Torcedores do Irã abraçam americanos, mas se dividem sobre atos contra o regime

DOHA, QATAR (FOLHAPRESS) - Apesar de Irã e Estados Unidos não manterem relações diplomáticas, o que se viu nesta terça-feira (29), na partida da Copa do Mundo que terminou com vitória e classificação dos americanos, foi um clima amistoso entre os torcedores dos dois países.

Alguns minutos foram suficientes para que dezenas de iranianos tirassem fotos com um casal de americanos que tinham os rostos pintados com as cores da bandeira dos EUA. Eles estavam em frente ao estádio Al Thumama, em Doha, capital do país, pouco antes da partida. A cena se repetia por toda a arena. Não havia hostilidade entre as torcidas.

Um deles era o americano Lee Ibrahim, 44, caracterizado da cabeça aos pés. Ele não acreditava que as pessoas estavam ali pensando em política. "Nós somos todos irmãos e irmãs e estamos aqui para ver um bom jogo de futebol", disse.

Sua mulher, Amanda Ibrahim, 41, tinha um sentimento semelhante. "Nós estamos apenas torcendo pelos nossos times, torcendo uns pelos outros, aproveitando o momento."

Quando a bola rolou, o som da arquibancada preencheu o estádio. Qualquer um que tivesse acompanhado jogos anteriores sabia que o volume daquela partida era muito mais alto —um misto de buzinas, gritos e percussão. A torcida do Irã era a que tinha mais gogó.

Do lado dos iranianos, havia uma divisão entre aqueles que viam o futebol apenas como um pretexto para discutir a política do país e quem dizia que era momento de separar os assuntos.

"As questões das mulheres são mais importantes", disse o iraniano Masood Nagvi, 38. Ele se referia às manifestações em justiça por Mahsa Amini, 22, jovem curda morta enquanto estava sob custódia da polícia moral de Teerã. As autoridades disseram que ela não utilizava o hijab, véu islâmico, de forma apropriada.

Já Mohammed Ghafoury, 29, vê o esporte de outra forma. "Política deveria ficar de fora do futebol. Nós somos amigos dos americanos", disse, citando o contexto específico da partida.

Fato é que Washington e Teerã não são amigos desde 1980, um ano após a Revolução Islâmica, quando romperam relações. O movimento transformou o país em uma república teocrática, baseada no Alcorão, e alterou direitos das mulheres, entre outros pontos.

Nesse contexto, estudantes iranianos invadiram a embaixada dos EUA na capital do Irã e sequestraram 52 americanos, que seriam libertados 444 dias depois. Deu-se, então, o rompimento —e o Irã passou a chamar os EUA de "Grande Satã".

Desde então, houve a invasão do Irã pelo Iraque, com apoio financeiro, militar e tecnológico dos EUA. Foram mais de 500 mil mortes na guerra.

E a tensão se intensificou, por fim, com Donald Trump, que colocou por terra anos de negociações para um acordo nuclear, impôs novas sanções ao país do Oriente Médio e, por fim, matou o principal comandante militar do país, o general Qassim Suleimani.

Nenhum dos dois torcedores, Nagvi e Ghafoury, aceitava menos que a vitória nesta terça, como em 1998, quando o Irã venceu por 2 a 1 e eliminou os EUA do Mundial da França.

Na ocasião, a Federação de Futebol do Irã havia anunciado que os seus jogadores não cumprimentariam os americanos durante a partida, gesto que, segundo determinação da Fifa, a equipe deveria fazer.

Por isso, a entidade do futebol abriu uma exceção, e os americanos ficaram responsáveis por saudar os iranianos após o hino nacional. Os persas, então, entregaram flores brancas aos adversários e, por fim, todos posaram juntos para uma foto.

A entidade proíbe manifestações políticas dos jogadores em campo. Na torcida, não são permitidas bandeiras com dizeres políticos.

Nesta terça, os cumprimentos entre os atletas foram protocolares. Nenhum gesto de boa vontade, como das rosas, foi visto.

De acordo com a agência AFP, porém, a Fifa autorizou "gestos de apoio" com mensagens que promovam direitos humanos, o retrato ou nome de Mahsa Amini e a frase lema dos atos, "Mulheres, Vida e Liberdade".

A torcida iraniana tem ignorado as regras e apresentado bandeiras em defesa dos direitos das mulheres nas arenas. Na partida, foram vistas algumas que pediam justiça pela morte da jovem curda.

A iraniana L., 25, foi ao jogo com a vitória de 1998 na cabeça. Para a partida desta terça, optou por um moletom preto com o rosto do rapper americano Tupac, mostrando familiaridade com a cultura do adversário.

Discordava daqueles que diziam que política não deveria se misturar com futebol. Salientava que o peso político do jogo não se esgotava apenas no oponente, mas envolvia também os protestos que ocorrem há meses em seu país.

"No final, é sobre o Irã. Então os protestos e o jogo em si, contra os Estados Unidos, são igualmente importantes", disse ela, na condição de anonimato por medo do regime iraniano.

L. também se referia às manifestações feitas pela morte de Amini, ocorrida em setembro. Desde o episódio, protestos massivos tomaram conta do país e se tornaram alguns dos maiores registrados no Oriente Médio em anos. Mulheres iranianas rasgaram seus véus nas ruas para pedir justiça.

Autoridades locais afirmam que a jovem morreu em decorrência de um problema cardíaco, mas a família contesta. Ao lado de ativistas, afirmam que Amini foi agredida pelas forças de segurança e, por isso, morreu.

Segundo a ONG Ativistas de Direitos Humanos no Irã (HRAI, na sigla em inglês), ao menos 402 pessoas morreram durante os protestos. De acordo com a organização, 16.800 pessoas foram presas, sendo algumas condenadas à morte.

O regime iraniano recentemente acusou Washington de incitar os protestos, resgatando o histórico belicoso entre os países.