Torcedores acompanham a Copa do Mundo pelo barulho da torcida e não veem os jogos

Torcedor da Argentina fora do estádio na Copa do Mundo de 2022, no Catar. Foto: Julian Finney/Getty Images
Torcedor da Argentina fora do estádio na Copa do Mundo de 2022, no Catar. Foto: Julian Finney/Getty Images

Julian Silva viajou 13 mil quilômetros e não emtrou no estádio. Bashar Salhir não conseguiu comprar ingresso, embora tenha tentado. Ram (não disse o sobrenome) não tinha dinheiro para o bilhete.

Os três têm em comum a vontade de estarem próximos da Copa do Mundo de qualquer forma. No Catar, eles fizeram ou ainda fazem parte de um grupo que vai para a área mais próxima possível da arena enquanto a partida ocorre, senta-se e acompanha o que acontece a muitos metros de distância quase apenas pelo barulho da torcida.

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É uma experiência que pode ser das mais frustrantes na vida de um torcedor.

“É a primeira vez que faço isso. E a última”, disse Silva, argentino de Mendoza. Ele ficou na entrada do estádio de Lusail enquanto sua seleção estreava e era derrotada pela Arábia Saudita de forma surpreendente.

Silva viajou de sua cidade natal com ingressos para os dois confrontos seguintes da fase de grupos, contra México e Polônia. Achou que haveria um telão ou alguma outra forma de acompanhar o jogo diante dos sauditas próxima ao estádio. Não havia.

“Eu me sentei aqui com o celular, sintonizei uma rádio argentina pela internet e fiquei prestando atenção também aos sons feitos pela torcida. Tem mais gente aqui fazendo isso, mas não sei o motivo. É horrível”, completou o arquiteto de 29 anos.

Lusail é um estádio fácil de chegar. Palco construído para a final em uma cidade erguida a partir do zero para receber a Copa do Mundo, tem acesso rápido de metrô e está colado a Doha. Julian Silva odiou a experiência, mas esta não lhe deu muito trabalho.

È uma situação bem diferente de Bashar Salhir, 34. Ele queria muito ir à abertura da Copa, entre Catar e Equador. Não conseguiu entradas. Pediu ajuda a amigos e nada aconteceu. Levou um cartaz que dizia “compro um ingresso”, em inglês e ficou circulando pelas imediações do estádio Al Bayt. Sem sucesso.

Quando chegou a hora do apito inicial, ele se sentou com as costas apoiadas em um totem que explica quais são os objetos proibidos nos estádios e tentou “acompanhar” a vitória do Catar.

“Foi frustrante. Tenho bilhetes para outras partidas do Mundial, mas queria muito ver essa. Há outras que também desejava, mas não consegui, como Alemanha e Japão. Vou fazer a mesma coisa. Levar um cartaz avisando que quero comprar e, se não der certo, escutar o barulho que vem do estádio”, diz o funcionário de una loja de artigos para celular.

Ele garante não ser tão ruim assim. Pelo som, é possível entender qual seleção está melhor. O gol é facilmente identificável pelo ruído, jura.

Torcedor tira foto fora de estádio na Copa do Mundo. Foto: Julian Finney/Getty Images
Torcedor tira foto fora de estádio na Copa do Mundo. Foto: Julian Finney/Getty Images

“Tenho outros amigos que vão fazer isso. É melhor do que ficar em casa, no silêncio. Aqui tem clima de Copa do Mundo, pelo menos”, completa.

O problema, no caso dele, é que o estádio de Al Bayt é o mais distante do torneio. Está na cidade de Al Khor, a cerca de 50 quilômetros de Doha. Ele teve de esperar um ônibus que o levaria à estação de Lusail, a mesma que Julian Silva passou para “ir ao jogo” da Argentina. Chegou em casa na madrugada seguinte.

Não é um fenômeno novo. Nos torneios realizados na Rússia (2018) e Brasil (2014) igualmente havia torcedores que se contentavam em estar fisicamente próximos dos jogos, mesmo sem poder vê-los. É uma forma de se conectar com o maior evento do esporte mundial.

“Eu gostaria de ver ao vivo, mas é impossível. Estou desempregado. Não posso gastar com isso. Minha mulher me mataria”, diz, para rir no final, Ram, nepalês que trabalha em obras de construção civil e procura nova colocação.

A esposa dele nem está no Catar. Vive no Nepal. Ele precisa, como milhões de outros imigrantes que vivem no país, mandar todos os meses recursos para a família.

Ram ficou nas redondezas do Al Rayyan Stadium durante País de Gales e Estados Unidos. Andou de lá para cá durante os 90 minutos. Assegura que, pelos gritos, descobriu que o placar havia sido 1 a 1.

“É divertido fazer isso. Você conversa com outras pessoas, faz contatos e está de alguma forma próximo da Copa do Mundo. Vou continuar fazendo enquanto não tiver trabalho”, assegura.

Desde que seja à noite, faz questão de deixar claro. De dia, procura emprego porque, se a mulher descobrir como ele usa o tempo durante o Mundial, vai matá-lo.