiro.

A confederação anunciou uma concorrência para definir quem seria a dona das placas, e o jornal Folha de S.Paulo antecipou o resultado da escolha com mais de um mês. No dia 24 de janeiro de 2019, mesma data em que a CBF informou em seu site oficial que passou a convidar empresas para participar da disputa, a reportagem recebeu a informação de que a Sport Promotion já havia sido previamente definida como vencedora.

Em 31 de janeiro, mesma data da apresentação das propostas pelas empresas concorrentes, a informação foi registrada pela reportagem no cartório do 1º Tabelião de Notas da Capital, em São Paulo.

A vencedora da licitação também foi indicada em anúncio cifrado publicado pela Folha de S.Paulo em sua seção de classificados no dia 7 de fevereiro, mesma data em que os clubes se reuniram pela primeira vez na sede da CBF para discutir as ofertas.

A Sport Promotion, dos sócios João José Bastos e José Francisco Coelho Leal, o Kiko, tem relações comerciais com a CBF há cerca de 30 anos.

A empresa começou trabalhando com o programa Show do Esporte, da TV Bandeirantes, e se expandiu no esporte brasileiro.

Atualmente, segundo informa em seu site oficial, a empresa detém os direitos de transmissão das Séries B, C e D do Brasileiro em parceria com emissoras de televisão e ainda explora as placas de publicidade dessas competições.

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